Arquivos Diários: 4 julho, 2009

TODAS AS CALCINHAS (um pequeno auto-retrato) – por márcia denser / são paulo

Férias sempre me inclinam à ficção, algo muito mais difícil ou completamente impossível de produzir do que reflexões sobre geopolítica, cultura, comportamento, literatura, sem contar efemérides & obituários – afinal, eu deveria falar de Michael Jackson e Farrah Fawcett, se eu não achasse um verdadeiro pé no saco. Porque se não toca aquele sino interno, se não sinto repercutir o carrilhão de cordas da memória, sai um texto escrito sem emoção, um textoMarcia_Denser_nova constituído antes de enxerto do que de raiz, um texto burocratizado, e o que é escrito sem esforço é lido sem prazer.
De forma que engendrei aí um fragmento de auto-retrato (até porque depois dos 50 a gente já começa a fazer balanços de vida, a escrever para a morte) cujo ritmo narrativo e a linguagem ressoam tão harmoniosamente que o conteúdo em si deixa de ter importância, e isto é ficção.
Sou paulistana de quatro gerações. Meu tataravô, Norbert Denser, foi um berlinense que, em torno de 1850 e por razões desconhecidas, deixou a Alemanha pelo porto de Dantzig, embarcando sozinho num cargueiro dinamarquês com alguns livros, a caixa de ferramentas e uma capa de oleado. Um mês depois aportaria em Santos e num estado de calamitoso orgulho subiria a serra pela estrada de ferro inglesa rumo a condições climáticas mais dignas dum homem trabalhar e constituir família, pois deve ter pensado, intuído: case-se com uma mulher da terra, a terra prometida é o corpo da mulher amada.
Por isso em 24 de agosto de 1865, de acordo com os registros do Departamento de Patrimônio Histórico da Prefeitura de São Paulo, data em que assentou sua banca de ferreiro na Rua de Santo Amaro, possivelmente já estivesse casado com uma das Borba, filha ou neta do bandeirante Borba Gato, aquele da Estátua.
Meu avô paterno – que não conheci – Antonio de Borba Denser casou-se com Carolina Miceli, donde papai, falecido em 1997, assinar Durval Miceli Denser. Contudo eu e minha irmã, Maria Teresa, optamos por um único sobrenome: Denser.  Então retornamos ao velho Norbert lá do começo.
Bom, isso é história, agora, a ficção.
Sou escritora e a cidade é meu campo de ação, minha via crucis, meu altar de sacrifícios, meu refúgio, minha entidade mais secreta. E também a mais pública. Desde tempos imemoriais, a cidade é um símbolo feminino, é mulher, então compreende-se porque as estátuas de deusas-mãe, como a Diana de Éfeso, ostentam coroas em forma de muro. Assim, minha personagem Diana Marini é uma representação de São Paulo. Na novela Welcome to Diana ela dá boas vindas ao leitor (em inglês, posto ser cosmopolita), seu lema é seduzi-lo para melhor devorá-lo!
Aos 24 anos publiquei meus primeiros contos. Era gás puro e duma coragem suicida. As pessoas me olhavam com uma espécie de inescrutável repugnância, não conseguiam me situar. Escrevia duma forma um bocado descarada e, ao mesmo tempo, aquilo era literatura. Nem Clarice, nem Cassandra – o que não deixa de ser um escândalo. Mas eu não ia ficar descrevendo baratas metafísicas, por Deus que não, tampouco defender um moralismo pelo avesso, nem um feminismo de fachada.

Trinta anos e dez livros depois (sem contar as antologias e traduções no exterior, do quê eu acho um saco ficar dando release) continuo odiando qualquer tipo de extremismo e me permitindo qualquer exagero. As pessoas continuam me olhando com uma espécie de inescrutável repugnância.
Afinal não sou rica, nem famosa e nem pilantra como Jacqueline Onassis. Tampouco grande dama como dona Raquel de Queiroz, de fardão e tudo. Apenas uma escritora em processo que já se expôs o suficiente e por várias Grandes Damas e Variadíssimas Grandes Vaconas: aquela que lava todas as calcinhas do mundo.

A casa da MÃE JOANA por vilson antonio romero / porto alegre

Joana I, bela e inteligente, no século XIV, rainha de Nápoles, era considerada protetora cultural de poetas e intelectuais. Casada com seu primo Andrew, irmão de Luís I, rei da Hungria, ficou viúva algum tempo depois ao assassinarem o marido em uma conspiração com a participação da própria Joana. Enraivecido, o irmão da vítima invadiu Nápoles em 1348 perseguindo Joana, que fugiu para a localidade de Avignon, na França. Num palácio onde já haviam morado sete papas, ela se instalou e passou a interferir em tudo na cidade. Resolveu até estabelecer regras para os bordéis de Avignon, determinando que cada prostíbulo teria uma porta por onde qualquer pessoa poderia entrar. A partir disso, cada bordel ficou conhecido como “paço da mãe Joana”, considerada a dona da cidade.

Mais tarde, Joana vendeu a cidade em troca da inocência pela participação na morte do ex-marido. Em 1382, foi assassinada por seu sobrinho e herdeiro, Carlos de Anjou.

