Arquivos Diários: 19 julho, 2009

MATAR UM POETA de nelson padrella / curitiba

Quando um poeta morre uma estrela se perde no infinito

uma lâmpada se apaga

o caminho fica mais escuro.

Quando você mata um poeta

o mundo fica mais pobre

você fica mais miserável

e o sangue do poeta nas tuas mãos

manchará para sempre teu caminhar.

Morto, o poeta não se transforma em flor

ou em qualquer dessas formas passageiras

ele será sempre a luz que assombra

a voz que cala na tua consciência.

Você pode matar um poeta. A Poesia não morre.

JORGE AMADO, UM FORAGIDO por hamilton alves / florianópolis

Numa entrevista recente que deu ao jornal “O Estado de S. Paulo”, no qual trabalha há seis décadas, segundo dito na resenha assinada por Laura Greenhalgh (com 85, atualmente, escreve para o jornal desde os 20 anos), Gilles Lapouge, a certa altura, declara que “Jorge Amado é um escritor adorado na França”.

Estranhou que tivesse escolhido para morar, em Paris, num quartier dos mais feios. Indagou a Amado o motivo dessa escolha. Respondeu-lhe que ali se refugiava para poder escrever em paz, sem que ninguém o incomodasse, diferente, por exemplo, do que lhe ocorria no Brasil, mesmo fora da Bahia , no nordeste (em alguma cidade, mesmo desconhecida), onde sempre era visitado, quando não por amigos, mas por algum bisbilhoteiro ou jornalista, que lhe propunha entrevista para qualquer jornaleco.

Não sei dizer se aqui em seu país Jorge seria assim adorado pelo público ledor. Ou haveria tanta gente que gostasse de suas novelas.

Particularmente, li apenas duas de tantas que escreveu: “Pastores da noite” e “A morte e a morte  de Quincas Berro d,Água”, que está entre as melhores coisas que produziu.

Jorge sempre alimentou a esperança de ganhar o Nobel de literatura, que contemplou dois outros escritores, que foram seus contemporâneos e amigos, Garcia Marques e José Saramago. O primeiro sacudiu o coreto da literatura mundial com o clássico “Cem Anos de Solidão”, o outro com “O ano da morte de Ricardo Reis”, único escritor de língua portuguesa a obter o           prêmio da Academia da Suécia, fatos que, certamente, lhe deixaram decepcionado ou, no mínimo, com água na boca. Mas Jorge tinha bastante jogo de cintura para dar a volta por cima desses pequenos infortúnios.

É difícil encontrar um leitor apaixonado pela obra de Jorge. Conheci alguns poucos, mesmo assim não revelavam conhecê-la em detalhes, e, sim, alguns livros esparsos. “Capitães de Areia”, por exemplo, teria sido um livro importante na bibliografia de Jorge, como outros muito badalados, “Dona flor e seus dois maridos”, “Gabriela, Cravo e Canela”, que fizeram certo furor quando lançados e viraram filme dois deles, além de mini-séries de novela.

Jorge, à parte seus méritos literários, era um homem generoso. Eu próprio pude prová-lo, quando lhe mandei um dos meus livros (uma pequena novela, com que estreei nas letras). Mandou-me um cartão, com dizeres muito estimulantes: que gostara do livro e que levasse por diante minha carreira de escritor.

Lapouge conta, nessa entrevista, que teve um encontro com Jorge, na Bahia, (percorreu de ônibus grande parte dos Estados nordestinos), contando que se decepcionou um pouco com ele: “Amado era um homem muito engajado, dizia besteira, não o entendi bem. Um amigo dizia que ele era mesmo raso, mas havia um anjo que escrevia por ele”.

Quando se citam grandes escritores brasileiros, indica-se, em geral, o trio de ouro conhecido: Machado de Assis, Guimarães Rosa e Graciliano Ramos. Por que não Jorge Amado, adorado, como diz Lapouge, na França?

Cumpre saber-se porquê.

O PODER ILIMITADO por walmor marcellino / curitiba

A função senhoriagem e a adesão patrimonialista do Poder Judiciário só é percebida quando de uma agressão aos direitos sociais; em casos de grande repercussão pública. Enquanto ele se vai jubilando na “consentida violência” do poder social WALMOR MARCELLINO FOTO 1contra a sub-cidadania ‑ em que esta é submetida ao aramado das imputações, ações, mandados e repressões num longo itinerário das acusações, “atestados”, interditos e provimentos ‑, essa mordomia de toga e capelo se fantasia como uma cidadania de luxo que estaria a nos “civilizar pelo rigor das leis”, ao mesmo tempo que apascenta pela conveniência do poder de classe a alimária que somos nós. “La Boétie” explica essa aberração social a que nos levam os costumes da supremacia jurídico-política.

Você não pode analisar e caracterizar decisões judiciais como ajuste e conveniência dessa corte de “patifes ilustres”, pois estará sujeito “às penas da lei” por desacato; ainda que esse togado seja uma besta e não você o inquinado de animal irracional. “Patifes ilustres”, volto a explicar, foi a magistral descrição do filósofo David Hume das ações e decisões de régulos e togados “investidos na representação da Justiça, das leis e normas”, rêmoras da corte que aproveitam a oportunidade para “livrar o barato”, a passos largos, isto é, sempre ajustando também seus interesses senhoriais e patrimoniais; com seus pares do reino.

