“A GUERRA DO PARAGUAI”, ALGUMAS REFLEXÕES – por cleto de assis / curitiba

O autor faz um contra ponto com o artigo, aqui publicado no dia 06/07/09, do professor Mário Maestri, que o leitor pode acessar clicando AQUI.

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Não tenho a profundidade historiográfica do professor Mário Maestri para analisar a sua defesa do Paraguai na questão da Guerra da Tríplice Aliança*. Guardo apenas os ensinamentos ginasiais sobre o fato, que – reconheço – deve ter sido contado sob ângulo dos vencedores, como sói ocorrer. Também umas poucas referências lidas no decorrer da vida,Cleto De Assis - foto delemas que me possibilitaram formar uma razoável opinião sobre aquele episódio. Por outro lado, sou visceralmente contra qualquer guerra, resquícios do cérebro reptiliano do homem, que não encontra outras razões que não a agressão para defender sua sobrevivência.

De certa forma, temos que considerar a aparente fragilidade do nosso vizinho Paraguai diante dos três países que o cercavam e decidiram unir-se para combatê-lo. É característica do decantado caráter cordial do brasileiro ficar com pena do lado mais fraco e defendê-lo. Isso não existe, por exemplo, na alma dos estadunidenses, que matam uma mosca com um só tapa e conseguem se vangloriar com o feito…

Mas está se tornando cansativo o maniqueísmo estabelecido em algumas análises da famosa Guerra do Paraguai, pois não precisamos ser historiadores para entender que aquele conflito teve muitas causas e vários desenvolvimentos. Não podemos, de uma canetada só, acusar argentinos, uruguaios e brasileiros de agressores e usurpadores dos literariamente coitadinhos paraguaios. A começar pelo princípio: quem declarou guerra ao Brasil e o invadiu, nos primeiros anos do conflito, foi o ditador Solano Lopez, figura controversa, a quem muitos paraguaios reconhecem como um tirano. Um assessor seu, o engenheiro inglês George Thompson, destacado oficial paraguaio durante a Guerra da Tríplice Aliança, descrevia seu chefe como “um monstro sem igual”, no pior sentido das palavras. Consta que, no auge da guerra, Solano Lopez teria mandado torturar sua própria mãe e irmãs, por desconfiar que trabalhavam contra ele. Também usava métodos extremos para conseguir a lealdade de seus guerreiros: ameaçava-os com a morte e teria cumprido muitas dessas ameaças. Espera-se que o anunciado Memorial da Guerra da Tríplice Aliança mostre-o como realmente foi.

No contexto histórico da época, no qual o Paraguai se achava permanentemente ameaçado pela Argentina, aquele país mantinha certo complexo de inferioridade em relação a seus vizinhos, além de ter reduzido, com a ascensão da família Lopez ao poder, depois de 26 anos da ditadura de Rodriguez de Francia, o seu proclamado progresso político e econômico. Solano Lopez, deslumbrado com a história da França, quando visitou aquele país para comprar armas e fortalecer-se contra seus vizinhos, subestimou-os e imaginou poder enfrentá-los no braço. Há quem diga, no próprio Paraguai, que suas bravatas somente queriam esconder o fracasso administrativo de sua gestão e da de seu pai, que o antecedeu. E que teria sido advertido pelo próprio pai que não cutucasse os irmãos maiores com vara curta.

Há também que entender que o Paraguai, quando decidiu declarar guerra ao Brasil, tinha no seu fundo histórico quase cinquenta anos de ditadura: 26 de Francia, 18 de Carlos Lopez e os anos iniciais de Solano. Diz a história (contada pelos paraguaios) que Francia, apesar de ser um visionário e ter implantado alguns progressos na vida de seu país, era também um déspota e se espelhava na disciplina e na dureza política de Robespierre, um dos líderes da Revolução Francesa. Como o francês, prendia e matava à vontade.

Infelizmente tenho que compreender o texto de Mário Maestri com um dos que tendem a culpar os vizinhos do Paraguai pelos horrores daquela guerra. Ele diz objetivamente: “Os crimes cometidos contra a população e a nação paraguaias são de exclusiva responsabilidade das classes dominantes brasileiras, como um todo, e das facções liberais argentinas e uruguaias de então”. Note-se que ele concede exclusividade à responsabilidade das classes dominantes brasileiras ou, como se diz atualmente, as “zelites”. Nadinha de culpa às então classes dominantes paraguaias, lideradas por Solano Lopez.

