CAIXAS por zuleika dos reis / são paulo

Abro os olhos não para a velha cortina presa pelas argolas de madeira, na janela do quarto, e sim para formidável bloco de tom pardacento revelando-se, imediatamente, conjunto de objetos dos mais diversos tamanhos e espessuras a se expandirem em saliências e reentrâncias para todas as direções. Que espaço é este, que são tais coisas? É minha sala, são caixas e caixotes.  Nem todas as caixas são pardas, há razoável quantidade delas de variadas cores, mas como estas se encontram dispersas, prevalece a impressão de que tudo é pardo. Clara apenas a certeza de que caixas e caixotes servem para guardar coisas, para preservá-las de danos, além de outras funções das quais, neste instante, não me recordo.

Aquela caixinha ali, no topo, na extremidade à direita. Parece leve, levíssima, quase incorpórea. Ergo o braço, seguro-a delicadamente, verifico-lhe o conteúdo: intacto. Fecho a caixinha verde com seu objeto a salvo, reponho-a no lugar, tranqüilizada. Concentro a atenção em um dos caixotes maiores. Mantenho as mãos imóveis, não é possível destacá-lo, muito menos abri-lo, é dos poucos que sustentam o bloco todo. No entanto, ou talvez por isso, ostente na pele a tatuagem: FRÁGIL.

No Norte da sala, completamente encoberto, protegido, o grande vulto que ocupa toda a extensão da parede e que, sem conteúdo durante a Reforma, sói concentrar em seu corpo a sapiência e a poesia de muitos séculos.  No Sul e junto ao lavabo, a velha valise para pequenas viagens. No Oeste, encostada à janela, a cama de armar, de onde acabo de me erguer. Junto a ela a cadeira de balanço, signo da mãe ausente nestes dias, cadeira também envolta, por inteiro, pelos papéis pardos.  As paredes do corredor, outrossim, esvaziadas dos quadros; no seu lado esquerdo, as portas cerradas dos quartos; na extremidade frontal, a Leste, a porta do banheiro principal, igualmente oclusa. Colocando-me ao lado da valise, após a pequena ablução matinal, posso ver pedaços de caixas no solo da cozinha, cômodo por enquanto sem acesso. Os homens da Reforma, que acabaram de chegar, preparam-se para iniciar suas tarefas cotidianas, nos vários espaços da casa. Para além de todos os fragmentos à vista, abre-se o quintal invisível.

Imagino a luz da manhã a se espalhar pelo tanque, pelo armário com seus materiais de limpeza, pela máquina de lavar com as partes à mostra, pelo cesto de roupa suja, vazio neste momento, pelos varais com pregadores ali esquecidos, libertos da carga habitual, pelo barracão, testemunha de antigas reuniões e de encontros furtivos, por ora a servir de hospedaria para móveis expulsos do próprio habitat; luz a iluminar a horta minúscula, os vasos e seus pratinhos com areia politicamente correta, as avencas, as samambaias, cascatas verdes sob as quais vibraram esperanças de cores múltiplas e, por fim, a casinha remanescente do Fidel, que nos deixou há muitos anos, mas cuja foto ainda marca presença em algum velho álbum de família: sua velha e inútil casinha, no extremo esquerdo do terreno, bem próxima do portão dos fundos, por onde entro para molhar as plantas; bem perto também da calçada, onde estão os sacos de lixo.

Invasores ruídos promíscuos, estridências por todos os lados a reverberarem nos tímpanos. Mãos invisíveis a orquestrarem o som das coisas sendo rasgadas, despregadas, tornadas fragmentos de si mesmas; as coisas sendo destituídas da própria história para a instituição de uma outra, desconhecida, na qual já não caberá o conteúdo de nenhuma das caixas, o nenhum conteúdo delas.

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