NO MEIO DO CAMINHO por hamilton alves / florianópolis.sc



Drummond tem um poema que, para alguns críticos e outras pessoas, que de crítico não têm nada, como o psiquiatra Hélio Pellegrino, inaugurou a poesia moderna ou ingressou, de certo modo, no espírito moderno que guiou a arte brasileira a partir de 22. Ei-lo:

“No meio do caminho tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

Tinha uma pedra

No meio do caminho tinha uma pedra.


Nunca me esquecerei desse acontecimento

Na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

Tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra”.


O psiquiatra referido, amigo de Paulo Mendes Campos, de Otto Lara Resende e de Fernando Sabino, quando, freqüentando à época os bancos do ginásio, ouviu o professor de português dizê-lo, em aula, ficou profundamente impressionado, a ponto de perceber que ali nascia a poesia moderna brasileira. De certo modo mudava tudo na poética que vinha desde então se praticando.

Acredito que esse deva ter sido um dos primeiros poemas de Drummond. Foi escrito (referido no livro de Geneton de Moraes Neto – uma biografia sobre o poeta) em 1927.

O poema tornou Drummond, da noite para o dia, uma espécie de mago. Suscitou um verdadeiro choque na opinião pública e, especialmente, nas pessoas que lidavam ou estudavam poesia, uns estranhando-o, outros entendendo, como Hélio Pellegrino, que era uma janela ampla que se abria ou um vento renovador que soprava na poesia tupiniquim.

Ainda hoje suscita narizes torcidos, palavras de menoscabo ao poeta, e, claro, comentários de toda a natureza, pois tornou-se uma espécie de revolução no modo de formular ou conceber a poesia.

Na biografia de Drummond referida, o poeta numa resposta dada a uma pergunta formulada por esse jornalista, envolvendo a feitura desse poema, diz muito francamente:

“Minha intenção era fazer um poema monótono, sobretudo monótono”.

Assim, sendo uma novidade boa para uns e algo atroz para os ouvidos ou a sensibilidade para outros, esse poema atravessa já 81 anos de existência.

Devemos-lhe muito, pois arejou a mesmice até então vigente na poesia brasileira, feita de métrica e rima (nada contra), dentro de cânones já mais ou menos superados, tendo a Semana da Arte Moderna, de 1922, formulado tal

rompimento por via de um grupo paulista conhecido, tendo Oswald de Andrade à frente.

“No meio do caminho” foi a senha de liberdade que ecoou na tribo lá se vão tantos anos.

5 Respostas

  1. prezado amigo Manoel de Andrade,

    lembro-me de sua amável visita a minha casa com o Vidal. o episódio, referido por Pellegrino, tal como informado na minha crônica, colhe-se de uma biografia feita por Geneton Moraes Neto de Drmmond, editada pela Globo, quanto ao caso de ter ouvido o poema do poeta dito por um professor de português, quando aluno de ginásio. acho que esse poema não apenas marcou a modernidade no país, mas ainda agora me parece ser o portador dessa mensagem renovadora que sopra nas artes de um modo geral. é um poema que incita ao rompimento com a mesmice e à procura sempre de novos caminhos. não sabia que Pellegrino tinha sido excluido da Sociedade de Psicanalista do Rio. O que foi uma honra para ele e para seu colega Eduardo. Mascarenhas. grande abraço. hamilton

  2. Caro Hamilton, — por quem tive a honra de ser recebido em sua casa em Florianópolis, levado pelas mãos do nosso fraterno amigo João Bosco Vidal — o psicanalista, escritor e poeta Hélio Pellegrino, — por cuja memória quem tenho o maior respeito, quer pelo incomparável ser humano que foi, quer pela sua coragem em dar a cara pra bater no rumoroso episódio da morte do ex-deputado Rubens Paiva, na época da Ditadura, que lhe custou a expulsão, junto com Eduardo Mascarenhas da Sociedade Psicanalista carioca, em 1980, — foi um dos intelectuais mais respeitados do País e raras pessoas foram tão coerentes na ação e nas palavras como ele. Não conheço esta colocação de Pellegrino sobre a relação deste poema de Drummond com o “nascimento da poesia moderna brasileira”. Como você sabe o conceito de Modernismo, não somente enquanto escola, marcou o mundo literário entre as Gerações de 22 e a de 45, a qual pertenceu Drummond. Quem sabe Pellegrino tivesse uma idéia melhor de modernismo na poesia do que propôs a Semana da Arte Moderna de 1922. Quem sabe ele quis revelar, com a novidade estrutural do poema de Drummond, o muito pouco de perene que ficaria do Modernismo, “ao lado do que ele teve de efêmero, a exemplo de outras vanguardas”, como afirma o crítico Wilson Martins.

    Em tempo:
    Vidal, é preciso fazer a correção na segunda referência ao Pellegrino.

    Um fraterno e saudoso abraço aos queridos poetas.

  3. identificado o equívoco por darlan cunha e admitido e autorizado pelo autor da crônica fazemos a correção.

    O EDITOR.

  4. prezado Darlan,

    poxa, o nome correto do psiquiatra que referi na crônica, amigo de paulo mendes campos, de otto lara resende e fernando sabino é, na verdade, hélio pellegrino. me enganei. você é um dos poucos que apreciam esse poema de Drummond. a maioria das pessoas, sem sensibilidade, lhe torcem o nariz. obrigado pela referência à crônica. gostaria muito de conhecê-lo. meu endereço é “hameral@gmail.com”. abraço. hamilton

  5. Prezado Hamilton Alves,

    sempre tive este poema em alto conceito – tanto estrutural, quanto pelo desmantelamento, feito por ele, da rede pesada anterior a ele – ainda que involuntáriamente -, quanto pela prática, iniciada aí, de se fazer com material mais leve o mais pesado que o ar, até chegar a ser fazendeiro do ar, até perguntar ao José o que fazer com os cacos do verbo amar, até chegar ao longo e temível poema América, até dar adeus, ou fazer a despedida, em inglês: farewell).

    Quanto ao nome do médico pisicanalista em questão – pessoa de grande conhecimento no que tanje ao chamado nó cultural -, amigo dessa turma que está citada nesse texto seu, o nome dele é Hélio Pellegrino. Teve por companheira a escritora gaúcha Lya Luft, autora, entre outros, de Mulher no Palco.

    Muito bom ler algo sobre CDA. Felicidades.

    Respeitosamente,
    Darlan M Cunha

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