Arquivos Diários: 12 julho, 2009

RIMBAUD por hamilton alves / florianópolis

De Rimbaud, mais que tudo do que produziu (e não foi muito) conheço “Le bateau ivre” (ou “O barco bêbedo”), que  gostaria de dizer melhor, na voz popular, “bêbado”. Esse poema é uma pequena autobiografia do poeta, tanto quanto pude julgá-lo ou interpretá-lo à primeira leitura. E isso já conta alguns anos. Nem me lembro de quem era a tradução. Mais tarde (decorridos alguns anos), li outra. Esta de Augusto de Campos, emérito tradutor.

Mas que autobiografia mais hermética, mais fechada, mais misteriosa.

Como todo o grande poema, esse de Arthur (por delicadeza / perdi minha vida) também se esconde, se enfurna, se encerra em seus desvãos de pouca luz. Ou de pouca clareza.

Quando chegou a Paris, por volta dos 15 anos, Rimbaud, de um talento precoce, viu que a poesia chafurdava na mesmice ou no mais puro convencionalismo, ainda seguindo os padrões mais ou menos do parnasianismo, mas já se inclinando, pouco que fosse, para o simbolismo, tendo em Stéphane Mallarmé sua figura máxima (Un coup de dés n,abolira le hasard).

Aos 17 anos, quando dera por concluida sua obra resumida a poucas páginas, abandona a poesia para traficar armas em Harat, uma cidade na Arábia.

Perguntado por que encerrara sua carreira de poeta, respondeu:

– À la merde la poésie.

Formou com outro grande poeta uma dupla que revolucionou aqueles tempos sisudos, em que poetas eram vistos (ou concebidos) como vivendo em redomas ou seres tocados pelos dedos dos deuses (ou de exceção) – Paul Verlaine. Eram (ou primavam por ser em tudo) dois marginais, que romperam com todos os preconceitos. Rimbaud largou o amigo, que, em certo momento, lhe disparou um tiro quase mortal pelo qual pegou uma pena de dois anos de prisão.

Depois se reconciliaram. Tudo não passara de mal entendidos.

O fato é que, desde então, se separaram, mas Verlaine nunca mais esqueceria o amigo. Rimbaud, certamente, tão pouco esqueceria Verlaine, que produziu um poema da mesma grandeza de “Le bateau ivre”:  “Chanson d’automne”, que tem essa belíssima primeira estrofe:

“Les sanglots longs

Des violons d’automne

Blessent mon coeur

D’une langueur monotone”.

(julho/09)

O PLANO AGACHE na revista “O CRUZEIRO” – editoria

PLANEJAMENTO URBANO DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO EM 1950:

O Rio de Janeiro de 1950

A A REVISTA O CRUZEIRO - AGACHE - PLANO - FOTO RIO rio01
Officiellement mon cher Pimenta, tu n’as rien vu”, disse-me Agache após ter feito passar ante meus olhos todos os desenhos, projectos, perspectivas e maquettes, de cujo emmaranhado surge, pouco a pouco, a visão maravilhosa do Rio de Janeiro de amanhã.

Agache e o nosso Prefeito temiam que um plano ainda em simples delineamento, exposto a uma opinião pública ainda não bem preparada, fosse mal apreciado.

Contradictei porém ambos com tal ardor ou taes argumentos que, cansados ou convencidos, eles calaram-se sorrindo.

E quem sorri não desaprova.

Cedi pois, sem constrangimento, ao pedido dos diretores da “Cruzeiro” para transmitir a impressão que trouxe daquella visita ao Rio de Janeiro de 1950, ao Rio de Janeiro de nossos filhos e nossos netos.

Indubitavelmente o plano geral de transformação e desenvolvimento de nossa cidade, projectado para ser concluído dentro de 30 a 50 anos, constituirá um forte e nobre élo entre a geração de hoje e as gerações vindouras, encadeando os sentimentos da nacionalidade, desenvolvendo a consciência social do povo, fortalecendo enfim a alma brasileira.

Lendo as plantas e contemplando o grande esboço que encerra a concepção geral do novo Rio de Janeiro, senti que Alfred Agache havia compreendido bem as possibilidade formidaveis de progresso de nosso paiz.

