O BOBO e CONTRA-CENA mini contos de raimundo rolim / morretes.pr

O bobo

Era isso o que pensavam então! Então era isso! Pensavam mas nunca falavam. Eram uns esquisitos aquela gente. De onde cargas-d’água tinham vindo? Ninguém sabia dizer nada que prestasse, só coisinhas assim, de nada, bobagenzinhas. Eram palavras tolas, coisa de gente que sabia falar sem saber o que falava. Riam-se. Pelo menos isto faziam, ih, e como riam!!! Pra piorar, as vozes que tinham eram guinchados horríveis, estridentes. Aquilo era nada. Parece que aquela gente tinha saído debaixo do chão. Rotos, sujos e não sabiam nada. Tinham fome, ih se tinham, e bebiam água. E diziam bobagem e riam. Um deles era o representante do resto, aquele que acreditavam ser o bobo-mór, que lhes era igual ou superior. Esse nem ria e nem falava. Observava calado toda aquela indolência hirta. Parecia estar plugado num’outra instância. Pelo menos mantinha os olhos bonitos e serenos abertos; como olhos de hindus. Esse era o bobo deles! Gestos graúdos como os de um ator e de repente, este bastante representante desta choldra, desabou, revirando os grandes olhos especulativos, para se pôr de pé em seguida e à guisa de oráculo, falou-lhes na linguagem das cavernas, ou antes, linguagem de magma. E eles se entreolharam e riram mais uma vez, um risinho bobo, de gente tola, que nem sabia rir de nada. Quando o bobo voltou à tona, isto, é, a si, fez um sinal único e rápido, simples e enérgico com a mão. E logo um raio saltou de banda e levou aquela gente que só ria, ria de nada, riam deles, era uma asneirazinha. Tinham visto numa telenovela uma vez e aprenderam depressa! Só isso! É que o bobo-mór era assim mesmo, às vezes meio temperamental e impunha-se a si a tarefa de limpar a terra de gente que ria, de nada, de bobagenzinhas, gente de grande inutilidade. Depois o bobo sumiu! Dizem que partiu para um certo planalto. Para um planalto central. Para prestar ajuda a muitos, pois reclamava a si o reino da Inglaterra. Ele era a rainha da Inglaterra. Havia visto sua majestade numa capa de revista, na banca da esquina, gostou do traje e a vaidade se lhe afeiçoou. Tomou-lhe o juízo. Passou-se a chamar Dom, Dom Fernando.

Contra-cena

O interesse pelo show era geral. Finalmente a estréia seria dali a duas horas e a imprensa noticiara. Noticiara não; fora bombardeado com exaustivos clichês o grande evento; o megaevento. Os batedores com suas motocicletas se aprontavam em frente ao hotel para abrir alas no trânsito perturbado, nervoso e engessado. Encontravam dificuldades de locomoção, rugiam seus motores e aceleravam, sem que saíssem do lugar. Alguns carros bateram, coisa leve, logo à frente e outros lá em cima no cruzamento e lá atrás também. O trânsito ameaçava transformar-se num caos previsível, aliás, completamente previsível. O astro dentro da limusine aguardava como podia e não deveria ceder em hipótese alguma aos impulsos de gritar e se descabelar. Afinal, já estava “aprontadinho para o show”. Meia horinha de camarim para relaxar e em seguida subir ao palco; seria este o roteiro suficiente. Era o que imaginava. Aproveitou o incidente para ficar ali quietinho e repassar mentalmente algumas letras das novas canções com os novos arranjos. Contava cada passagem, em que rufariam forte as baterias, ali e acolá entrariam os solos da guitarra; o contrabaixo que faria contraponto com o piano, o sax que duelaria furioso com o clarinetista. Os metais entrariam logo depois, na segunda música, e ficariam até a quinta, quando então seria o improviso e ele, o artista principal, poderia tomar um pouco de água e ar. Fazia de conta que não ouvia as sirenes que teimavam em desequilibrar o seu senso e sistema auditivo e nem as muitas buzinas dos bilhares de carros que, parados, aceleravam e aceleravam. Andar que era bom, nada! Ainda bem que o ar condicionado funcionava legal. Apertou um botão e saltaram da saliência à sua frente copos e gelo nos copos, e achou que poderia tomar um grande e bom trago do velho J.D. Não arriscaria um cow-boy pra não ficar troncho antes da hora, pois que o jantar seria servido apenas depois do espetáculo concluído, quando teria convivas especiais. O comandante do trânsito apareceu, de repente, singrando os céus, num helicóptero barulhento, numa última e desesperada tentativa de resgatá-lo e só não o fez por problemas com a seguradora, que informada da situação, alertou que nas cláusulas do contrato firmado entre a companhia e aquele senhor artista, não estava previsto esse tipo de resgate, de acrobacia aérea. Não foi possível e não houve show. Problemas com o trânsito. Foi o alegado. Mesmo porque, ele distraíra-se a esvaziar aquela garrafa e ainda outra que estava sob o banco e bem que poderia errar algumas notas, ou mesmo frases inteiras e já tinha dificuldades em balbuciar o próprio nome, quanto mais fazer o “bis”. Foi a última coisa que pensou antes de adormecer profundamente no banco traseiro da limusine que felizmente, tinha ar condicionado e uma garrafa vazia a lhe fazer companhia.

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