Arquivos Diários: 9 julho, 2009

O SUTIÃ das MANHÃS por sérgio da costa ramos / florianópolis

Depois de amargar as manchetes de uma semana inteira toda aquela desgraceira que respinga de Brasília ganhamos um sábado e um domingo de pôr-do-sol de folhinha.SERGIO DA COSTA RAMOS

Ainda bem. Respirei fundo. Tenho um nariz pequeno e por isso estiquei-o ao máximo, como o bico dos beija-flores, querendo me consolar com os polens que levitavam na manhã de sol.

Olhei o morro da Lagoa, ostensório erguido pela natureza para guardar a Conceição e suas dunas. Na baía sul, contemplei o Cambirela, Himalaia da Serra do Mar, seio empinado que dispensa recheios e espartilhos.

É isso que me consola. Olhar ao redor as intimidades da minha terra e sentir o conforto dessa paz e desse patrimônio visual, que ninguém nos tira. À medida que o tempo avança, a recordação do berço acende nos viventes aquela indestrutível cumplicidade com a sua “querência”, o seu recanto, o seu chinelo, o seu pijama. É comum pedirem os homens, antes de morrer, que trasladem seus ossos para o lugar onde viveram a infância, onde sentiram pela primeira vez o aroma das flores, onde aspiraram o oxigênio da mãe e sugaram a via láctea da primeira refeição.

E de onde vinha esse fortificante? Dos seios. Por isso prefiro os seios, como os americanos. Claro, como bom brasileiro, não economizo o olhar a um bumbum bem calibrado, aqueles dois hemisférios femininos, ao mesmo tempo curvilíneos e voluptuosos.

Minha terra – e não falo só da Ilha, mas de toda Santa Catarina – do litoral ondulado ao Peperi-Guaçu argentino, é uma sucessão de seios. Razão tinha o governador-escritor, Jorge Lacerda, ao pincelar seu Estado, em texto memorável:

– A natureza, aqui, parece ter convocado as montanhas numa verdadeira insurreição telúrica, para conter a marcha do homem. O chão catarinense foi sacudido por uma convulsão de serras. Para dominá-lo, foi mister a obstinação heróica daquelas raças que trouxeram do Velho Continente a decisão de luta e a paixão da conquista.

O Estado é um triângulo deitado, o vértice no Peperi-Guaçu, lá na fronteira gringa, e a base no Atlântico, em cuja mesa o Criador serviu um “espumante” de raro sabor e pura beleza: 531 quilômetros de praias.

Santa Catarina – assim como a Ilha – é uma beldade deitada. As pernas ficam no Oeste, o umbigo no Vale do Rio do Peixe. E os seios se empinam na Serra do Mar, com seus bicos intumescidos emergindo da renda azul dessas manhãs de julho.

Ainda bem que eles, os seios verdes da terra Catarina, ainda nos cercam de calor e de afeto, e nos consolam e protegem da sensaboria dos últimos acontecimentos – ao abrigo desses dias de cristal, no sutiã das manhãs…

ESPECULAÇÕES SOBRE O AMOR SIMPLES por luiz felipe leprevost / curitiba

se você pensa que as mulheres
fazem comigo o que elas querem
está mais do que certa
já fiquei esquecido dentro de
mulheres que eram freezers
já derreti em fogo brando na
palma da mão de confeiteiras sádicas
perito em carícias, já fui
confundido com Marlon Brando
(Último Tango em Paris)
no segundo andar de
sobradinhos pré-fabricados da periferia
já arquitetei planos e
mais planos de conquista
já me meti entre coxas com odores
dos quais nunca mais me livrei
parido nem sei quantas vezes
de mulheres que eram eu
mulheres que eram o diabo, o bicho
mulheres que eram uma catedral
mulheres que eram peixes de
águas profundas, escuras
mulheres que eram o
pico mais alto do planeta
mulheres cujo o corpo não era feito de
ossos e músculos, mas de lágrimas
outras com as quais você trepava com a
voz mais do que com o ventre
mulheres em quem a beleza era doença
em quem a doença se equiparava a Deus
mulheres que não gozavam, choviam
que em cada beijo continham uma reza de fé
mulheres em quem você entrava como
entrasse na mais grossa areia
mulheres com as quais sangrei a cada mês
mulheres…
vocês mulheres dão mais trabalho
do que assaltar um banco

ÉTICA e MORAL – por ivanir de jesus henemberg / londrina.pr

O que é moral e o que é ético?

