Arquivos Diários: 8 julho, 2009

PARE! EU CONFESSO de marilda confortin / curitiba


Pare, eu confesso!  Apesar de latir, eu não mordo

como o cachorro-louco. Não me bote na coleira.

Sou uma inofensiva poetisa.

Por favor não me transforme em pedreira.

Pare, eu confesso! Apesar do carma dos olhos azuis,

não sou Helena, aquela professorinha querida,

que tanto amou a poesia

que não sobrou amor pra dar pra mais ninguém.

Pare, eu confesso! Sou só uma indefesa mortal,

condenada a sofrer de prisão de versos,

urticária na alma e incontinência verbal.

Sou portadora desde nascença

de uma doença literária crônica,

um distúrbio compulsivo obsessivo poético

causado por uma discrepância lingüística

que inflama a verve, queima o peito,

estufa o ego,  altera a hipérbole

e enche o sacro santo que todo mundo.

Mas não sou a única, Meritíssimo!

Aqui mesmo, neste mesmo lugar, existem vários sujeitos ocultos

que se provocados, poderão cometer eufemismos coletivos,

cuspir  metonímias sem sentido

e se esvair em hemorragias de metáforas implícitas.

E ao contrário do que dizem os críticos, Meritíssimo,

a farmacologia ainda não inventou uma antítese eficaz

capaz de combater essa catacrese catastrófica.

Todos dias, a milhares de anos,

aparece uma criança, um adolescente normal,

um pai ou mãe de família tradicional,

que de repente se depara com uma noite enluarada

e começar a fazer frases rimadas com nua, sua, rua

e se sentir como se fosse o primeiro homem a pisar na lua.

Não condene os poetas, Meritíssimo.

Eles não merecem essa pena. Carecem é de pena.

Se não forem protegidos, serão banidos, como todos os artistas.

Imagine que triste um mundo sem poesia, sem magia,

sem música, sem atores, sem pintores,

sem um enfeites, sem deleite, sem alegria…

MANHÃ DE NUVENS por otto nul / palma sola.sc

Manhã de nuvens

Permeada de azul

Com raios de sol


O gato passa

Passa o cão

A vida passa


Aqui e ali

Nada de anormal

Nem bem nem mal


O homem trilha

O destino que lhe coube

De modo fatal

x x x

(junho/09 – Outro Nul)

CAIXAS por zuleika dos reis / são paulo

Abro os olhos não para a velha cortina presa pelas argolas de madeira, na janela do quarto, e sim para formidável bloco de tom pardacento revelando-se, imediatamente, conjunto de objetos dos mais diversos tamanhos e espessuras a se expandirem em saliências e reentrâncias para todas as direções. Que espaço é este, que são tais coisas? É minha sala, são caixas e caixotes.  Nem todas as caixas são pardas, há razoável quantidade delas de variadas cores, mas como estas se encontram dispersas, prevalece a impressão de que tudo é pardo. Clara apenas a certeza de que caixas e caixotes servem para guardar coisas, para preservá-las de danos, além de outras funções das quais, neste instante, não me recordo.

Aquela caixinha ali, no topo, na extremidade à direita. Parece leve, levíssima, quase incorpórea. Ergo o braço, seguro-a delicadamente, verifico-lhe o conteúdo: intacto. Fecho a caixinha verde com seu objeto a salvo, reponho-a no lugar, tranqüilizada. Concentro a atenção em um dos caixotes maiores. Mantenho as mãos imóveis, não é possível destacá-lo, muito menos abri-lo, é dos poucos que sustentam o bloco todo. No entanto, ou talvez por isso, ostente na pele a tatuagem: FRÁGIL.

No Norte da sala, completamente encoberto, protegido, o grande vulto que ocupa toda a extensão da parede e que, sem conteúdo durante a Reforma, sói concentrar em seu corpo a sapiência e a poesia de muitos séculos.  No Sul e junto ao lavabo, a velha valise para pequenas viagens. No Oeste, encostada à janela, a cama de armar, de onde acabo de me erguer. Junto a ela a cadeira de balanço, signo da mãe ausente nestes dias, cadeira também envolta, por inteiro, pelos papéis pardos.  As paredes do corredor, outrossim, esvaziadas dos quadros; no seu lado esquerdo, as portas cerradas dos quartos; na extremidade frontal, a Leste, a porta do banheiro principal, igualmente oclusa. Colocando-me ao lado da valise, após a pequena ablução matinal, posso ver pedaços de caixas no solo da cozinha, cômodo por enquanto sem acesso. Os homens da Reforma, que acabaram de chegar, preparam-se para iniciar suas tarefas cotidianas, nos vários espaços da casa. Para além de todos os fragmentos à vista, abre-se o quintal invisível.

