Arquivos Diários: 5 julho, 2009

ISABEL GUERRA a madre “SUPERIORA” da pintura / zaragoza.esp

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Referência da pintura espanhola contemporânea, madre Isabel Guerra é uma pintora hiperrealista, em cujos quadros o tratamento da luz tem especial significado. Alguns tem comparado sua obra com a do pintor holandês Vermeer. Autodidata, iniciou-se na pintura aos doze anos, e, aos 23, ingressou na vida monástica. Vive atualmente em clausura, no “Monastério de Santa Lucía” ,da Ordem Cisterciense, em Zaragoza, Espanha. Para ela,  “pintar e amar a Deus” se completam. O tema de seus quadros é, principalmente, a figura humana: jovens adolescentes -“porque asimilamos la esperanza a la juventud’, em atitudes de serenidade e repouso, mas também pinta naturezas mortas com grande maestria técnica. Autora também de livros, a cada tres anos vai a Madri expor seus trabalhos, que atrai enorme público. Acadêmica de honra da Real Academia de Belas Artes de San Luis e acadêmica correspondente da Real Academia de Belas Artes e Ciências Históricas de Toledo, Isabel começa sua jornada às cinco da manhã e, depois de quatro horas de oração, às nove e meia começa seu trabalho no ateliê de pintura. Este, é o único que diferencia sua vida das demais religiosas do mosteiro, já que estas se dedicam a restaurar livros antigos. A vida no convento serviu para um isolamento sereno das preocupações terrenas. Ela declara estar convencida que o mundo não deve perder as esperanças. Sua obra contém uma mensagem de resistência: “a beleza sendo possível, nem tudo está perdido…” “Mis lienzos buscan ser carta abierta a los hombres y mujeres de este tiempo, cuyas tumultuosas aguas forman imponente cascada que cae sobre el cauce estremecido del tercer milenio… ¡Ojalá pudieran ser carta dictada por el Sol que nace de lo alto! Una carta claramente iluminada por la Luz”. (Isabel Guerra)

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ABAIXO, AGUARDE AS TELAS APARECEREM:

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ISABEL GUERRA a monja pintora / zaragoza.esp

OS TRÊS GRANDES por hamilton alves / florianópolis

É comum críticos literários considerarem Machado de Assis, João Guimarães Rosa e Graciliano Ramos como sendo o trio de ouro da literatura nacional. E o são, na verdade. Mas Graciliano é o menos destacado dos três. Ou que tem uma obra um pouco inferior em qualidade. “Angústia” é chatíssimo. Segue a linha da estética do século 19. “Caetés” é simplesmente soporífero. Como pode merecer destaque entre os livros do escritor alagoano. “Memórias do Cárcere”, que conta toda a travessia que fez de Alagoas até o Rio num navio de carga, preso pela polícia de Getúlio, é outro livro mal estruturado, que li (não fui ao fim, foi-me impossível) boa parte aos trancos e barrancos. Antonio Cândido deve ter adorado todos eles pelo simples fato de ser correligionário de Graça. E comungar de seus ideais políticos.

Há uma exceção na ruindade da obra de Graciliano e eminente exceção, diga-se. É sua pequena novela de pouco mais de cem páginas, “Vidas Secas”, que Nelson Pereira dos Santos transformou numa das melhores fitas do cinema brasileiro.

Rubem Braga lhe batizou com um nome que pegou – a novela desmontável. Pelo fato que pareceu ao Braga que todos os capítulos separados tinham sua própria autonomia e mais pareciam contos que uma novela.

Outros críticos disseram coisa semelhante.

Acho “Vidas Secas” uma novela perfeita. Tenho uma edição (ou duas) dela. Nem me lembro as editoras (ou uma só editora) que a lançou, com um prefácio (ou posfácio) de Etelvino Lins, que vai ao fundo de sua estrutura.  Ou de sua elaboração lenta, mas cuidada.

No entanto, Graça tinha por ela total desapego. Teria dito mais ou menos o seguinte quando a publicou:

– Não vale nada.

Tal declaração revela quanto um autor sabe pouco ou não sabe nada às vezes da qualidade de seu trabalho. Não foi a primeira vez que um artista fez tal declaração menoscabando sua obra. Van Gogh foi um desses grandes artistas que não tinha nenhuma dúvida sobre a desvalia de suas telas.