Como tentei mostrar no início desse comentário, guerra é guerra. Ela carrega em seu bojo a morte, a miséria, a injustiça, por mais que os que a defendem como direito sagrado das nações digam o contrário. Depois da vitória, os despojos são divididos entre os vencedores. Assim foi no tempo das cavernas, nas escaramuças medievais e mesmo nas recentes guerras mundiais. Sem querer fazer pilhéria com a pilhagem, o Paraguai até teve sorte de só perder para o Brasil parte de seu território, hoje na mapa do estado do Mato Grosso do Sul. E se perdesse também o seu rio mais importante, dividido com o Brasil desde os tempos coloniais? Estaria hoje sem poder reclamar dos rendimentos da Usina de Itaipu, tanto em termos de energia quanto dos dólares que ela fatura.

Não, não houve justiça, não houve solidariedade entre povos da mesma região. Mas não misturemos as estações. Há que se trabalhar pela justiça social, pela igualdade, pela fraternidade, pela liberdade, princípios que os franceses legaram ao mundo e nem mesmo eles próprio conseguiram alcançar, até hoje. Assim como não houve justiça na revolução soviética, que também deixou um rastro monstruoso de sangue e agressão entre irmãos de uma mesma nação, mesmo com todo o palavreado teórico de Marx, Engels e Lenin.  Mas não podemos identificar as causas apenas na luta de classes, como conduz o texto do professor Maestri. Devemos notar que o coração humano tem muitas facetas, embora seja símbolo tradicional dos bons sentimentos (cordialidade nele se origina).

É preciso, antes de tudo, entender a natureza humana e suas múltiplas possibilidades. Para o bem e para o mal. Dizer simplesmente que classes superiores sempre dominam, exploram e martirizam as chamadas classes dominadas (em geral, as classes trabalhadoras), é puro maniqueísmo. Assim como o é afirmar que somente nas classes trabalhadoras estão “os homens e as mulheres de bem”. Há pessoas de bem por todas as partes. Há pessoas mal intencionadas por todas as partes. Esses dois tipos permeiam as organizações, os partidos políticos, as organizações religiosas, os governos de todos os países. Ninguém é santo apenas por aderir a essa ou aquela ideologia. Mesmo que seja à do nosso agrado pessoal.

Também é fácil dizer que o Brasil e seus colegas guerreiros são os culpados pela sucessão de ditaduras militares no vizinho Paraguai. Tal afirmação significa não reconhecer o passado histórico daquela área da América Latina, acostumado a ditaduras. Repito: somente com três supremos e totais mandatários (Francia, Lopez pai e Lopez filho), foram 52 anos de poder único antes da guerra. Mas o Paraguai teve a oportunidade de retornar à normalidade democrática, se é que ela algum dia existiu naquele país. E, agora, corre o perigo de se tornar novamente uma sociedade totalitária, caso Chávez e Lugo acertem definitivamente seus ponteiros para marcar a hora do chamado bolivarianismo do século XXI.

Entretanto, isso já é pano para outras mangas, que não sugiro aqui nem acolá. As expressões do artigo do professor Maestri já sugerem, sem precisar analisá-las em profundidade, que suas idéias estão totalmente solidificadas nas teorias marxistas que ele deve adotar e dificilmente conseguiríamos um relacionamento dialético para chegarmos a uma síntese, como o ilustre estudioso deve pregar teoricamente.

Mas não aguento mais duas perguntinhas que tenho na cabeça: que tratados espúrios foram feitos em Itaipu, quando o Brasil se responsabilizou totalmente pelos investimentos da obra e deu ao Paraguai a vantagem de, como parceiro exclusivo, utilizar a energia que sua demanda exigisse e receber a metade da fatura da venda da produção? Que terras teriam que ser devolvidas aos camponeses paraguaios que jamais produziram um grão de soja, supostamente tomadas por proprietários brasileiros que adquiriram áreas improdutivas e tornaram o Paraguai um grande exportador do produto? Se há desvantagens para o Paraguai em Itaipu (que, por certo, construiria ali uma enorme usina, caso o Brasil não tivesse tomado a iniciativa), que se discutam todas elas à luz do dia. Se há grileiros patrícios por lá, cadeia para eles, assim como deveria se fazer aqui.

Concordo com o professor Maestri pelo menos em um ponto: a Guerra do Paraguai foi um lastimável genocídio. Consta que o Brasil participou com 400 mil homens, com baixas de 60 mil, por ferimento de batalha ou doenças. O Uruguai, com um efetivo de 5.600 soldados, perdeu 3.100. Já a Argentina, com 30 mil combatentes, perdeu cerca de 18 mil, além dos civis que morreram em função da guerra, nas invasões dos paraguaios ou por doenças, estes estimados em 12 mil. Quanto ao Paraguai, parece que ainda pairam controvérsias, que mostram mortes entre 90% a 15 ou 20% de sua população. Não importa: nenhuma delas se justifica.

