Arquivos Diários: 18 julho, 2009

E TU TCHÊ LOCO? por bruxa gaudéria / porto alegre

E tu, tchê loco, depois de tudo o que se sabe sobre a devastação da Floresta Amazônica por conta do teu sacrossanto “churrasquinho”, ainda não tomou vergonha na cara? Olha o exemplo que estás dando para os teus filhos…

Tenho visto que a definição de “gaúcho” por esses tempos que correm não é outra que… “comer churrasco!” Já houve tempo em que gaúcho era sinal de consciência política, e até ecológica: os bruxamovimentos ecológicos partiram daqui, as feiras de produtos orgânicos começaram aqui, a primeira associação nesse sentido, a AGAPAN, nasceu aqui. E isso fazia com que a gente estufasse o peito de orgulho por ser gaúcho.
As escolas do Brizola, então, aquela enorme quantidade de escolas espalhadas pelo Estado… isso sim era uma definição decente da nossa gente.

E não me venha com essa de que “isso é uma coisa cultural”. Até bem pouco tempo, o prato tradicional do brasileiro, em geral, era feijão com arroz, uma saladinha e – de vez em quando – uma carne. Nos domingos, uma galinha. Nunca essa cosa loca de x no almoço, x no jantar, e, no domingo, dê-lhe churrasco… Aqui pelas redondezas do meu rancho, o céu chega a ficar enevoado nesses dias, de tanta fumaça…
Eu sei que a maior devastação é para exportation, mas mesmo assim… olha o exemplo!

Sem contar a gordura, que agora tem um nome poético… obesidade! e as diabetes? Antes do advento da tal fast food, a gauchada era guapa! As gurias eram umas potrancas bem fornidas, mas sem exagero! Olha só a Yeda Maria Vargas!… Te espelha! E a Teresinha Morango… tudo umas esbeltezas.
E o mundo velho sem porteira parece que endoidou de vez! pôes que agora, além do povo se entupir de toda sorte de porcaria, ainda por cima querem que as china véia fiquem tudo uns fio. Pros bagual berrar na porteira do rancho: te cuida com o vento, vivente! Vai de lado… Ou… essa, se comer uma azeitona, vai parecer que tá grávida!
Os taura, ao contrário, em vez de cuidar da roça e ficarem macanudos ao natural, chegam a tomar uns trecos, uns tais de anabolizantes… e acabam parecendo uns abobados da enchente, como dizia a minha avó.
A deseducação é tanta, que canso de ver os PRÓPRIOS PAIS! (???) oferecendo uns tais salgadinhos – que tem o mesmo nome dessas coisas do computador, e devem ter o mesmo gosto misturado com papelão e regado com suquinho de inhãnha –, os chips.
Depois de tanta carne, tanto fast food, tanto salgadinho, e dê-lhe refrigerante pra fazer a gororoba descer, vem a parte dos remédios, das cirurgias, das culpas e dos consultórios de psicologia (e aí eu gosto porque o meu fica assim de loquinho). PURA NEURA! tudo isso.

Pra ter tanto churrasco, por exemplo, tanta carne e tanto lugar pro gado, já fizeram desaparecer um terço do Rio Grande. Os outros dois se foram com a soja e agora com os tais eucaliptos. E é por isso que o nosso frio ficou reduzido a 3 meses, com 36º em junho, o verão é aquele verdadeiro inferno, e não acaba, não acaba, não acaba nuuuunca, a gente torra, a gente vê tudo cor de laranja… eu já senti os meus óvulos fritando pelas próximas três gerações… e, pelo que sei, o buraco na tal camada de ozônio, aqui, é o maior de todos. Ah, disso podemos nos ufanar! Somos os maiores!…
Sem contar otras pragas… mas isso é pra depois.

Texto de ROSE PORTO ALEGRE.