Indiscutivel, com effeito, é que o Brasil será dentro de 10 ou 20 annos a mais populosa nação latina do mundo; e como é extenso o seu territorio e enormes as suas riquezas, facil e prever o alento novo que aqui receberá a raça e as fortes e elevadas affirmações de valor que aqui ella dará.

A confiança que o povo brasileiro tem no porvir não nasce portanto da fantasia ou do sentimentalismo senãoA A REVISTA O CRUZEIRO - AGACHE - PLANO - FOTO rio03b que se alicerça na razão, nos factos, nos ensinamentos da Historia, na analyse do passado.

É mesmo uma fé do que uma previsão scientifica.

Previsão scientifica, realmente, deve ser o plano de transformação de desenvolvimento de uma cidade.

Eis porque o projecto em elaboração cogita já das ligações que um dia terão de ser feitas entre o Rio e Nictheroy, entre o Rio e a Ilha do Governador, ligações intelligentemente articuladas, que com as avenidas largas, verdadeiras arterias, que se estenderão até aos suburbios extremos da cidade e as grandes ruas que communicarão os arrabaldes e bairros entre si.

Não falta grandiosidade e belleza nessa obra gerada com notavel senso pratico e exacta compreensão das realidades.

Sabe-se aliás que a funcção característica do urbanista é conjugar as necessidades materiaes da cidade com as exigencias superiores da intelligencia.

Alfred Agache conseguiu plenamente tal objectivo no traçado de transformação de nossa Capital.

Não descerei às descripções minuciosas, detalhadas, que pouco interessam.

Deixo de preferencia ao leitor, na nevoa de algumas palavras, um campo aberto á imaginação, ao sonho, ao ideal que é o início de todas as realizações.

O Rio de Janeiro terá majestade e harmonia pela singular expressão artística com que no novo plano são resolvidos todos os seus problemas urbanos.

Em frente á barra da Guanabara, no terreno que se conquistará ao mar pela rectificação do incongruente sacco da Glória, ficará a praça monumental – vestibulo sumptuoso da cidade – reservado ao desembarque das grandes personalidades que aqui aportarem e naturalmente destinado ás manifestações, comicios e demonstrações do povo por se tornar o logradouro de maior area e o principal centro da metropole.

Maravilha de architectura, banhada na luz de projectores occultos, esta praça terá a forma de U retangular com a abertura voltada para o Oceano, descortinando e ao mesmo tempo compondo as mais variadas e encantadoras perspectivas.

Tomando o centro da linha do fundo, a avenida Rio Branco dahi partirá, imponente, com exacto prolongamento do eixo da praça.

Integrar-se-á destarte nossa principal via publica na sua funcção definitiva de entrada nobre da cidade.

Quero que o leitor tenha a visão, embora rapida e fugaz, do futuro Rio de Janeiro, da inegualavel cidade que entrevi nos desenhos e nas palavras de Alfred. Agache, tal como os contemporaneos de Haussmann ante-gozaram nos projectos deste a magnifica realidade que é o Paris de hoje.

Uma nova e larguissima rua, formada pelo prolongamento do actual canal do Mangue, cortará perpendicularmente a Avenida Rio Branco, indo até ao mar, no cáes da antiga Alfandega. E se estenderá no seu sentido opposto, transpondo, sempre com a mesma largura, os bairros e suburbios que ficam além da Praça da Bandeira, para penetrar nas regiões aonde a cidade, livre do contraforte das montanhas e da barreira do mar, rapidamente se despeja e se desenvolve.

Essa rua passará deante da Estação Monumental a se construir nas proximidades da Praça da Bandeira, e que colherá, em um só feixe, todas as estradas de ferro que servem ao Rio: Auxiliar, Rio d’Ouro, Leopoldina e Central do Brasil.

Será a mais larga, a mais longa e mais movimentada avenida de nossa Capital, rasgada do mar até á zona dos suburbios, pondo assim estes em communicação directa com o centro da cidade.

