Arquivos Diários: 29 junho, 2009

A MORTE E AS LETRAS por jorge lescano / são paulo

Para Raul Longo


Um grego deplorou a invenção da escrita, julgava que ela deveria enfraquecer o exercício da memória. Diz-se que com a morte de cada homem o mundo fica mais pobre, tal verdade foi escrita por alguém que dedicou a vida a esta atividade. Outro afirmou que o ofício de escrever é uma luta contra a morte. O necrológio é um gênero literário, nenhum texto recupera a vida, no máximo poderá sintetizar escorços do que foi um corpo e uma mente. Estranha leitura a do noticiário fúnebre.

Nesta madrugada insone, navegando na internet – navegador esporádico e inconstante – dei com a notícia de um amigo a quem não vejo há mais de vinte anos. Publicava ele uma crônica de lembranças de um desenhista que circulou pelo centro de São Paulo nas três últimas décadas do século passado. Nesse texto dedicado a outro, surgia o meu nome, e entre parênteses, de forma lateral pode-se dizer, a notícia do meu falecimento. Surpresa de ver estampada em letras de imprensa esta informação. Antes, em duas ocasiões, já haviam me dado por morto. Nunca soube como surgiram estas versões infundadas. Das vezes anteriores, talvez por apenas tê-la ouvido, a “informação” provocou meu bom humor. Não me escapa que também era mais jovem e a morte parecia um fato distante, quase alheio; agora, pelo registro impresso, o boato adquire categoria de verdade, tal a superstição cultivada pelos leitores compulsivos. Passado o momento da surpresa, a reflexão, povoada de leituras sobre o tema, aponta outro rumo, o do vácuo deixado pela morte.  Sempre testemunhamos a morte dos outros. Se os mortos são próximos, a ausência se instala no cotidiano, vemos o mundo e pensamos em como eles o veriam, também lamentamos que não estejam presentes para desfrutar daquilo que nos agrada. Sinto a ausência dos meus mortos como um enorme vão na realidade, algo que sem deixar de ser verdade não corresponde, não é coerente com a tessitura do universo. O absurdo da vida se torna patente: nascer para morrer. Para os meus conterrâneos eu devo ter morrido há mais de quatro décadas, tantos anos faz que saí da minha terra. Para eles, nos primeiros tempos, isto deveria ser apenas uma suspeita, e acredito que alguém ainda me considera vivo. Gosto de imaginar qual seria a reação deles se reaparecesse de repente. Este tipo de morte se parece com o sonho e é assim que por vezes me visitam. Sei de alguns que já se foram, deduzo a partida dos outros pela idade dos mais velhos.

Quando aquela notícia na internet se tornar realidade, quem imaginará o mundo com os meus olhos?

Sempre vivi à margem dos mercados da arte, acredito que as dúzias de textos que escrevi há muito amarelaram na memória dos meus raros leitores. Sou avesso às fotografias porque elas fixam o passageiro. Penso que a obra dos escritores só se completa com a morte deles, mas, como saber o que ainda tinham em mente? Conhecemos os projetos de algumas pessoas pelo que elas nos contam, ignoramos o que por esquecimento ou qualquer outra razão deixaram de dizer. Agora, ao ler sobre a minha pretensa morte, me pergunto o quê as pessoas que me conheciam pensaram. Não pretendo interrogar ninguém nem comunicar “oficialmente” a minha ressurreição. O núcleo dos meus antigos amigos fica cada vez menor e mais distante, contudo, me pergunto: o quê de mim terá ficado neles enquanto me pensam morto?

Será que estou pronto para enfrentar a responsabilidade da morte? Quando ela chegue, quantos e quais textos deixarei de ler? Sempre me recusei a contemplar cadáveres. Se a exposição do corpo é inevitável, desejo que um livro aberto cubra o meu rosto, que meus afetos e desafetos lembrem de mim nos afazeres cotidianos, é assim que lembro os meus mortos. Ainda não decidi qual livro me acompanhará na sepultura, são tantos os que não li!

Quero uma morte definitiva para mim enquanto me recuso a aceitar a ausência total daqueles que partiram. Creio que pensar profundamente na morte nos faz viver com mais intensidade o momento fazendo de cada instante algo único.

Agradeço ao meu amigo seu engano (há três anos me pensa morto), ele me permitiu fixar estas noções tantas vezes adiadas. Creio que o grego estava enganado: as letras enriquecem a memória, prolongam a vida.