MINHAS HISTÓRIAS por alberto moby / rio de janeiro

Domingo, 12 de Julho de 2009
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OS POEMAS PARA A LIBERDADE DE MANOEL DE ANDRADE: A POESIA COMO ARMA
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A editora paulistana Escrituras acaba de lançar o livro Poemas para a Liberdade, do poeta catarinense Manoel de Andrade (http://www.escrituras.com.br/livro.php?isbn=9788575312902), do qual já havia publicado, em 2007,

Alberto Moby

Alberto Moby

Cantares. Poemas para a Liberdade é, na verdade, é uma reedição. Publicado inicialmente na Bolívia, no Peru e na Colômbia, em 1970, e no Equador, em 1971, é um conjunto de poemas que falam da luta armada e cantam a saga guerrilheira na América Latina dos anos 1970, então controlada por ditaduras militares. Independentemente do seu valor histórico inestimável, Poemas para a Liberdade é uma obra da qual, apesar de tudo, transbordam delicadeza, amor, esperança e por isso consta de vários catálogos de literatura latinoamericana e seus poemas, de várias antologias, como Poesía Latinoamericana – Antología Bilingüe, publicada em 1998, pela editora Epsilon, do México, cujas páginas o autor compartilha, entre outros, com poetas consagrados como o uruguaio Mario Benedetti, falecido este ano.