Correndo quasi parallelamente é actual Avenida Mem de Sá, e prolongando-se além desta uma outra ampla e bella avenida virá entroncar-se com a precedente, no ponto fronteiro á referida Estação Monumental.

Receberá deste modo o centro ferroviario uma via publica de grande proporção, ligando-o aos bairros de Botafogo, Leme, Copacabana, Ipanema, Gavea e Laranjeiras.

Encurtando as distancias entre os bairros, varias outras ruas serão abertas, algumas transpondo pequenos tunneis ou cortando fraldas de montanhas, inteiramente desimpedidas para o trafego rapido e frequentemente offerecendo seductores aspectos da privilegiada natureza que é o orgulho e a alegria de nossa gente.

Vencendo a rotina, sujeitando a architectura ás imposições e caprichos da moderna sciencia de construir, expandindo emfim livremente um anhelo de progresso e de perfeição, de conforto e de arte, Agache valeu-se da area devoluta resultante do desmonte do Castello para ensaiar um systema de urbanização original que consubstancia as idéias mais adeantadas e mais logicas das tendencias actuaes.

O arrojo da composição ha de ferir certamente a sensibilidade dos que não foram ainda tocados pelo espirito novo da arte.

Estou certo porém de que, realizado o projecto, felizmente já officialmente approvado, aquella zona da cidade dará aos seus visitantes a verificação material de que a cidade que ali se creou não foi obra do acaso, producto do empirismo, mas sim que obedeceu aos desejos da intelligencia, ás aspirações do sentimento e, principalmente, ás razões da utilidade.

Não cuidarei de esmiuçar o traçado, já conhecido do público, e que pertence ao typo monumental do haussmannismo.

Interesse maior tem porém o systema adoptado para as edificações, onde o problema dos arranha-céos encontrou solução interessante e justa.

Cada bloco de construcção receberá na peripheria, isto é, nas faces voltadas para as ruas que o limitam, edifícios de altura uniforme de 22 metros. Mas no interior do bloco, na area vasia fechada pela orla desses edificios, serão admittidos arranha-céos, com altura de 80 metros, dispostos de modo a formarem espaços livres – verdadeiras praças internas – destinada ao estacionamento de automoveis.

As vias publicas terão pois o trafego inteiramente desimpedido, sem o as pecto de garage que offerecem as actuaes ruas centraes, atravancadas de vehículos parados, em abandono.

Considerando o sol causticante e as intemperies que castigam as cidades tropicaes como a nossa, os passeios além de espaçosos, com 7 metros de largura, serão cobertos em forma de galeria como os passeios da cidade de Turim e da rua Rivoli, de Paris.

De quando em quando, atravessará essas galerias uma passagem para acesso ás praças centraes onde se erguem os edifícios gigantes.

Apreciando essa concepção de Agache, através da maquette em gesso metalizado que a materializa, senti nalma A REVISTA O CRUZEIRO - CAPA DE 17 DE OUTUBRO DE 1964 - 171064caum anseio de viver, que não era senão o desejo de gozar a majestade sem igual, a belleza sem par, o conforto sem falhas que offerecerá aquelle recanto da cidade, aquella area conquistada com o sacrificio do historico morro do Castello, mas dignificada pelo genio da raça latina em uma obra realizada pela vontade do povo brasileiro.

Sob a scentelha desse enthusiasmo, passei o olhar pelo esboço geral do plano de remodelação do Rio, esboço que ocupa a mais larga parede da sala de trabalhos do urbanista Agache.

Pude então fitar a imagem, indecisa e fugitiva, mas insuperavel e magnifica, do futuro Rio de Janeiro.

Desembaraçada do morro de Santo Antonio, polypo que lhe difficulta a respiração, kysto que lhe enfeia a physionomia, reconheci as mesmas ruas, os mesmos bairros, as mesmas tradições da cidade; mas sobre o intrincado destas obras, sem desrespeito ao passado, sem desdem pelo sentimento brasileiro, havia o traço do progresso, a confiança em um grande destino, traduzida pela trama das novas avenidas, ruas e boulevards, cuja connexão inteligente estimulava a vida e a expansão de nossa capital e cuja expressão de beleza honrava a moldura inconfundivel e esplendida com que Deus presenteou a terra carioca para a alegria e felicidade de seus habitantes.

