Para começar a Semana – de tonicato miranda / curitiba


TONICATO MIRANDA - Semana de Julho

para todos amigos

(e espero ainda preencher uma barca de Noé com eles)

.

Ainda não fui.

Ainda trabalho desesperadamente.

E ainda não totalmente amei ninguém, não matei ninguém.

Ainda não consegui deixar de gostar de “My funny Valentine“.

Ainda me extasio com a música, com o sax e os trompetes.

E sinto muito frio.

Ainda morro de amores pelos amigos.

Ainda estou preso ao Rio de Janeiro, seus morros, meus parentes.

Deslumbro-me com as barcas cruzando a Baía de Guanabara.

Das barcas miro o Cristo, e ele mira o Pão de Açúcar que mira Copacabana e Botafogo.

Ainda continuo torcedor do Fluminense.

Ainda o Pico do Papagaio, há todo um Grajaú dentro de mim.

Saudades do bonde, da Borda do Mato, dos tamarindos estalando na língua.

Ainda Lúcio Alves cantando “Valsa de uma cidade“.

Ainda fiel a Curitiba, ao Rio Marumbi do Cardoso.

Fiel ao Bife Sujo, ao Bar da Mara, ao Metrô, ao Stuart e ao Hermes.

Ainda o Passeio Público de outrora, seus macacos e os pés de amora.

Ainda que viva mais do que Matusalém, que dizem viveu 300 anos, não serei rei.

Mesmo que viva como ele, não encontrarei palavras mais fortes do que a música, eu sei.

Ainda que seja gentil, tomarei porradas, sentirei dores.

Ainda que pense em todas mulheres, não terei seus amores.

Mesmo que viva ou não viva, a vida passará na estrada.

E mesmo que não vá com ela, serei testemunha do vento que ela faz.

Ainda que não vá ao Barigüi, sei do bem que a paisagem me faz.

Ainda que a palavra seja forte, ela não trina no bico do passarinho.

Tenho carinhos na caixinha, dedos gentis sob a luva

E mesmo que goste mais do vinho, aceito mordiscar a uva.

E sendo apaixonado por pães, aceito um chá quente com cuca.

Ainda gosto mais do calor, peitos expostos, dos corpos seminus.

Ainda gosto de Gauguin, Toulouse Lautrec e Dalí.

Estou morrendo por aqui, voando em palavras a Parati.

Ainda admiro Bashô, Whitman, Maiakovski, Pessoa e Gerson Maciel.

Ainda me transporto com Neruda, Chico, Lorca e Mallarme.

Ainda “Yesterday“, “Summertime“, Joplin, Hendrix, Coltrane, “My favourite things“.

Não queria terminar, mas o amargor do trabalho diz muitos sins.

Ainda me despeço com Valentine, Bill Evans e Chet Baker na agulha.

Ainda desejo a você um Bom dia!

E um dia será mais do que bom, será terno.

Ainda vestirei um terno e casarei com o dia, com a noite e a madrugada por testemunhas.

Ainda cortarei os cabelos e a barba, totalmente careca de pelos e unhas.

Deixarei “Angel eyes” me acompanhar ao inferno dos sentimentos.

Wynton Marsalis me devolverá a ilusão.

Ainda tomarei com prazer um chimarrão.

Ainda irei preferir a amizade de um cão.

Serei dos tolos e tordos um simples irmão.

Ainda me despedirei de todos ou não.

Ainda prefiro as conversas durante a sobremesa.

sempre prefiro sair da reunião à francesa…

Ainda…

.

ilustração do autor.

2 Respostas

  1. Puta merda, Tonicato… tu ainda tens muito prá mostrar pros amigos, mesmo que eles pareçam ou apareçam pouco. Que declaração de amor, essa que você fez! Vou ter que copiar e guardar na minha caixinha de jóias.

  2. Tonicato,

    esse teu poema é bom pra c… – abraço. hamilton

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