JORGE AMADO, UM FORAGIDO por hamilton alves / florianópolis

Numa entrevista recente que deu ao jornal “O Estado de S. Paulo”, no qual trabalha há seis décadas, segundo dito na resenha assinada por Laura Greenhalgh (com 85, atualmente, escreve para o jornal desde os 20 anos), Gilles Lapouge, a certa altura, declara que “Jorge Amado é um escritor adorado na França”.

Estranhou que tivesse escolhido para morar, em Paris, num quartier dos mais feios. Indagou a Amado o motivo dessa escolha. Respondeu-lhe que ali se refugiava para poder escrever em paz, sem que ninguém o incomodasse, diferente, por exemplo, do que lhe ocorria no Brasil, mesmo fora da Bahia , no nordeste (em alguma cidade, mesmo desconhecida), onde sempre era visitado, quando não por amigos, mas por algum bisbilhoteiro ou jornalista, que lhe propunha entrevista para qualquer jornaleco.

Não sei dizer se aqui em seu país Jorge seria assim adorado pelo público ledor. Ou haveria tanta gente que gostasse de suas novelas.

Particularmente, li apenas duas de tantas que escreveu: “Pastores da noite” e “A morte e a morte  de Quincas Berro d,Água”, que está entre as melhores coisas que produziu.

Jorge sempre alimentou a esperança de ganhar o Nobel de literatura, que contemplou dois outros escritores, que foram seus contemporâneos e amigos, Garcia Marques e José Saramago. O primeiro sacudiu o coreto da literatura mundial com o clássico “Cem Anos de Solidão”, o outro com “O ano da morte de Ricardo Reis”, único escritor de língua portuguesa a obter o           prêmio da Academia da Suécia, fatos que, certamente, lhe deixaram decepcionado ou, no mínimo, com água na boca. Mas Jorge tinha bastante jogo de cintura para dar a volta por cima desses pequenos infortúnios.

É difícil encontrar um leitor apaixonado pela obra de Jorge. Conheci alguns poucos, mesmo assim não revelavam conhecê-la em detalhes, e, sim, alguns livros esparsos. “Capitães de Areia”, por exemplo, teria sido um livro importante na bibliografia de Jorge, como outros muito badalados, “Dona flor e seus dois maridos”, “Gabriela, Cravo e Canela”, que fizeram certo furor quando lançados e viraram filme dois deles, além de mini-séries de novela.

Jorge, à parte seus méritos literários, era um homem generoso. Eu próprio pude prová-lo, quando lhe mandei um dos meus livros (uma pequena novela, com que estreei nas letras). Mandou-me um cartão, com dizeres muito estimulantes: que gostara do livro e que levasse por diante minha carreira de escritor.

Lapouge conta, nessa entrevista, que teve um encontro com Jorge, na Bahia, (percorreu de ônibus grande parte dos Estados nordestinos), contando que se decepcionou um pouco com ele: “Amado era um homem muito engajado, dizia besteira, não o entendi bem. Um amigo dizia que ele era mesmo raso, mas havia um anjo que escrevia por ele”.

Quando se citam grandes escritores brasileiros, indica-se, em geral, o trio de ouro conhecido: Machado de Assis, Guimarães Rosa e Graciliano Ramos. Por que não Jorge Amado, adorado, como diz Lapouge, na França?

Cumpre saber-se porquê.

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