Imagino a luz da manhã a se espalhar pelo tanque, pelo armário com seus materiais de limpeza, pela máquina de lavar com as partes à mostra, pelo cesto de roupa suja, vazio neste momento, pelos varais com pregadores ali esquecidos, libertos da carga habitual, pelo barracão, testemunha de antigas reuniões e de encontros furtivos, por ora a servir de hospedaria para móveis expulsos do próprio habitat; luz a iluminar a horta minúscula, os vasos e seus pratinhos com areia politicamente correta, as avencas, as samambaias, cascatas verdes sob as quais vibraram esperanças de cores múltiplas e, por fim, a casinha remanescente do Fidel, que nos deixou há muitos anos, mas cuja foto ainda marca presença em algum velho álbum de família: sua velha e inútil casinha, no extremo esquerdo do terreno, bem próxima do portão dos fundos, por onde entro para molhar as plantas; bem perto também da calçada, onde estão os sacos de lixo.

Invasores ruídos promíscuos, estridências por todos os lados a reverberarem nos tímpanos. Mãos invisíveis a orquestrarem o som das coisas sendo rasgadas, despregadas, tornadas fragmentos de si mesmas; as coisas sendo destituídas da própria história para a instituição de uma outra, desconhecida, na qual já não caberá o conteúdo de nenhuma das caixas, o nenhum conteúdo delas.

MULHERES IDEAIS… de joanna andrade / curitiba

Liberdade desenhada nas temporas ao custo de uma bala perdida coberta com chocolates num filme de bang-bang,

Solução por uma voz em várias, dialogismo bacteriano

– A cena do Adeus nunca dá em nada quando a estaca é zero-

Fuga desenhada no coração parado no dia dos namorados.

Mulheres ideais vestidas de coelhinhas contentes com seus ovos chocos

– Inquérito-

O fluxo da consciência vai alvejar minh’alma, vaga, eclética, insatisfeita e hipócrita.

Veneno solto pelas presas gastas de meus caninos surdos

-sim, estou cheia deste mundo-

Bombardeio de palavras pérolas de meu harbour,

Ao chão, ao longe………..a moça caída, vestida em branco aguarda o choro da cerejeira em flor.

Ao seu lado uma folha em branco criptografada.

“A GUERRA DO PARAGUAI”, ALGUMAS REFLEXÕES – por cleto de assis / curitiba

O autor faz um contra ponto com o artigo, aqui publicado no dia 06/07/09, do professor Mário Maestri, que o leitor pode acessar clicando AQUI.

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Não tenho a profundidade historiográfica do professor Mário Maestri para analisar a sua defesa do Paraguai na questão da Guerra da Tríplice Aliança*. Guardo apenas os ensinamentos ginasiais sobre o fato, que – reconheço – deve ter sido contado sob ângulo dos vencedores, como sói ocorrer. Também umas poucas referências lidas no decorrer da vida,Cleto De Assis - foto delemas que me possibilitaram formar uma razoável opinião sobre aquele episódio. Por outro lado, sou visceralmente contra qualquer guerra, resquícios do cérebro reptiliano do homem, que não encontra outras razões que não a agressão para defender sua sobrevivência.

De certa forma, temos que considerar a aparente fragilidade do nosso vizinho Paraguai diante dos três países que o cercavam e decidiram unir-se para combatê-lo. É característica do decantado caráter cordial do brasileiro ficar com pena do lado mais fraco e defendê-lo. Isso não existe, por exemplo, na alma dos estadunidenses, que matam uma mosca com um só tapa e conseguem se vangloriar com o feito…

Mas está se tornando cansativo o maniqueísmo estabelecido em algumas análises da famosa Guerra do Paraguai, pois não precisamos ser historiadores para entender que aquele conflito teve muitas causas e vários desenvolvimentos. Não podemos, de uma canetada só, acusar argentinos, uruguaios e brasileiros de agressores e usurpadores dos literariamente coitadinhos paraguaios. A começar pelo princípio: quem declarou guerra ao Brasil e o invadiu, nos primeiros anos do conflito, foi o ditador Solano Lopez, figura controversa, a quem muitos paraguaios reconhecem como um tirano. Um assessor seu, o engenheiro inglês George Thompson, destacado oficial paraguaio durante a Guerra da Tríplice Aliança, descrevia seu chefe como “um monstro sem igual”, no pior sentido das palavras. Consta que, no auge da guerra, Solano Lopez teria mandado torturar sua própria mãe e irmãs, por desconfiar que trabalhavam contra ele. Também usava métodos extremos para conseguir a lealdade de seus guerreiros: ameaçava-os com a morte e teria cumprido muitas dessas ameaças. Espera-se que o anunciado Memorial da Guerra da Tríplice Aliança mostre-o como realmente foi.