Em primeiro lugar, é preciso definir o que seja Ética. Pesquisadores do porte de Chaïm

Perelman, da Universidade de Bruxelas, Norberto Bobbio, da Universidade de Milão e Carlos

Alberto di Franco, da Universidade de Navarra, costumam considerar ética o conjunto das

atividades que refletem valores da sociedade que sejam universais (que se aplicam a todo o

mundo) e atemporais (que se aplicam em qualquer tempo).

No entanto, a atitude considerada ética às vezes admite variações de enfoque em razão

da cultura em que está inserida.

Muitas coisas, apesar de não serem consideradas éticas, continuam a serem feitas e são

até toleráveis num determinado grupo social.

Alguns comportamentos inicialmente considerados pouco éticos acabam se tornando

tão corriqueiros que a lei os transforma em procedimentos corretos – é o que se chama de

Direito Consuetudinário.

É a diferença entre o que é moral e o que é aceitável. Muitas atitudes, apesar de

imorais, acabam sendo toleradas e passam, ao longo do tempo, a serem consideradas

aceitáveis.

A ética, eu e os outros

Por outro lado, parece-nos claro que um estudo sobre a Ética não pode deixar de lado o

conceito segundo o qual a Ética nasce quando entra em cena o outro. É o Outro, com seu

olhar, com sua crítica, que nos define e nos forma para o mundo, porque toda lei (moral ou

jurídica) regula relações interpessoais, inclusive aquelas com um Outro que a impõe. Esta

visão de Ética holística é prevalecente tanto no campo sócio-político quanto no campo

comportamental, o que explica porque nós não conseguimos compreender quem somos sem o

olhar e a resposta do outro.

Ética no mercado de trabalho

A ética aplicada se destina a discutir as práticas individuais e corporativas nas

múltiplas áreas de atuação do ser humano em sociedade, visando à determinação da atitude

correta relacionada a cada esfera da ação humana, buscando solucionar os eventuais

problemas morais que surgem no exercício profissional e na vida social. A ética se reporta,

necessariamente, a toda prática humana, seja ela profissional ou não. A rigor, existe, ou

deveria existir, uma ética aplicada a cada atividade profissional. E as éticas profissionais

nascem da progressiva especialização das atividades.

A imagem do trabalho criada pela sociedade capitalista é a de uma condenação. A

palavra trabalho deriva do termo latino tripalium, que designava um instrumento de tortura

utilizado na Roma antiga. O pobre estaria condenado ao trabalho, enquanto só o patrão teria

direito ao descanso e ao conforto. Esta concepção negativa do trabalho é rejeitada pela ética.

A ética enxerga o trabalho como sendo algo que deve ser realizado com amor e consciência.

Concorda com a definição dada por Gibran: “O trabalho é o amor feito visível”. Em nível

individual, devemos enxergar no trabalho a maior fonte de autoridade moral. O trabalho

honesto dignifica aquele que o realiza. Ele não nos garante apenas a sobrevivência material,

mas também nos reconforta o espírito. Para quem tem no trabalho uma fonte de prazer, a vida

se torna leve mesmo que, por vezes, traga-nos fadiga e desgaste. É ele também que nos provê

dos recursos indispensáveis ao nosso próprio refazimento. É no trabalho, igualmente, que

burilamos a nossa humanidade, aprendendo a ser útil aos outros – lição maior da vida. É no

labor diário que obtemos o aprendizado que nos faz melhores, o conhecimento que nos

enriquece e a competência que nos promoverá a tarefas ainda mais necessárias. Quando

oferecemos à vida o melhor de nós, a vida nos oferece também o seu melhor. O trabalho é um

direito, mas também um privilégio quando o encaramos como um instrumento de

autoconstrução íntima.

