NOTURNO de jorge lescano / são paulo

O beijo de despedida à sombra  do pessegueiro invadindo a calçada por cima do muro. Ninguém à vista. O bar da esquina, com as portas abaixadas, é um bloco cinzento. A lâmpada de iluminação pública: sol elétrico sobre o lago de asfalto orlado pelo duplo bosque de eucaliptos e suas sombras projetadas no chão e nas fachadas. Do outro lado o fim da vila formando uma pracinha.

Entreolham-se. Provavelmente pensam a mesma coisa: quem são? De onde surgiram os quatro homens que gesticulam preguiçosamente ao ritmo de suas próprias vozes?

Ela pressiona com seus dedos a mão dele se transformando em punho.

Os homens, à contra-luz, são figuras de sonho. O rumor das vozes e a impossibilidade de identificá-las ou de entender suas palavras, como se falassem um idioma estrangeiro, aumentam esta sensação. Um deles levanta o braço e no vulto da mão acreditam perceber um brilho metálico apontando em sua direção. Nenhum dos dois poderá afirmar com certeza, uma vez que a fonte de luz fica atrás do grupo e só permite comprovar os movimentos laterais, nunca aqueles que fizerem para a frente ou para trás. Estes gestos de aproximação ou recuo não alteram as silhuetas na tela da noite.

Esperam ou apenas avaliam a conveniência de esperar?

Ela esboça um passo em direção ao interior da casa. Ele a segura pelo pulso receando que percebam sua hesitação. Talvez pensem que se os desconhecidos associam a vacilação à presença deles, terão mais um motivo para esperar, e não é improvável que suas possíveis intenções em relação a eles ganhem novo incentivo. Da sala chega o tom esvaído da luz do abajur. Certamente deve provocar nos observadores alguma imagem parecida àquela que o casal tem do quarteto.

O volume preto e murmurante de um carro flutua rápido e breve na nata de luz da esquina.

Ela acredita ver o estremecimento de um dos homens, porém, não poderia dizer se é de fato uma sensação óptica ou o desejo de algo que para ele se manifesta no quase imperceptível tremor dos lábios e da mão que envolve seu punho. Ela sente os dedos se umedecerem ao contato com a pele do homem , sem, contudo, poder precisar de qual dos dois nasce a transpiração.

Ao longe, o martelar de um trem perfura a noite.

O grupo está em silêncio, reunido em arco: as duas extremidades voltadas para o casal. Vagarosamente um deles descansa o peso do corpo sobre uma das pernas, dobrando o joelho da outra; o segundo afunda as mãos nos bolsos do paletó e levanta os ombros como se sentisse frio; o terceiro dá um passo para trás e apóia as costas no muro; o quarto permanece imóvel: boneco de neve espessa e negra.

Quebrado brilho perfila o nariz dele, luz opaca além dos cílios.

Para ele, a cabeça da mulher é uma bola informe sobre o pálido triângulo do decote. Toda ela um sutil perfume de alfazema que aos poucos vai se aproximando até encostar os lábios na boca dele. Um contato breve e suave, sem movimentos supérfluos: ficar nas pontas dos pés e levantar o rosto e apoiar os calcanhares novamente no chão e esconder a testa sob a franja de cabelo e ao mesmo tempo a mão abandonar a outra mão.

Um do quarteto faz um gesto que poderia ser interpretado como de aproximação (se as sombras não eliminassem a perspectiva). Ela tenta disfarçar a procura da porta, que toca com os cotovelos. Ele deve sentir que não é mais possível prolongar a situação. Olha na direção do rosto dela e depois para dentro da casa.

Antes de ela acabar de abrir a porta, ele, como querendo seu testemunho, já vai à direção dos desconhecidos olhando um ponto por cima de suas cabeças. Provavelmente imagina o nervosismo dela ao dar duas voltas à chave e o abajur sendo apagado enquanto procura o isqueiro.

Após acender o cigarro, leva a mão ao bolso interno do paletó e a retira lentamente, como se carregasse um peso que o pequeno objeto e seu brilho não justificam.

Anda, talvez pensando na moça encostada na porta, (des) esperando o grito, ou os passos apressados, ou o silêncio como um som total e interminável abafado pela noite e que corresponda à dança muda, individual e simultânea, dos cinco homens no espaço retangular da esquina. Anda como se ignorasse os obstáculos.

Entre as imagens que surjam na mente dela, dificilmente poderá aparecer a dos desconhecidos fazendo um corredor silencioso para que ele passe sob seus olhares à luz da lua amarela  que desenha em preto o flanco dos gatos nos telhados e salpica cera na folhagem.

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