– Meus quadros não têm valor. – disse ele (Cartas ao Theo).

“Vidas Secas”, no entanto, já teve repetidas edições. Alcançou um sucesso estrondoso, mais do que qualquer outro livro de Graça.

Coloco essa novela em igualdade com outras famosas: “O Velho e o Mar”, de Hemingway, “Pedro Páramo”, de Juan Rulfo, e ainda “O estrangeiro”, de Camus, além de outras que poderia citar, de igual estofo.

Em valor literário, essa pequena novela (tipicamente novela, como entendemos ou distinguimos o gênero no Brasil) se destaca na literatura brasileira como, talvez, um acontecimento único. Dizendo de forma diferente, não há outra que se lhe compare, a não ser que se admita que “O alienista”, de Machado de Assis, não seja conto mas também uma novela de poucas cinquenta páginas, como a considero.

Dá impressão ao leitor, ao findar sua leitura, – e o faz com inigualável deleite – que acabou de ler algo em que seu autor se esmerou ao máximo de suas possibilidades para traçar um quadro perfeito de um problema social e regional dos mais pungentes – a seca do nordeste, que dizima há séculos com aquela pobre gente, que ainda hoje, sem nenhuma iniciativa do poder público, sofre seus terríveis efeitos.

Fabiano, Sinhá Vitória e a cachorra Baleia são o triste retrato de uma região desolada pela miséria, pela degradação humana, ao mesmo tempo que, como dizia Euclides da Cunha, revelam que o sertanejo é, antes e sobretudo, um forte.

“Vidas Secas” é um monumento da literatura nacional.

A FALÊNCIA LIBERAL DE ONDE PROVÊM? por walmor marcellino / curitiba

De algum modo, somos vítimas do “paradoxo da informação ideal”, de que nos advertem os filósofos. Sob os interesses de classe (e caráter), tendemos a assimilar a ideologia sociopolítica que nos convenha; e então “nossos compromissos”WALMOR MARCELLINO FOTO 1objetivos e subjetivos desprezam quaisquer informações negativas, contrárias. Dessa maneira a intelligentsia contemporânea poderá afirmar e reafirmar a substância social da igualdade de direitos econômicos, sociais e políticos e a liberdade política concreta para consegui-los, o “idiota privatista” prosseguirá rejeitando o “interesse público” que não aproveite ao seu arrivismo.

Mesmo a produção destrutiva do capitalismo tem (teria?) uma finalidade que a sustém; e assim o sistema capitalista chegou a esta fase AD 2000, em que seu impulso-intenção produtora se liquefaz (naufraga) estrondosamente; com as pessoas que acreditavam na falácia liberal-produtiva (ainda que avassaladoramente destruindo natureza e comunidades) aturdidas no que se vai comprovando sua ”má-fé” ante a sociedade e a natureza ‑ sempre ameaçadas pela “ousadia” e cupidez imperial. Quanto a nós, reputados “imbecis coletivistas”, éramos a um tempo “ignorantes dos fundamentos dessa excelsa liberdade” como induzidos por uma “falácia patética” (sentimentalismo orientado para uma “humanização absoluta” ou simples “frustração ante as realizações alheias”) no desprezo à “única fonte real de progresso”: o próprio sistema capitalista e sua “lógica política liberal-democrático-representativa”.

Não pretendia aqui falar das “grandes virtudes” que, de uma ou outra forma, atraem e condicionam nossas atitudes e comportamento, e sim reconhecer que se consensuam nelas, por mais de 2.500 anos, aqueles “valores sociais” que a cultura eclética capitalista diz ter trazido à convivência no trabalho e na sociedade: a justiça, a coragem, a fidelidade, a compaixão, o amor, a temperança e a prudência, para apenas exemplificar, e não com o escopo de contrapor ao “malin génie” (má-fé intrínseca) de que padece a pós-modernidade.

Sabemos de onde provêm as idéias corretas ‑ da prática social, da experiência científica e da teoria crítica que viemos estruturando ‑; porém “o pensamento politicamente correto” é uma convenção do poder econômico-político, uma falácia alienante jogada sobre o vulgo. Então por que a polidez nos leva a admitir o falaço do provisionado intelectual a babar em nossos ouvidos e a nos reciclar a paciência com essa contumélia filosófica da burguesia?