No contexto histórico da época, no qual o Paraguai se achava permanentemente ameaçado pela Argentina, aquele país mantinha certo complexo de inferioridade em relação a seus vizinhos, além de ter reduzido, com a ascensão da família Lopez ao poder, depois de 26 anos da ditadura de Rodriguez de Francia, o seu proclamado progresso político e econômico. Solano Lopez, deslumbrado com a história da França, quando visitou aquele país para comprar armas e fortalecer-se contra seus vizinhos, subestimou-os e imaginou poder enfrentá-los no braço. Há quem diga, no próprio Paraguai, que suas bravatas somente queriam esconder o fracasso administrativo de sua gestão e da de seu pai, que o antecedeu. E que teria sido advertido pelo próprio pai que não cutucasse os irmãos maiores com vara curta.

Há também que entender que o Paraguai, quando decidiu declarar guerra ao Brasil, tinha no seu fundo histórico quase cinquenta anos de ditadura: 26 de Francia, 18 de Carlos Lopez e os anos iniciais de Solano. Diz a história (contada pelos paraguaios) que Francia, apesar de ser um visionário e ter implantado alguns progressos na vida de seu país, era também um déspota e se espelhava na disciplina e na dureza política de Robespierre, um dos líderes da Revolução Francesa. Como o francês, prendia e matava à vontade.

Infelizmente tenho que compreender o texto de Mário Maestri com um dos que tendem a culpar os vizinhos do Paraguai pelos horrores daquela guerra. Ele diz objetivamente: “Os crimes cometidos contra a população e a nação paraguaias são de exclusiva responsabilidade das classes dominantes brasileiras, como um todo, e das facções liberais argentinas e uruguaias de então”. Note-se que ele concede exclusividade à responsabilidade das classes dominantes brasileiras ou, como se diz atualmente, as “zelites”. Nadinha de culpa às então classes dominantes paraguaias, lideradas por Solano Lopez.

Como tentei mostrar no início desse comentário, guerra é guerra. Ela carrega em seu bojo a morte, a miséria, a injustiça, por mais que os que a defendem como direito sagrado das nações digam o contrário. Depois da vitória, os despojos são divididos entre os vencedores. Assim foi no tempo das cavernas, nas escaramuças medievais e mesmo nas recentes guerras mundiais. Sem querer fazer pilhéria com a pilhagem, o Paraguai até teve sorte de só perder para o Brasil parte de seu território, hoje na mapa do estado do Mato Grosso do Sul. E se perdesse também o seu rio mais importante, dividido com o Brasil desde os tempos coloniais? Estaria hoje sem poder reclamar dos rendimentos da Usina de Itaipu, tanto em termos de energia quanto dos dólares que ela fatura.

Não, não houve justiça, não houve solidariedade entre povos da mesma região. Mas não misturemos as estações. Há que se trabalhar pela justiça social, pela igualdade, pela fraternidade, pela liberdade, princípios que os franceses legaram ao mundo e nem mesmo eles próprio conseguiram alcançar, até hoje. Assim como não houve justiça na revolução soviética, que também deixou um rastro monstruoso de sangue e agressão entre irmãos de uma mesma nação, mesmo com todo o palavreado teórico de Marx, Engels e Lenin.  Mas não podemos identificar as causas apenas na luta de classes, como conduz o texto do professor Maestri. Devemos notar que o coração humano tem muitas facetas, embora seja símbolo tradicional dos bons sentimentos (cordialidade nele se origina).

É preciso, antes de tudo, entender a natureza humana e suas múltiplas possibilidades. Para o bem e para o mal. Dizer simplesmente que classes superiores sempre dominam, exploram e martirizam as chamadas classes dominadas (em geral, as classes trabalhadoras), é puro maniqueísmo. Assim como o é afirmar que somente nas classes trabalhadoras estão “os homens e as mulheres de bem”. Há pessoas de bem por todas as partes. Há pessoas mal intencionadas por todas as partes. Esses dois tipos permeiam as organizações, os partidos políticos, as organizações religiosas, os governos de todos os países. Ninguém é santo apenas por aderir a essa ou aquela ideologia. Mesmo que seja à do nosso agrado pessoal.

Também é fácil dizer que o Brasil e seus colegas guerreiros são os culpados pela sucessão de ditaduras militares no vizinho Paraguai. Tal afirmação significa não reconhecer o passado histórico daquela área da América Latina, acostumado a ditaduras. Repito: somente com três supremos e totais mandatários (Francia, Lopez pai e Lopez filho), foram 52 anos de poder único antes da guerra. Mas o Paraguai teve a oportunidade de retornar à normalidade democrática, se é que ela algum dia existiu naquele país. E, agora, corre o perigo de se tornar novamente uma sociedade totalitária, caso Chávez e Lugo acertem definitivamente seus ponteiros para marcar a hora do chamado bolivarianismo do século XXI.