Quando trabalhamos com amor, consciência e fé, ainda que não nos reconheçam e

respeitem, os nossos esforços se converterá, por fim, na moldura da nossa própria felicidade.

É dever de cada um promover a excelência do próprio caráter sem olvidar a ação em prol de

uma sociedade simultaneamente igualitária e livre.

Ivanir de Jesus Henemberg, é professor da Rede Pública Estadual, licenciado em Biologia, Especialista e Bacharel em Administração de Empresas pela Universidade Estadual de Londrina.

EIS O HOMEM de marco aurélio campos / porto alegre

o pampa gaúcho. estância em Bagé/RS.

a pampa gaúcha. estância em Bagé/RS.

I

Brotei do ventre da pampa
Que é Pátria na minha terra
Sou resumo de uma guerra
Que ainda tem importância,
E, diante de tal circunstância,
Segui os clarins farroupilhas
E devorando coxilhas,
Me transformei em distância.

II

Sou do tipo que numa estrada
Só existe quando está só.
Sou muito de barro e pó.
Sou tapera, fui morada.
Sou a velha cruz falquejada
Num cerne de curunilha.
Sou raiz, sol farroupilha,
Renascendo estas manhãs,
Sou o grito dos tahãs
Voejando sobre as coxilhas.

III

Caminho como quem anda
Na direção de si mesmo.
E de tanto andar a esmo,
Fui de uma a outra banda,
E se a inspiração me comanda,
Da trilha logo me afasto
E até sementes de pasto
Replanto pelas vermelhas
Estradas velhas parelhas,
Ao repisar no meu rastro.

IV

Sou a alma cheia e tão longa,
Onde as saudades rebrotam
Como os caminhos que voltam
Substituindo os espinhos,
E a perda de alguns carinhos
Velhos e antigos afrontes,
Surgiram muitos, aos montes,
Nesta minha vida aragana,
Destas andanças veterana,
De ir descampando horizontes.

V

Sou a briga de touros
No gineceu do rodeio.
Improtério em tombo feio,
Quando o índio cai de estouro.
Sou o ruído que o couro faz,
Ao roçar no capim.
Sou o rin-tim-tim da espora
Em aço templado.
E trago o silêncio guardado,
Do pago dentro de mim.

VI

Fazendo vez de oratório,
Sou cacimba destampada,
De boca aberta, calada,
Como a espera do ofertório.
Como vigia em velório,
Que tem um jeito que é tão seu.
Tem muito de terra… é céu,
Que a gente sente ajoelhando,
De mãos postas levantando
O pago inteiro para Deus.

VII

Sou o sono do cusco amigo,
Dormindo sobre o borralho.
Sou vozerio do trabalho,
Na guerra ou na paz – sou perigo.
Sou lápide de jazigo
Perdido nalgum potreiro.
Sou manha de caborteiro,
Sou voz rouca de cordeona,
Cantando triste e chorona,
Um canto chão brasileiro.

VIII

Sou a graxa da picanha
Na bexiga enfumaçada,
Sou cebo de rinhonada.
Me garantindo a façanha.
Sou voz de campanha,
Que nos lançantes se some.
Sou boi-ta-tá – lobisomem.
Sou a santa ignorância.
Sou o índio sem infância,
Que sem querer ficou homem.

IX

Sou Sepé Tiarajú,
Rio Uruguai, rio-mar azul,
Sou o cruzeiro do sul,
A luz guia do índio cru.
Sou galpão, charla, Sou chirú,
de magalhanicas viagens,
Andejei por mil paisagens,
Sem jamais sofrer sogaço.
Cresci juntando pedaços
De brasileiras coragens.

X

Sou enfim, o sabiá que canta,
Alegre, embora sozinho.
Sou gemido do moinho,
Num tom triste que encanta.
Sou pó que se levanta,
Sou raiz, sou sangue, sou verso.
Sou maior que a história grega.
Eu sou Gaúcho, e me chega
P’rá ser feliz no universo.