Sugiro-lhes: não acalentar as burrices e dogmas de direita ou esquerda, de alienados e interesseiros, quando pretendem replicar ‑ ao modelo Fernando-Henrique Collor Cardoso, Gilmar Perlífero Mendes, Olavo Oh de Carvalho ou Diogo Decúbito Mainardi, assim alcunhados, respectivamente, como pelegos políticos: 1 – canhestro sociólogo neoliberal, 2 – jurisproduto e “patife ilustre”, 3 – filósofo fementido e 4 – pensador reciclado ao cotidiano. ‑ no que as práticas econômica, política e científica confirmam.

BAIXA A CRISTA AÍ: vovô era sem terra! – por alceu sperança /cascavel.pr

É curioso esse fenômeno de “ruralistas” com sobrenomes europeus se levantando iradamente contra os sem-terras, enquanto seus filhos, nas universidades, estão fazendo teses de doutorado sobre a brava luta dos despossuídos para superar a miséria. Meno male: pais desmemoriados, filhos estudiosos.

O que eram nossos avós na Itália, senão gente que vagabundeava pelos campos em busca de terras, que já estavam dominadas pelos “nobres”? Por que eles vieram para a América, se amavam tanto seu país? Por que foram aqui tão humilhados pelos proprietários de terras? Por que foram impedidos de tomar as melhores terras, sendo empurrados para as montanhas, como ocorreu no Rio Grande do Sul? Por que eram praticamente escravos em São Paulo?

Porque, minha gente, esses nossos avós eram gente bem parecida com o pessoal do MST, do MLST, da Via Campesina.

Meu bisavô Francesco Carlo Formighieri, pai de vovó Regina, a caçula nascida no Brasil, era uma espécie de camponês sem-terra na Itália. Pior: era perseguido pelo rei Humberto I, o Bom, como perigoso terrorista. Acusação: ele incendiava as propriedades dos aristocratas. Mas ele deu sorte: casou-se com Carolina Rasini Genitrini, cuja família tinha um bocado de terras. É como se o Stédile, digamos, se casasse com uma herdeira da Syngenta.

Mas esse feliz casamento, o sonho de dez entre dez sem-terras italianos, não o livrou do ódio que o rei lhe devotava, por teimar em combater as injustiças de seu tempo. Condenado à morte por enforcamento pelo rei que odiava os sem-terras italianos, Francesco, já com meia dúzia de filhos, mesmo deixando de ser sem-terra e passando a ser abastado proprietário, iria morrer para servir de exemplo aos revolucionários e rebeldes.

A família deliberou que ele viria para a América. Assim, foi para Caxias do Sul formar o Travessão Esperança. Alguns de seus descendentes vieram para Cascavel, onde fizeram coisas como ser o primeiro prefeito, iniciar a imprensa, bolar e construir a avenida Brasil, conquistar o Colégio Wilson Joffre, lutar pelo ensino universitário, trazer a primeira saca de sementes de soja e vai por aí.

Ah, e que fim levou o bondoso rei Humberto, graças a quem estou escrevendo estas mal-traçadas? Foi morto a tiros em 1900, em Monza, pelo anarquista Gaetano Bresci. E nesse dia meu bisavô já estava bem de vida no Brasil…

O sem-terra italiano Francesco, em melhores condições ainda que os avós de muitas outras pessoas que hoje vivem aqui e ostentam riquezas porque suas famílias souberam lhes dar boas heranças, à custa de muito trabalho e sacrifício, tem hoje no Brasil dezenas de descendentes que não precisam acampar debaixo de lonas pretas, nem sofrer a agressão dos mastins da intolerância. Mas os avós desses sobrenomes europeus que hoje circulam nas colunas sociais eram escorraçados como cães nos campos da Itália.

Vindos para o Brasil, foram enxotados para as áreas acidentadas. Os que conseguiam superar as dificuldades eram vistos com inveja, chamados pelo pejorativo “carcamano”, perseguidos pelas ditaduras, indo para a cadeia a qualquer pretexto, apanhando e sofrendo torturas.

Esses avós, posseiros, começaram a prosperidade da região de Cascavel “invadindo” terras e foi preciso que também se levantassem nas revoltas vitoriosas de Porecatu e Sudoeste. Nossos avós, sim. Se pesquisarmos as origens de nossas famílias teremos um pouco mais de respeito pelos sem-terras.