Os mais jovens talvez não saibam. Os que sabem nem sempre se lem­bram. E os que lembram provavelmente não sintam mais aqueles sentimentos angustiantes e ao mesmo tempo cheios de esperança que moviam milhares de jovens na América Latina em busca de uma sociedade justa e fraterna. Falo dos chamados “anos duros” da ditadura militar no Brasil, logo acompanhada por outras ditaduras, e das lutas de resistência, com as armas possíveis e as imaginadas, contra o autoritarismo, a falta de liberdade e a barbárie que entre as décas de 1960 e 1990 povoaram boa parte da América Latina.
Entre esses jovens havia um, chamado Manoel de Andrade, vindo do interior de Santa Catarina, que começou a se destacar entre os colegas (na época ficaria melhor o termo “companheiro”) de Curitiba, onde decidiu viver, pelo caráter engajado de sua poesia.
Lembre-se que “engajado”, naquela época, era sinônimo de “subversivo” e, quase sempre, também de “comunista”, “palavrões” que, naqueles tempos de Guerra Fria, podiam também ser traduzidos como o “Mal”, em oposição ao “Bem”, representado pelo “Mundo Livre”, isto é, os EUA e seus aliados (quase sempre muito mais por medo do que por afinidade ideológica).
Em 1965, Manoel de Andrade, com sua poesia militante, ganhou o 1º prêmio do Concurso de Poesia Moderna, do Centro de Letras do Paraná. No mes­mo ano, participou da histórica Noite da Poesia Paranaense, ao lado de poetas hoje consagrados como Helena Kolody, João Manuel Simões e o gran­de poeta e compositor Paulo Leminski, no teatro Guaíra, de Curitiba. Em 1968, aos 28 anos, é apontado pela imprensa paranaense como uma dos seus três grandes destaques literários, junto com Jamil Snege e o contista Dalton Ter­visan. No mesmo ano, a revista Civilização Brasileira publica seu poema “Can­ção para os homens sem face”:
Canto a vergonha de ser brasileiro num tempo defecado
canto meu povo
e se ainda não canto meu país,
é porque não sei cantar na presença de homens indecentes;
eu canto sobretudo para aqueles que preservaram seu sonho,
para os que ousaram lutar e morrer por ele,
canto a memória de um guerrilheiro argentino.
E eis que meu verso se endurece
para que eu cante meu melhor combate
e só assim posso cantar para os irmãos e camaradas
recrutando companheiros para a luta…
e quando meu canto é feito para os ouvidos dos justos,
eu canto sem temor […]
[…]
Como guerreiros invisíveis
meus versos se infiltrarão no país dos corruptos
pelas fronteiras das entrelinhas
e renascerão nos lábios dos militantes
ora como uma flor, ora como um fuzil.
Talvez, mesmo que esses versos façam algum sentido para você e mesmo que possam ser identificadas, lá no distante 1968, vergonhas muito pa­re­cidas com as de hoje, e que possamos também reconhecer este nosso tempo, de democracia e liberdade, como um “tempo defecado”, de “homens indecentes” ou um “país dos corruptos”, talvez seja quase impossível imaginar o que significava isso naqueles “anos de chumbo”. Outras palavras do poema expressam melhor que clima era aquele: eram os tempos dos “que ousaram lutar e morrer”, que evocava “a memória de um guerrilheiro argentino” – Er­nes­to Che Guevara, morto no dia 8 de outubro do ano anterior em nome de uma luta que se pretendia internacional contra a injustiça do capitalismo e, par­ti­cu­lar­mente na América Latina, contra a opressão dos ditadores. Por isso o poema de Manoel de Andrade era feito de versos para “cantar para os irmãos e ca­ma­ra­das”, “recrutando companheiros para a luta”, “ora como uma flor, ora como um fuzil”.
Não podia ter dado outra coisa. Em março de 1969, perseguido pelo re­gi­me militar, principalmente pelo fato de ter feito panfletagem de seu poema “Saudação a Che Guevara”, Manoel de Andrade foge do Brasil. Nessa época sua poesia já começava a ser conhecida por todo o país por meio de jornais e re­vistas literárias. Nos perigosos versos que lhe valeram a fuga do país, ele di­zia:
No nosso ódio indigesto
na voz da rebelião,
na passeata de protesto
em cada homem sem pão,
em cada cidadão livre
que é metralhado na rua,
no seio de cada greve
no salário de quem sua,
no estômago que late
na opressão e na fome
nesse mal que nos consome
como farol claro e forte
surge tua imagem, teu nome
teu braço de guerrilheiro
teu sonho e tua verdade
nos apontando o roteiro
em busca da liberdade.
A força e a contundência desses versos, hoje, podem parecer ingenui­da­de, coisa de uma juventude demasiadamente crédula, especialmente empol­ga­da com o sucesso da Revolução Cubana, em janeiro de 1959, e com seu herói mais charmoso, Che Guevara, filho de uma família de classe média argentina que, depois de percorrer toda a América Latina, conhece, no México, os irmãos Fi­del e Raúl Castro e, com um pequeno grupo, resolve se meter numa “a­vem­tu­ra” que por acaso deu certo. Mas, insisto, não é possível ter uma visão mi­ni­ma­mente clara daqueles jovens (que, aliás, se transformaram em alguns de nós atualmente ou já nos pais de muitos outros que agora lêem esse meu post) e, consequentemente, da poesia de Manuel de Andrade sem nos fixarmos na é­poca em que tudo isso aconteceu. Ou, então, como explicar que um simples poema pudesse ser o principal responsável pela saída de alguém do próprio país, deixando pra trás família, amigos, projetos, o curso de uma vida?
Mas a vida de cavaleiro andante de Manoel de Andrade estava só co­me­çan­do. Ao deixar o Brasil foi para a Bolívia, onde continuou escrevendo e di­vul­gan­do seus poemas engajados. Em 1970 é lançado, pelo Comitê Central Re­vo­lu­cionário da Universidad Mayor San Andrés, em La Paz, seu primeiro livro, Po­e­mas para la libertad, publicado também pelas federações universitárias de Cuz­co e de Arequipa, no Peru, que foram consumidas e reeditadas em todo mei­o estudantil do Peru e cujos exemplares se espalharam por toda a América do Sul, levados por mochileiros e estudantes latinoamericanos.