Entretanto, isso já é pano para outras mangas, que não sugiro aqui nem acolá. As expressões do artigo do professor Maestri já sugerem, sem precisar analisá-las em profundidade, que suas idéias estão totalmente solidificadas nas teorias marxistas que ele deve adotar e dificilmente conseguiríamos um relacionamento dialético para chegarmos a uma síntese, como o ilustre estudioso deve pregar teoricamente.

Mas não aguento mais duas perguntinhas que tenho na cabeça: que tratados espúrios foram feitos em Itaipu, quando o Brasil se responsabilizou totalmente pelos investimentos da obra e deu ao Paraguai a vantagem de, como parceiro exclusivo, utilizar a energia que sua demanda exigisse e receber a metade da fatura da venda da produção? Que terras teriam que ser devolvidas aos camponeses paraguaios que jamais produziram um grão de soja, supostamente tomadas por proprietários brasileiros que adquiriram áreas improdutivas e tornaram o Paraguai um grande exportador do produto? Se há desvantagens para o Paraguai em Itaipu (que, por certo, construiria ali uma enorme usina, caso o Brasil não tivesse tomado a iniciativa), que se discutam todas elas à luz do dia. Se há grileiros patrícios por lá, cadeia para eles, assim como deveria se fazer aqui.

Concordo com o professor Maestri pelo menos em um ponto: a Guerra do Paraguai foi um lastimável genocídio. Consta que o Brasil participou com 400 mil homens, com baixas de 60 mil, por ferimento de batalha ou doenças. O Uruguai, com um efetivo de 5.600 soldados, perdeu 3.100. Já a Argentina, com 30 mil combatentes, perdeu cerca de 18 mil, além dos civis que morreram em função da guerra, nas invasões dos paraguaios ou por doenças, estes estimados em 12 mil. Quanto ao Paraguai, parece que ainda pairam controvérsias, que mostram mortes entre 90% a 15 ou 20% de sua população. Não importa: nenhuma delas se justifica.

Há quem diga, no entanto, que não foram somente os golpes desferidos pelos soldados as principais causas da mortandade. Como nas demais guerras realizadas até o Século XIX, quando a Medicina ainda não tinha descoberto boa parte de seus curativos, as guerras de antanho matavam mais por doenças e por fome, principalmente pela cólera.

Novamente afirmo: não importa. Nenhuma guerra se justifica.

Aculturados pelo boi(-ismo) – por joão batista do lago / são luis.ma

Aprendi com o professor José Nascimento de Moraes Filho (falecido em fevereiro deste ano) que o folkloremaranhense é, JOÃO BATISTA 002possivelmente, se não o mais rico, mas aquele que guardaria a sua identidade mais próxima das raízes populares. E dentre todas, a mais forte manifestação floclórica do Estado é o boi bumbá. Até aí está tudo bem; tudo perfeito.

Infelizmente já não o tenho para um bate papo a respeito deste assunto. Infelizmente! E tenho certeza que, assim como eu, Nascimento de Moraes, também, não iria ficar calado diante de um processo de aculturamento da Cultura maranhense, sobretudo da Literatura.

Ninguém está aqui a negar o valor dos folguedos juninos que tem no bumba boi sua manifestação mais expressiva. Mas reduzir a Cultura e a Literatura maranhenses a essa corrente de boismo é algo desproposital e demonstra que os seus “pregadores” são sujeitos despreparados para o encaminhamento de políticas culturais.

Esse boismo, tipologia de aculturamento, é avassaladoramente prejudicial para o campo das Artes maranhenses.

Aos meus olhos é a reedição pósmoderna do “Pão e Circo” romano: dê-se comida… bebida… e brincadeira para todos…

As outras manifestações artísticas, como a Literatura e a Pintura, por exemplo, estão subsumidas no “campo patológico” desse boismo nefasto.

A maior expressão literária de São Luis, e consequentemente da Cultura maranhense, para se ficar apenas neste exemplo, é a Poesia, mas esta está enterrada nas toadas de bois (infelizmente!), agora elevadas à condição do gênero poético. Quanta enganação! Quanta burrice! Quanta pataquada!…

Urge, pois, a retomada da identidade da culturalidade marânhica. Há que surgir movimentos capazes de represar esse boismo reducionista imbecil e produtor duma geração de analfabetos funcionais.

Penso que, se vivo estivesse, Nascimento de Moraes encamparia mais esta luta por intermédio do Comitê de Defesa da Ilha de São Luis, hoje jogado às traças e carrapatos dos imcompetentes.

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João Batista do Lago é poeta, escritor e jornalista; fenomenólogo e pesquisador cultural.