O bispo Ladislau Biernasky tachou de absurda e inconstitucional a decisão de um juiz federal de impedir manifestações públicas de protesto nas praças de pedágio no Paraná. E de onde surgiu essa luminosa estupidez jurídica ‑ perguntam os cidadãos ativos?

Vamos por partes: um rábula qualquer vai a um jornal do Estado e combina com o editor a propina para a boataria ou difusão de “uma conspiração” contra as “empresas”, digo quadrilhas do pedágio. O lheguelhé  publica a “matéria”; e o advogado desses quadrilheiros vai ao juiz apresentando “as evidências” de uma conspiração” contra a indigitada “empresa vítima”. E o que faz o juiz? O “patife ilustre” dá uma “penada preventiva”, cassando o direito social-popular de manifestar seu repúdio ao confisco de seu direito constitucional de ir-e-vir. E onde tal fato ocorre? Aqui na província republicana! E quem vai punir os três escusos e mancomunados? O poder de Estado jurídico? Quem protestará contra o tríplice abuso? Nós, a sociedade inerme contra esses bandidos associados; afinal somos pobres republicanos.

O fato nos leva a uma indagação: o que é o Poder Judiciário de uma República Inacabada, perante a nação e o povo brasileiros, nestes começos do século XXI? Sua legitimidade, se não provém diretamente do povo soberano, ou mesmo de um autocentrado conceito de “nação”, é o quê? Um conluio de sumidades jurídicas, como um cenáculo aristocrático a tripudiar e ofender a democracia que construímos? Respostas para o Supremo Tribunal Federal, Brasília.

QUIMERA de otto nul / palma sola.sc

Quem me dera

Fosse agora

A suprema hora

.

De encontrá-la

Entre as coisas

Perdidas de outrora

.

Que fosse como

Um talismã

De segredos

.

Indevassáveis na aurora

Do eterno buscar

De coisas no degredo

.

Que fosse nada

Ou muito pouco

Qual obra fanada

.

x x x

(julho/09 – Otto Nul)

OBRIGADO, LULA por alceu sperança / cascavel.pr

O presidente Lula fez um favor ao País pondo fim às ilusões daqueles que ainda acreditavam que ele e o PT tivessem qualquer coisa de esquerda. Se ele próprio não tivesse dito, seria preciso continuar a desmascará-lo dia após dia, e ainda assim haveria iludidos, crentes em que ele, seus satelizados e mensalizados poderiam um dia encaminhar o Brasil ao socialismo.

Lula, o PT e seus satelizados estão claramente no campo da direita. Sua opção é a neoliberal, sendo necessário, assim, organizar a resistência. Enganadores, travestiam-se de esquerda sob o falso pretexto de combater as privatizações, no exato momento em que criavam em seus porões as famigeradas PPPs (parcerias público-privadas), que significam entregar o que é do povo a empresas privadas, especialmente transnacionais. As práticas revelam seu verdadeiro caráter, em nada diferente da balela tucano-pefelista (hoje, demonista).

Com as ilusões desfeitas, já podemos colocar os pingos nos is e começar a unificação da esquerda brasileira. Esquerda, sim: é bobagem essa história do Caetano de que os conceitos de direita e esquerda estão demodês. Nem ele está. Hoje, neste mundo tão cheio de injustiças, doença e miséria, em que poucos nababos enriquecem e milhões de pessoas sofrem e sucumbem, é impossível não delimitar dois campos opostos: a direita, para onde Lula escolheu ir, é o neoliberalismo, e a esquerda é, no mínimo, o antineoliberalismo.

O neoliberalismo não tem nada de demodê, portanto. Por isso, a Intersindical, em seu II Encontro Nacional, decidiu criar uma divisa para barrar as tentativas neoliberais de tirar direitos do povo: “Nenhum direito a menos, avançar nas conquistas”. Com essa bandeira, a Intersindical vê claramente a “perspectiva de aprofundamento, ainda maior, dos ataques promovidos pelo capital às conquistas dos trabalhadores e trabalhadoras no segundo mandato do governo Lula”. Serão leis, medidas provisórias e administrativas e reformas da Previdência, Sindical e Trabalhista, dentre outras, e há o risco de setores majoritários do movimento sindical se renderem a essas manobras.

A proposta da Intersindical é “intensificar a discussão, conscientizar, mobilizar e unificar os lutadores sociais para derrotar a política dos governos neoliberais, que retiram as conquistas e direitos históricos da classe trabalhadora, bem como buscam destruir as suas formas e possibilidades de organização como classe”.

A criação da Intersindical se baseou na necessidade de enfrentar o Estado capitalista, com autonomia e independência dos trabalhadores em relação aos governos, patrões e partidos. Busca a organização autônoma e independente dos trabalhadores, sustentada em suas organizações de base, visando a romper com o corporativismo e combatendo a burocracia, o assistencialismo e o aparelhismo sindical. Algo de novo no front, portanto. Engabelar os trabalhadores era a regra. Mas a máscara finalmente caiu.

No entanto, há muita ignorância neste País em relação ao verdadeiro papel dos governos – federal, estaduais e municipais. Sua função na verdade não é governar, mas administrar a crise. Mal e porcamente, com nosso dinheiro. E elevadíssimos índices de popularidade.