Nesta terra de palmeiras e sabiás, a palavra “paço” se transformou em termo mais popular, “casa”, passando a expressão a ser “casa da mãe Joana”. Respeitadas e reverenciadas todas as Joanas, avós, mães, filhas que honesta e dignamente vivem nestas plagas, o que vem a ser a “casa da mãe Joana”? A maioria já sabe: lugar, ambiente onde impera a bagunça, desordem, o descontrole, no qual ninguém e todos mandam, num entra e sai constante, sem regras, medidas e normas.

Na Internet, com este nome, encontramos uma casa de samba carioca na Lapa, um filme de Hugo Carvana, com Paulo Betti, em 2008, um livro do professor Reinaldo Pimenta, entre inúmeras outras citações. E, não exagerando muito, esta poderia ser a alcunha da Casa Revisora do Congresso Nacional, pela situação hoje vigente.

Só neste ano, foram revelados os escândalos das farras das passagens, onde inclusive cotas de senadores falecidos eram utilizadas por familiares, amigos, conhecidos e outros. Depois, todos se assombraram com as quase duas centenas de Diretorias, inclusive a de “check-in”. Agora, o escancaramento dos 663 “atos secretos” que permitiram usurparem recursos públicos em favor de apaniguados e “parentes”, com ligação ou não com os parlamentares e, em especial, com o presidente da Casa. Um infindável rol de beneficiários: netos, sobrinhos, diretores, funcionários pessoais, seguranças particulares, o mordomo da “primeira filha”, afora amigos e correligionários cuja vinculação não é tão evidente assim. Todos aboletados em gabinetes, mansões, apartamentos funcionais, ilhas, fazendas. Com uso liberado e descontrolado de jatinhos, celulares, salas secretas, cotas aéreas… São quadrilhas, camarilhas e famílias tomando de assalto o Senado Federal. E o pior: a gente pagando tudo isto!

Uma sucessão de escândalos quase impossível de ser mensurada, num descalabro nacional inexplicável. Somente medidas de profunda mudança restaurando a transparência, confiança e dignidade ao Senado pacificarão a estrutura que, constitucionalmente, representa, na exata medida, a Federação. Não adianta só mandar embora os serviçais. Os seus superiores também têm de mudar. No mínimo, em postura, atitudes e ações. Não pode se perpetuar a “casa da mãe Joana”. O Senado tem papel relevante e indispensável no Estado Democrático de Direito, e hoje se encontra ferido de morte em sua credibilidade e capacidade de representar os cidadãos deste país.

ANJO GABRIEL de cruz e souza / florianópolis

Na calma irradiação das noites estreladas Alto e claro aparece, alto, aparece, claro, Alvo, claro, no luar das estrelas prateadas,

No triunfal esplendor celestemente raro.

O seu busto de Excelso, a sua graça fina,
A linha de harpa ideal do seu perfil augusto,

Estremecem de luz, de uma luz peregrina,
Do secreto fulgor de um sentimento justo.

Serenidade e glória e paz do Paraíso flutuam-lhe na face alvorecida e doce

E quando ele sorri é como se o sorriso

Claros astros semear por todo o espaço fosse.

Leve, loura, .radial, a soberba cabeça
Eleva-se da flor do níveo colo louro
E não há outro sol que tanto resplandeça
Como o sol virginal dessa cabeça de ouro.

As mãos esculturais, de ebúrnea transparência,
De divina feitura e de divino encanto,
Lembram flores sutis de sonhadora essência
Da etérea languidez e de etéreo quebranto.

Das madeixas reais largo deslumbramento
Num flavo jorro cai, com sagrado abandono…
E sai do Anjo o quer que é de vago e de nevoento
Que lembra o despertar sonâmbulo de um sono…

De alto a baixo, do Azul, desfilando das brumas, abre todo ele em flor como nevado lírio,
Belo, branco, eteral, do candor das espumas, banhado nos clarões e cânticos do Empíreo.

Maravilhoso e nobre ergue no braço ovante um gládio singular que rútilo cintila…

Enquanto o seu olhar de mágico diamante

Aflora em plenilúnio através da pupila.

Que o seu olhar, então, esse, recorda tudo
O quanto há de tranqüilo e luminoso e casto.

Maio de ouro a florir meigos céus de veludo

E a neve a cintilar sobre o monte mais vasto.

Do puro albor astral das asas majestosas

Desprendem-se no Azul mistérios de harmonia…

Entre as angelicais suavidades radiosas
Parece o Anjo Gabriel o alto Enviado do Dia!

Na chama virginal de tão rara beleza
Brilha a força de um Deus e a mística doçura… e sai das seduções de tamanha pureza
Toda a melancolia errante da ternura.

Do suntuoso agitar das delicadas vestes

Tecidas de jasmins, de rosas, de açucenas,

Vem o aroma cristão dos aromas celestes

Todas as imortais emanações serenas…

Transfigurado, excelso, agigantado, imenso,

Na candidez hostial das formas impecáveis, fica parado no ar, levemente suspenso
De raios siderais, de fluidos inefáveis.

Mas quando o seu perfil nas amplidões floresce
E das asas se lhe ouve a música sonora
Quando ele agita o gládio e as madeixas, parece
Que vai noctambular pelo Infinito afora.

E alto, branco, de pé, destacado no Espaço, Eleito das Regiões de estranhas Primaveras,

Traça, com o gládio no ar, alevantando o braco,

Uma cruz de Perdão na mudez das Esferas!