A MORTE E AS LETRAS por jorge lescano / são paulo

Para Raul Longo


Um grego deplorou a invenção da escrita, julgava que ela deveria enfraquecer o exercício da memória. Diz-se que com a morte de cada homem o mundo fica mais pobre, tal verdade foi escrita por alguém que dedicou a vida a esta atividade. Outro afirmou que o ofício de escrever é uma luta contra a morte. O necrológio é um gênero literário, nenhum texto recupera a vida, no máximo poderá sintetizar escorços do que foi um corpo e uma mente. Estranha leitura a do noticiário fúnebre.

Nesta madrugada insone, navegando na internet – navegador esporádico e inconstante – dei com a notícia de um amigo a quem não vejo há mais de vinte anos. Publicava ele uma crônica de lembranças de um desenhista que circulou pelo centro de São Paulo nas três últimas décadas do século passado. Nesse texto dedicado a outro, surgia o meu nome, e entre parênteses, de forma lateral pode-se dizer, a notícia do meu falecimento. Surpresa de ver estampada em letras de imprensa esta informação. Antes, em duas ocasiões, já haviam me dado por morto. Nunca soube como surgiram estas versões infundadas. Das vezes anteriores, talvez por apenas tê-la ouvido, a “informação” provocou meu bom humor. Não me escapa que também era mais jovem e a morte parecia um fato distante, quase alheio; agora, pelo registro impresso, o boato adquire categoria de verdade, tal a superstição cultivada pelos leitores compulsivos. Passado o momento da surpresa, a reflexão, povoada de leituras sobre o tema, aponta outro rumo, o do vácuo deixado pela morte.  Sempre testemunhamos a morte dos outros. Se os mortos são próximos, a ausência se instala no cotidiano, vemos o mundo e pensamos em como eles o veriam, também lamentamos que não estejam presentes para desfrutar daquilo que nos agrada. Sinto a ausência dos meus mortos como um enorme vão na realidade, algo que sem deixar de ser verdade não corresponde, não é coerente com a tessitura do universo. O absurdo da vida se torna patente: nascer para morrer. Para os meus conterrâneos eu devo ter morrido há mais de quatro décadas, tantos anos faz que saí da minha terra. Para eles, nos primeiros tempos, isto deveria ser apenas uma suspeita, e acredito que alguém ainda me considera vivo. Gosto de imaginar qual seria a reação deles se reaparecesse de repente. Este tipo de morte se parece com o sonho e é assim que por vezes me visitam. Sei de alguns que já se foram, deduzo a partida dos outros pela idade dos mais velhos.

Quando aquela notícia na internet se tornar realidade, quem imaginará o mundo com os meus olhos?

Sempre vivi à margem dos mercados da arte, acredito que as dúzias de textos que escrevi há muito amarelaram na memória dos meus raros leitores. Sou avesso às fotografias porque elas fixam o passageiro. Penso que a obra dos escritores só se completa com a morte deles, mas, como saber o que ainda tinham em mente? Conhecemos os projetos de algumas pessoas pelo que elas nos contam, ignoramos o que por esquecimento ou qualquer outra razão deixaram de dizer. Agora, ao ler sobre a minha pretensa morte, me pergunto o quê as pessoas que me conheciam pensaram. Não pretendo interrogar ninguém nem comunicar “oficialmente” a minha ressurreição. O núcleo dos meus antigos amigos fica cada vez menor e mais distante, contudo, me pergunto: o quê de mim terá ficado neles enquanto me pensam morto?

Será que estou pronto para enfrentar a responsabilidade da morte? Quando ela chegue, quantos e quais textos deixarei de ler? Sempre me recusei a contemplar cadáveres. Se a exposição do corpo é inevitável, desejo que um livro aberto cubra o meu rosto, que meus afetos e desafetos lembrem de mim nos afazeres cotidianos, é assim que lembro os meus mortos. Ainda não decidi qual livro me acompanhará na sepultura, são tantos os que não li!

Quero uma morte definitiva para mim enquanto me recuso a aceitar a ausência total daqueles que partiram. Creio que pensar profundamente na morte nos faz viver com mais intensidade o momento fazendo de cada instante algo único.

Agradeço ao meu amigo seu engano (há três anos me pensa morto), ele me permitiu fixar estas noções tantas vezes adiadas. Creio que o grego estava enganado: as letras enriquecem a memória, prolongam a vida.

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