CARTA A NELSON RODRIGUES por sérgio da costa ramos / florianópolis.sc

Meu caro Anjo Pornográfico: Estava escrito há 10 milhões de anos, quarenta minutos antes do Nada, que o Fluminense perderia para o Avaí na Ressacada, aos 48 minutos do segundo tempo, numa intervenção direta do Senhor dos Passos, inconformado com a grave, a cava injustiça que se desenhava em campo: mais um empate sensaborão, mais uma iniquidade do destino. O azurra jogava como nunca e empatava como sempre.SERGIO DA COSTA RAMOS

Junto com um maço de “Caporal Amarelinho”, pito da tua predileção, mando-te o VT do jogo, para que vejas com os teus próprios olhos o “passeio” que o tricolor tomava no primeiro tempo – e os gols que o meu Avaí perdia no segundo, depois de um empate injusto, estimulado por Sua Senhoria. Sim, tens razão: a arbitragem normal e honesta confere a uma partida um tédio profundo, uma mediocridade irremediável. Só o juiz gatuno, o juiz larápio, dá ao futebol uma dimensão nova e – como dizias – “shakespeariana”.

Pois o Avaí jogava como a Seleção Húngara do Armando Nogueira, deslizando em campo como um cisne de Tchaikovsky. O primeiro gol, de Muriqui, resultou de uma sinfonia bem acabada, uma Nona de Beethoven, uma Sinfonia número 3, de Chopin – sem querer “inticar” com um dos seus virtuoses, o nosso emérito tricolor Arthur Moreira Lima.

Não chorem, caros Nelson e Arthur, lágrimas de esguicho: aquele gol espírita, emanado da canhota de um Gago, não tinha nada a ver com o “Sobrenatural de Almeida”. Era a pura materialização da espada da justiça sobre a Terra. O Avaí jogava futebol – e bem – o tricolor, fazia cera. Acreditem: até o técnico tetracampeão do mundo, Parreira, foi flagrado retendo a bola à beira do campo, tentando fazer o relógio andar.

E se a justiça quisesse impor sua verdade sobre o jogo, os ventos da Ressacada teriam testemunhado um massacre. O placar moral da partida não ficaria por menos de 5 a 2 – tivessem William e Lima consumado gols fáceis, gols que até a “grã-fina de nariz de cadáver” faria, mesmo sem saber “quem é a bola”.

Agora sabes, meu caro Anjo, aí das alturas onde cometes o teu voyeurismo: só há uma “Squadra Azurra” no mundo – e não é a esquadra de Buffon, Gatuso, Cannavaro e Pirlo. A verdadeira “azurra”, a que faz “cosi e tutti quantti”, é a azurra de Martini, Muriqui, Marquinhos e Leo Gago.

Dirão os idiotas da objetividade, os torcedores anticelestiais: comemoram o quê, esses azuis? O primeiro lugar da zona do rebaixamento?

Pois em verdade vos digo, caro Nelson e “amicci” rivais: este campeonato brasileiro ainda ouvirá falar de novas epopeias azurras, de novos “allegros” avaianos, de novos finais intensos e dramáticos, como um “Macbeth”, um “Coriolano”, um “Julio César”, um “Otelo”, um “Hamlet”, um “Rei Lear” – que eu rapidamente adaptaria para “Rei Leão”. Modificando todos os desfechos, é claro.

Daqui para a frente, o Avaí só conhecerá “happy-ends”.

HOMENAGEM AO AMARELO de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

O sol e a mãe amarela

com seu úbere de raios mornos

amamenta a vida.

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Plantações de girassóis

bebem grandes quantidades de amarelo.

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Amarelo não se perde

se uma flor de ipê morre

seu amarelo evapora

e é sugado pelos canários.

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Todo o pássaro vem do amarelo

tem sua gênese na gema

portanto todo o voo tem sua iniciação no

amarelo.

MERCADO CENTRAL (1) por darlan cunha / belo horizonte.mg

No Mercado Central, em BH, ouvi que as letras miudinhas dos contratos socias e das bulas ninguém as lê, pelo que nos consome de paciência, de paz e ciência. É bom ir lá para, entre mil cheiros e formas, cores e timbres, sorver o diário de queixas e gozações em sua mais exata tradução, flores, espinhos e raízes do populacho em sua sanha feraz, sim, isto é para dirimir dúvida qualquer a respeito do torso ferrenho da plebe ignara, bem como par, talvez, esbarrar ali em distintas luvas e colares, e nos mais vistosos seios e septos nasais, refeitos de algum bisturi. Até porque mercado é mercado, mercancia, mercadoria, mercadologia, marketing, open market, bolsa de retalhos, de mercadorias (café decidido em london city, cacau decidido em chicago city), ou seja, lá está em tom sustenido maior a pífia servologia social e sua sinonímia infinita, desde imemoriais tempos, e ainda antes da invenção de deus, sim, já antes dele nós nos vendíamos e nos comprávamos a granel e por atacado, entre algum usucapião, um empréstimo ou um aluguel e outro a módicos preços.