Mas o Rio de Janeiro de amanhã será tambem o recreio e a ventura dos forasteiros que desejem nutrir o espírito e encher o coração.

Será o grande orgulho do Brasil e a mais linda metropole do mundo.

memória viva.


“Me gustán los estudiantes” – por alceu sperança / cascavel.pr

“Que vivam os estudantes, jardim de nossa alegria (…) passarinhos libertários (…) o fermento do pão que sairá do forno com todo seu sabor!” Os estudantes e sua rebeldia, fome e sede de Justiça encantavam Violeta Parra, que também cantou em louvor à vida e preferiu sair dela em 1967. Mas seus versos ecoarão para sempre, tanto em agradecimento à vida que nos tem dado tanto quanto pelo amor aos estudantes e seu coração valente.

A professora Rosana Kátia Nazzari procurou ver a quantas vai esse encantamento no livro Empoderamento da Juventude no Brasil – Capital Social, Família, Escola e Mídia (Coluna do Saber, 2006), que trata de questões candentes da juventude brasileira. Meio anestesiada, a participação mais ativa da estudantada está de volta, finalmente, depois de perceber que foi enganada por seus “líderes” com a farsa lulesca. Quem apurar bem os ouvidos já começará a ouvir seus brados e cânticos anunciando uma nova era, pois a que aí está não presta nem é desejável que se sustente.

Trata-se, aliás, de um fenômeno mundial. Além da França, como sempre, e do México e Grécia, mais recentemente, no Irã os estudantes levantaram a voz para interromper um discurso do presidente Ahmadinejad, que, eleito em 2005 e novamente agora, em processo marcado por inúmeras suspeitas, irritou a juventude com medidas anunciadas como a salvação da Pátria, mas que beneficiam meia dúzia e prejudicam a muitos.

O presidente prometeu na campanha que iria dividir de maneira mais justa a riqueza do petróleo quando assumisse o poder, e essa “bolsa família” lhe garante o aplauso de multidões entusiasmadas, particularmente em províncias pobres, onde faz comícios a toda hora. Na prática, o que faz é cercear a liberdade de imprensa e restringir as organizações populares, inclusive as estudantis, enquanto gasta a rodo e provoca inflação. Os estudantes têm mesmo que reagir.

Depois de uma longa e infrutífera intervenção da ONU, os jovens perderam a paciência e se levantaram contra a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah), para cujos dirigentes os estudantes estão sendo “manipulados”. Isso acontece sempre que os manipuladores de ontem não conseguem mais dominar como antes: “Essa vontade de criticar tudo deve ser lavagem cerebral que fizeram em vocês!”, ouvi na década de 70.

Os estudantes do Haiti têm toda razão em protestar: há um bocado de tempo, a intervenção da ONU é renovada a cada seis meses, mas agora a tal Minustah quer ocupar o país por pelo menos dez anos, enquanto oficialmente diz que “nosso objetivo é sair do país o mais rapidamente e para isso necessitamos da colaboração dos cidadãos”. Ou seja: se você não entregar a rapadura, nós não vamos embora…

No Brasil, os estudantes se anunciam através do Levante do Busão, em São Paulo. Foi uma reação ao aumento injustificado nas tarifas de lotação e metrô, pois enquanto o passe do transporte urbano aumentou 400% em doze anos, o salário só se reajustou em 120%. E 40% da evasão de alunos nas salas de aula se dá por falta de acesso ao transporte público.

Ocorreu na época um confronto com a Polícia, mas isso não desestimulou os jovens. Embora a manifestação dos estudantes fosse absolutamente pacífica, eles foram espancados, agredidos com balas de borracha, gás lacrimogêneo e de feito moral. Um estudante foi imobilizado, espancado com cassetetes e teve um braço deslocado. Preso e algemado, os policiais sequestraram seus documentos – bateram, literalmente, sua carteira.

É essa a democradura que temos neste País. Se não são os estudantes para nos mostrar essa realidade, comemos com farinha a propaganda “democrática” oficial.