Arquivos Diários: 13 julho, 2009

A FITA MÉTRICA DO AMOR por martha medeiros / porto alegre

Como se mede uma pessoa? Os tamanhos variam conforme o grau de envolvimento. Ela é enorme pra você quando fala do que leu e viveu, quando trata você com carinho e respeito, quando olha nos olhos e sorri destravado. É pequena pra você quando só pensa em si mesmo, quando se comporta de uma maneira pouco gentil, quando fracassa justamente no momento em que teria que demonstrar o que há de mais importante entre duas pessoas: a amizade.

Uma pessoa é gigante pra você quando se interessa pela sua vida, quando busca alternativas para o seu crescimento, quando sonha junto. É pequena quando desvia do assunto.

Uma pessoa é grande quando perdoa, quando compreende, quando se coloca no lugar do outro, quando age não de acordo com o que esperam dela, mas de acordo com o que espera de si mesma. Uma pessoa é pequena quando se deixa reger por comportamentos clichês.

Uma mesma pessoa pode aparentar grandeza ou miudeza dentro de um relacionamento, pode crescer ou decrescer num espaço de poucas semanas: será ela que mudou ou será que o amor é traiçoeiro nas suas medições? Uma decepção pode diminuir o tamanho de um amor que parecia ser grande. Uma ausência pode aumentar o tamanho de um amor que parecia ser ínfimo.

É difícil conviver com esta elasticidade: as pessoas se agigantam e se encolhem aos nossos olhos. Nosso julgamento é feito não através de centímetros e metros, mas de ações e reações, de expectativas e frustrações. Uma pessoa é única ao estender a mão, e ao recolhê-la inesperadamente, se torna mais uma. O egoísmo unifica os insignificantes.

Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande. É a sua sensibilidade sem tamanho.

REVISITANDO HANNAH ARENDT por márcia denser / são paulo

Certa vez Hannah Arendt escreveu que pensar é intrinsecamente uma atividade anti-social e subversiva, porque é um ato que ameaça todas as versões oficiais do direito e da ordem. Por isso, tanto nos sistemas totalitários quanto naquele em que prepondera o Pensamento Único, que impõem a “verdade única”, pensar livremente é crime. Mas como

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pensar, senão livremente? O pensamento elimina as ficções convenientes que mascaram as deformações de uma ordem social. Um dos feitos de Arendt é conseguir manter a filosofia fora do alcance dos interesses político-partidários, conferindo à sua obra um caráter aberto, muito distante de imposições dogmáticas.

Aliás, sobre autoridade, ela afirma: “Visto que a autoridade sempre exige obediência, normalmente ela é confundida com alguma forma de poder e violência. Contudo, a verdadeira autoridade exclui a utilização de meios externos de coerção, pois onde a força é usada, a autoridade como tal francassou.” Para ela, no domínio da política, onde o sigilo e o embuste deliberado sempre tiveram um papel importante, o auto-embuste (ou auto-engano) é o perigo por excelência, o impostor auto-enganado perde todo o contato não só com sua platéia, mas também com o mundo real, o que aumenta em muito sua periculosidade.”

A “introjeção” da ideologia dominante – a ponto do dominado fazer coincidir suas aspirações com as do dominador é o quê campeia na mídia.  A exemplo, vocês leram no UOL, primeira página de 01/06, um artigo com o título “MST tucano”? Uma espécie de obra-prima em matéria de desinformação e vinculação da cartilha tucanodemolóide, sua“ideologia de segundo grau” cada vez mais perversa e burra. Confiram, que não vou citar – afinal, quem dá cartaz para trouxa é lavadeira.

Nesses tempos tão bicudos, tão estéreis, é um alívio revisitar o livre-pensar de Hanna Arendt, cujo tema foi a liberdade e sua tarefa a de iluminar e restaurar a importância do setor público, onde o diálogo permite a emergência da política como uma das grandes dimensões da dignidade humana. Digo isto a propósito da releitura de As origens do totalitarismo: imperialismo, a expansão do poder (Rio, Documentário, 1976), especificamente quando ela trata da emancipação política da burguesia e das ligações desta com o poder.

Segundo Hannah, o imperialismo surgiu quando a classe detentora da produção capitalista rejeitou as fronteiras nacionais como barreira à expansão econômica. A burguesia ingressou na política apenas por necessidade econômica: como não desejava abandonar o sistema capitalista, cuja lei básica é o constante crescimento econômico, a burguesia tinha que impor esta lei aos governos – para que a expansão se tornasse o objetivo final da política externa.