Mas a ampla aceitação de seus poemas pela juventude universitária não deram a Manoel de Andrade nenhuma tranquilidade. Muito pelo contrário, essa a­ceitação representava ainda mais perigo, perseguições, fugas. Expulso da Bo­lí­via em 1969, antes da publicação de seu livro, foi para o Peru, de onde tam­bém foi expulso, no ano seguinte, e para a Colômbia, onde, no mesmo ano, so­fre o mesmo destino. O alcance da sua militância política pode ser avaliado pe­lo destaque que na época os mais importantes jornais da América Latina e as mai­ores agências internacionais de informações, como a AP e a UPI, deram a ele. Numa época em que não havia telefones celulares nem internet, pode-se imaginar o perigo que seus poemas revolucionários podem ter representado.
Conhecido por promover debates, ministrar palestras e declamar seus versos em universidades, teatros, galerias de arte, festivais de cultura, congres­sos de poetas, sindicatos, reuniões públicas, privadas e clandestinas e até no in­terior das minas de estanho da Bolívia, Manoel de Andrade e seus versos não podiam ser vistos como nada menos do que muito perigosos. Por isso o governo peruano o expulsa do país “por realizar atividades que constituem um manifesto perigo para a tranquilidade pública e segurança do Estado”.
Mas a aventura de Manoel de Andrade não pararia aí. Em 1971 estava no México, onde, entre outras coisas, se apresentou no Instituto Mexicano-Cubano; participou das comemorações do 37º aniversário de morte do herói revolucionário nicaraguense Augusto César Sandino; viajou para a Califórnia, nos EUA, onde ministrou várias palestras e recitais em organizações chicanas e nas universidades de Los Angeles e Berkeley. É o próprio autor quem nos conta, generosamente, parte dessa trajetória:
Eu chegara ao México, depois de cruzar, ao longo de três anos, todos os países da América Latina (exceto Venezuela) e trazia, desfraldada na alma, a bandeira das lutas de liberação na­cio­nal que incendiavam o Continente e por isso, depois do meu recital no Instituto Mexicano-Cubano, na Cidade do México, fui “convocado” para levar aos Chicanos (norteamericanos de origem mexicana) a notícia do que se passava na América, como um estímulo à sua luta no contexto de segregação em que viviam dentro das próprias entranhas do “monstro” impe­ri­a­lis­ta. É uma fase belíssima da minha vida que não posso contar aqui. Meu livro “Poemas para a Liberdade”, teve sua 3ª edição en San Diego. Ao cabo de três meses tive que voltar ao Mé­xi­co para novo visto no passaporte, mas quando tentei voltar para terminar minha “missão”, os yanques já não me permitiram a entrada. Do México fui para Ecuador, onde dei um cliclo de pa­les­tras na Universidade Central do Equador, sobre problemas centro-americamos […] e mexi­ca­nos. No Equador publicaram a 4ª edição do meu “Poemas para a Liberdade”. Depois de dois me­ses tive que sair correndo de Quito (onde cheguei a primeira vez, expulso do Peru e a se­gun­da, espulso da Colômbia) porque fui acusado pelos estudantes de agente da CIA. (Eles não entendiam como é que eu corria a America Latina, pra cima e pra baixo, e estava sempre infil­tra­do entre a classe estudantil e o pessoal de esquerda.) Fui alertado por um amigo estudante de arquitetura e saí por Quayaquil, num transatlântico italiano (Rossini) e entrei, sem pro­ble­mas, no Peru, pelo porto de Callao. Resolvidos alguns problemas no Peru, fui pro Chile de Allen­de, onde comecei a escrever minhas memórias de viagem e artigos para o jornais e re­vis­tas sobre o problema dos chicanos e sobre o colonialismo português na África. Minha mulher foi pra Santiago e, pela minha filha, voltei com ela pro Brasil em meados de 72, e em Curi­ti­ba, depois de descobrir que o DOPS já sabia da minha volta e me procurava, transferi minha OAB para Santa Catarina, para tentar advogar. Mas também lá o clima de repressão e espi­o­na­gem era terrivel. Era a época em que estava começando a Guerrilha do Araguaia. Voltei pra Curitiba e passei a viver no anonimato social e literário. Por indicação de um amigo, e para so­bre­viver, fui vender a Enciclopedia Delta Larousse. Ninguem sabia onde eu estava. Somente aparecia no fim do mês para entregar os meus contratos de venda e receber minha comissão. Em seguida sumia pelo interior do Paraná ou Santa Catarina e somente minha família sabia de mim. Foi uma bela estratégia porque eu pude trabalhar e me esconder ao mesmo tempo.
[…]
Voltei a escrever em setembro de 2002 […], durante os 30 anos que não escrevi nada, mas tive uma vida muito intensa e acabei esquecendo que eu era poeta […], mas também tive uma vida intelectual muito rica.
Tive o privilégio de conhecer Manoel de Andrade graças à coincidência de termos uma amiga em comum, a antropóloga e historiadora Philomena Gebran, a quem ele não via há mais de 30 anos e que, através de mim, graças às maravilhas da internet, pôde reencontrar em Curitiba, onde ambos moram atualmente. Somos, portanto, apenas amigos virtuais. Mas é como se fôssemos amigos há muitos anos, compartilhando a maior parte dos sonhos, das grandes frustrações e, principalmente, as esperanças que os muitos sustos da vida não conseguiram levar. Naqueles tempos difíceis parecia para muitos que a força das armas – e, no caso de Manoel Andrade, a sua eram os versos – era o caminho. Hoje, não sei qual o caminho (e acredito que ele também não), mas continuo acreditando, como ele, em uma sociedade justa, humana, fraterna. Por isso recomendo com veemência a leitura dos seus Poemas para a Liberdade. Pelo menos para que os que não saibam fiquem sabendo, os que sabem se lembrem e os que lembram voltem a pensar sobre a esperança.

