Arquivos Diários: 21 julho, 2009

PÁTIO DE HORRORES por sérgio da costa ramos / florianópolis

Não há aperfeiçoamento que não possa piorar o horror em que se transformou o aterro da Baía Sul, a partir dos anosSERGIO DA COSTA RAMOS1970. Os prefeitos e os arquitetos do caos conseguiram ali um efeito pior do que a desgraça que se abateu dos céus sobre a cidade alemã de Dresden, reduzida a pó na Segunda Guerra Mundial.

Às margens das águas cristalinas do Rio Neva, no estuário do Báltico, os russos se orgulham de São Petersburgo e de seus monumentos, como a Catedral de Santo Isaac e o Hermitage, o mais belo museu do mundo.

À beira do Tâmisa, ergue-se a gótica e milenar Torre de Londres, onde Henrique VIII fez decapitar Ana Bolena, para esconder o seu próprio alpinismo sexual.

À beira do Sena, deita-se uma antiga estação de trem, transformada no belo Museu D’Orsay, casa e albergue dos gênios do Impressionismo.

Às margens da Baía Sul, em Floripa, ergue-se a subestação da Casan, conhecida mundialmente pela insensatez dos que plantaram aquele liquidificador bem ali, ao lado do que deveria ser um jardim de Burle Marx.

Trata-se da admirável Chernobyl do “chorume” e faz lembrar o aroma emanado dos antigos “pés de loiça” do Colégio Catarinense, porcelana sobre a qual os rapazes depositavam o seu produto em estado bruto e não processado.

Ali, à beira-baía, só nos resta rogar ao São Vento Sul que use o seu eólio látego para depurar a atmosfera do local, como, aliás, tem feito com proverbial regularidade desde o século 19.

Na falta de qualquer estrutura de saneamento, era o vento sul o principal “spray” que depurava aquele ambiente, espécie de aerosol mitigando a catinga que se desprendia dos barris de carvalho, penicos ambulantes da classe abastada, transportados por escravos.

Os moradores da Rua do Príncipe, depois Conselheiro Mafra, jogavam os seus dejetos nas praias próximas ao atual Mercado Público. Já o pessoal “melhor de vida” contava com o “esgotomóvel”: negros plásticos e ornamentais, à semelhança dos crioulos de Debret, de ombros largos o bastante para suportar o recipiente, chamado “Tigre”.

Serviço infame e infamante, que só era executado depois de um “toque de recolher”, às 20h em ponto. Hora em que os pobres escravos deixavam as casas senhoriais com o “Tigre” às costas, rumando para a Prainha ou para o ancoradouro da Arataca, próximo ao Forte de Sant’Ana.

Continuamos dependendo do “gari” chamado vento sul.

Sem ele, o parque imaginado por Roberto Burle-Marx cada vez mais se parecerá com uma cloaca urbana. Repleta de garajões, cortiços, puxados, estações de esgoto, sambódromos, camelódromos – e outras passarelas onde possa desfilar a insensatez humana.

EDUARDO HOFFMAN e seus HAICAIS (VI) /curitiba

Caymmi sei quem é

é o mais lindo peixe

da Lagoa de Abaeté

=

blues morcego blues

diabo botando letra

na melodia de Deus

=

vá além

vende-se carro

de funerária com cinco

marchas fúnebres

=

trançando à toa

do bambu sai a pipa

a base voa

=

brasas de junho

estenda a mão

haicai balão

=

luzes passeiam

no levíssimo mini-circo

místico balão

=

retranca

fazendo reportagem

lá no Centro Espírita

mando matéria ?

DIABÓLICA, A CERVEJA chega aos bares / curitiba

Nesta quarta-feira (22) a cerveja Diabólica será oficialmente lançada em Curitiba. A festa acontece no Vox Bar, com direito a chope da Diabólica e show com as bandas Hillbilly Rawhide e As Diabatz. A comemoração, entre outras coisas, marca uma mudança de escala. A produção, que antes era de volume quase caseiro – o pré-lançamento, em fevereiro, teve 350 garrafas somente -, passa para cerca de mil litros. Ela saiu do caldeirão infernal dos idealizadores da receita e teve seu primeiro lote produzido em grande escala nos tanques da cervejaria Gauden Bier, localizada no bairro curitibano de Santa Felicidade.

370--FestaDiabolica

A receita da endiabrada bebida curitibana leva sete tipos de malte, incluindo um defumado responsável por deixar um sabor amadeirado. Além disso, ela passa por um processo chamado de “Dry Hopping”, que é a adição de lúpulo no final do processo de fermentação. Como toque final, o teor alcoólico resultante é de 6,66% abv, que faz referência ao número da besta.

A bebida é avermelhada e turva, com espuma puxada para o marrom claro. No aroma, percebe-se uma forte referência de frutas cítricas, algo suave e até adocicado. Já no gosto ela “te pega de jeito”. Encorpada, traz um gosto intenso, com lúpulo e amargor bem marcados, meio frutado e seco.

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Serviço:

* Festa de lançamento da cerveja Diabólica. Quarta-feira (22) no Vox Bar (Rua Barão do Rio Branco, 418, Centro, Curitiba). Informações: (41) 3233-8908.

* Cerveja Diabólica: Preço em torno de R$ 15,00 a garrafa. Ela pode ser encontrada na Cervejaria da Villa, Carocha Bar, Sláinte Irish Pub, Armazém da Serra e em breve em outros locais. Mais informações (41) 9202-4100, www.cervejadiabolica.com.brinfo@cervejadiabolica.com.br.

BALEIAS, BLUES & GUARAPUVÚS por fernando alexandre / florianópolis

FERNANDO ALEXANDRE - BALEIA DE ANDREA RAMOS -Baleiailustração de andrea ramos.

Depois do tempo da Tainha. No fim do tempo das Anchovas. Quando o vento sul  congela e vira inverno. Quando os Guarapuvús começam a bordar de amarelo os  morros sempre verdes e melancólicos.

Elas chegam de mansinho, pisando devagar, pé-ante-pé. Sempre juntas com o agosto, setembro, outubros. Imensas  dentro da própria imensidão. Infinitas e oceânicas. Pacíficas e atlânticas. Ilhas viajantes fugindo/procurando destino próprio.

Imensos úteros. Cheios, ocupados, em busca de outras ilhas-úteros com mares calmos e águas mais quentes.

Imensas mães parindo e cuidando de imensos filhos. Um parto de deuses.

As baleias  voltam devagar, com muito cuidado. Ainda choram dores passadas, transpassadas e repassadas. Carnificina e mar de sangue gravados no chips da memória. Seu óleo iluminando a estupidez truculenta do bicho-homem e bucólicas cidades europeias. Dando liga para a argamassa que construiu essa civilização.

As baleias choram. E brincam. E pulam. E parem. E choram. Gemem num desesperado blues. Grito quente, úmido e rouco. Grito de negro, de sofrimento, de  perseguidos. Um blues infinito e profundo como o azul do mar. Triste e contemplativo.

As baleias choram. E brincam. E pulam. E parem. E dançam. Ternas crianças de muitos metros e algumas toneladas. Viajantes incansáveis de milhas e sonhos em mares nunca/sempre navegados. Acrobatas do tempo e da sobrevivência. Francas no nome e nos gestos. A grande mãe.

As baleias dançam e traçam generosos gestos  na coreografia infinita – e azul – do horizonte.

As baleias dançam. Dançam e nos contemplam com a sabedoria dos deuses orientais e olhos de peixe.

Imensa lágrima cênica no oceano.

Pasmos e à sombra dos Guarapuvús, contemplamos paquidermicamente.