Em meados do século XIX (a partir de 1870), ocorre uma crise econômica em toda Europa devido à superprodução de capital, ao surgimento de dinheiro “supérfluo” causado pelo excesso de poupança, que já não podia ser produtivamente investido dentro das fronteiras nacionais. Pela primeira vez, o investimento de poderio não abria caminho ao investimento de dinheiro, mas a exportação do poder seguia os caminhos do dinheiro exportado, visto que investimentos incontrolados em países distantes ameaçavam transformar vastas camadas da sociedade em meros jogadores, mudar toda a economia capitalista de um sistema de produção para um sistema de especulação financeira, e substituir lucros de produção por lucros de comissão. A época foi marcada por falcatruas, escândalos financeiros e jogatina no mercado de ações!

Mas verificou-se que os acionistas ausentes não queriam correr os tremendos riscos relativos ao aumento de seus lucros, embora estes também fossem tremendos. Só a força material do Estado poderia protegê-los. Então ficou claro que a exportação de dinheiro implicava em exportação da força de governo. E muitos governos viram com apreensão crescente a tendência de fazer dos negócios uma questão política e de identificar os interesses econômicos de grupos com os interesses nacionais. Mas parecia que a única alternativa à exportação do poder era o sacrifício deliberado de grande parte da riqueza nacional. Só a expansão dos instrumentos nacionais de violência poderia racionalizar o movimento de investimentos no estrangeiro e reintegrar na economia da nação as desenfreadas especulações com o capital supérfluo, ou excedente, desviado para um jogo que tornava arriscadas as poupanças.

A primeira conseqüência da exportação do poder foi esta: os instrumentos de violência do Estado, ou seja, a polícia e o exército – que na estrutura da nação existiam ao lado das demais instituições nacionais e eram controlados por estas – foram dele separados e promovidos à posição de representantes nacionais em países fracos e não civilizados. Em regiões atrasadas, sem indústria e sem organização política, onde a violência campeava livremente, as “leis do capitalismo” tinham permissão de criar “novas realidades” (ou seja, pesadelos de ponta) . O segredo do sucesso estava precisamente no fato de terem sido eliminadas as leis econômicas para não barrarem o caminho à cobiça das classes proprietárias. O dinheiro enfim podia gerar dinheiro porque a força, em completo desrespeito às leis, econômicas e éticas, podia apoderar-se  das riquezas.

somente o acúmulo ilimitado do poder podia levar ao acúmulo ilimitado do capital.

Não é profética a pertinência do pensamento de Hannah Arendt aqui e agora, agora e sempre?

VIAJANDO COM A VIAGEM de tonicato miranda / curitiba

para Luiz Alceu Molento

Será que aquele que está nascendo agora

saberá de nós dois e deste mundo envelhecido?

Forjemos palavras para os lamentos e as lamúrias

em ritual de oferenda ao broto das araucárias

às sumaúmas, aos jatobás e ao amanhecer.

Pare e para toda a paisagem murmura

doces canções ao ser que não conseguirá crescer.

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O Século 21 saúda e inveja o Século 20

que um dia já invejou o Século 19 com todo seu requinte

onde embora nem todos pudessem ser garbosos

havia ternos e vestidos para todos, para os velhos e os novos

um africano nu de então não era um africano sem roupa

nem uma doença exposta, pronta para se espalhar nos navios

araras e periquitos voavam nas palhadas das palmeiras

de quando em vez até imitavam nossos assobios

hoje andam presas em gaiolas com argolas “made” exportação

cruzam oceanos, mas não são passageiras dos “Queen Elizabeths”.

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Mas tomemos um trago no boteco da esquina

e tanto faz que o copo seja sujo, esperemos que ainda toque um tango

aceito até um vaneirão ou uma salsa, brindemos às sobras

dê cá um abraço, aguce o olhar, esprema os sentidos, mãos-a-obra

porque os humanos, ao criador, ainda são a sua maior virtude

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Não precisa detestar meus textos e poemas pra me derrubar

sei que sou mais comum do que na salada a alface

qualquer pequeno vírus consegue me adoentar

basta resfriar direto o olhar na minha face

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Sei que estou atrasado em alguns compromissos

mas para que tanta pressa pra envelhecer largado a um canto

para que tanta agonia para cevar o orgulho dos homens de preto

aceito um trago e uma massa gorda depois de emagrecer tanto

aceito uma pinga antes e uma pinga depois de uma gelada cerveja

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Se admitirmos que amanhã estaremos ferrados

ainda valerá a pena olhar de cima a Serra do Mar

imaginando um marzão besta pra se navegar

lá embaixo, pra além da Ilha do Mel e da minha caneta

pra lá da nossa morte e da matança que estamos impondo ao planeta

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Viajar com a viagem é mais do que quedar-se ao olhar

é voltar a todo instante ao futuro

pois para onde formos seremos sempre parte do barco

e não apenas o corpo em movimento esperando transpor o muro.