PEDRAS, FLORES e LÁGRIMAS por clô barcellos / porto alegre

Uma pedra pode nos emocionar? Se nelas colocarmos qualquer significado, as pedras nos farão chorar. Assim como elas, os cadáveres poderão significar muito para os vivos e imediatamente surgirão lágrimas

CLÔ BARCELLOS

CLÔ BARCELLOS

de saudade, reverência e respeito.

Vá ao cinema, mas leve lenços de papel. Óculos escuros. Boinas, mantas. Mesmo que você seja uma rocha, um cético, um pragmático, o diretor de A Partida, Yojiro Takita, vai buscar lá dentro do seu peito uma lembrança, uma referência, um contato sutil com o que você tem de mais humano.

De uma forma muito discreta, vai fazer, primeiro, você sorrir. Depois, vai fazer você achar tudo muito engraçado. Você vai relaxar. Vai observar com divertimento o jeito esquisito de falar dos japoneses, com suas expressões guturais rascadas, misturando tons agudos e graves na voz, no arregalar dos olhos apertados e naquele típico movimento corporal, teatral, cheio de hierarquia e submissão.

A precisão dos japoneses fará com que a história seja muito clara. Fácil de entender. Ele, um músico. Ela, uma esposa dedicada e amorosa. Depois das chances com a música, a opção é voltar para a terra natal e procurar um emprego. Qualquer um. Mesmo que seja lidar com os mortos.

Então, o filme dá a primeira estocada. Você não vai ficar muito à vontade. Vai repelir aquele anti-herói. Quer vê-lo afastado de uma profissão tão putrefata. Que ele busque outros caminhos, que ouça a voz da normalidade e do que é moderno: a morte deve ser ignorada, os rituais não têm mais sentido.

Mas que sentido, afinal, tem a vida? O salmão que sobe o rio, vencendo as rochas e a correnteza rasinha, talvez precise chegar onde nasceu para só depois se entregar à morte. Todos temos um cantinho que significa, que importa, onde colocamos nossas lembranças. Bem afastadas e escondidas, para que não nos deixem fragilizados.

No filme, a música traz à tona essas emoções bem guardadas. Aconchega, mesmo no espaço vazio, para onde Daigo Kobayashi lança suas notas, através de um velho violoncelo de criança, e nos abre o coração.

A flor de cerejeira, comum em várias cenas do filme, também tem um significado. Associada à vida do samurai tão efêmera quanto a da flor que se desprende da árvore, é uma lembrança da impermanência. A morte é comum a todos nós.

No entanto, o diretor vai nos desafiar pela beleza da fotografia, e no acompanhamento da trajetória de Daigo vamos aprendendo a recebê-lo de volta como um herói verdadeiramente humano. Voltaremos a nos aliar a ele, respeitando a sua dor e conhecendo seu trabalho.

Você vai sair do cinema querendo reverenciar os vivos e os mortos. Vai fazer uma saudação curvando o corpo para a mocinha que diz boa noite na saída da sala.

E, seja uma rocha ou não, você vai se sentir tocado. Isto é muito raro. Guarde muito bem essa sensação. Poucas vezes, se sentirá tão vivo.