Há quem diga, no entanto, que não foram somente os golpes desferidos pelos soldados as principais causas da mortandade. Como nas demais guerras realizadas até o Século XIX, quando a Medicina ainda não tinha descoberto boa parte de seus curativos, as guerras de antanho matavam mais por doenças e por fome, principalmente pela cólera.

Novamente afirmo: não importa. Nenhuma guerra se justifica.

3 Respostas

  1. A Guerra não foi obra da elite Paraguaia, mas decisão pessoal de Solano Lopez. Tanto que em três ocasião ele massacra pessoas da elite que viam nele o fator de destruição dos recursos na nação e do seu povo. Estes foram os verdadeiros heróis repudiados pela nação. A inteligenttia nacional. Que foi podada por Lopez que não aceitava de maneira nenhum abdicar da sua fazenda: o país com o qual se criara considerando sua. Aqueles que viam na guerra desnecessária, sem sentido, um tremendo desastre foram torturadas e mortas. E o povo sacrificado pela fome, pela destruição da produção por Lopez, que fez terra arrasada e deixou a fome se instalar no país. O povo era apenas um peça de Xadrez para ele, como as cabeças de gado, que estavam lá para serem tomadas apenas, como eram as mulheres que se amasiava. Ele queria destruir a nação, e é o que diz quando morto: o Paraguai morre comigo. Não, ele errou. Não conseguiu este intento. O Paraguai se refez apesar do que ele tentou. Finalmente pode existir parlamento, justiça, imprensa independente, partidos políticos e direitos civis. Entende-se que Maestri como comunista deteste estes valores e prestigie facínoras totalitários. Neste aspecto o riquíssimo Solano Lopez e Madama Linch eram a imagem perfeita. Basta ver que a residência pessoal de Lopez, seu lar, serve até hoje de Palácio do Governo, tal o assalto que praticavam na nação.

  2. É com certeza uma história cheias de polêmicas, cada qual defende sua parte, já ouvi sobre o livro citado acima, mas não li. Nasci em Mato Grosso do Sul, mas estou morando em MT, convivi com muitos paraguaios e descendentes, contribuiram e contribuem até hoje na formação da rica cultura daquele estado. Tudo que li sobre esta Guerra, foi que o Paraguai vinha de um crescimento econômico (criação de industria e agricultura) e social (Francia havia zerado o analfabetismo no país) estrondoso, em um curto espaço de tempo (1812-1862) e isto chegou a Coroa Inglesa, como um exemplo que poderia ser seguido por seus vizinhos (clientes da Potente Coroa Inglesa, que financiaria a Triplice Aliança). Portanto varios pontos a serem destacados: O desejo constante da Argentina em expandir suas fronteiras (o Paraguai temia), Os olhos da Inglaterra no Paraguai que crescia e poderia intervir em seus negócios e o Paraguai atravessava um momento que era o mais propicio para este tipo de intervenção, já que se consolidava como potência regional, havia formado um exercito armado bem treinado e havia vencido uma guerra com a vizinha Bolivia onde anexaria parte de seu territorio ,possuia fabrica de polvora e clamava por uma saida para o mar, estrategica para seus negocios. Diante disto lançou o plano que constituia de anexação de parte do territorio brasileiro (hoje MS e RS) e parte do territorio Argentino, formando um territorio continuo com saida para o Atlântico. Para isto contou com o megalomaniaco Francisco Solano Lopez, que projetou o Paraguai no que conhecemos hoje. Toda Guerra possui suas atrocidades e esta não poderia ser diferente. O Paraguai no final teve que assinar tratados com seus vizinhos e perdeu grande parte de seu territorio original para Brasil, Argentina e Bolivia. As perdas humanas são contraditorias e polemicas mas sabemos que foram numerosas. O Atraso que provocou na região foi enorme e Brasil, Argentina e principalmente o Paraguai tiveram que recorrer a Inglaterra para tomar financiamentos. A Inglaterra foi sem sombra de duvida a maior beneficiada, alem de ver um potencial concorrente na lona, viu os envolvidos tomarem emprestimos seus.
    Finalizando ha muita sombra neste episodio e o pouco de informação que temos, e preciso confrontar para não concluirmos de forma errada, de verdade a certeza de que GUERRA É UMA GRANDE AFRONTA A SABEDORIA HUMANA.

    João de Souza Silvério

  3. Seria bom, para compreender melhor este acontecimento tão contado à luz dos vitoriosos, ler o livro As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, parte A GUERRA DA TRÍPLICE ALIANÇA CONTRA O PARAGUAI ANIQUILOU A ÚNICA EXPERIÉNCIA, COM ÊXITO, DE DESENVOLVIMENTO INDEPENDENTE. Traria maior luz à questão.

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