PÁTIO DE HORRORES por sérgio da costa ramos / florianópolis

Não há aperfeiçoamento que não possa piorar o horror em que se transformou o aterro da Baía Sul, a partir dos anosSERGIO DA COSTA RAMOS1970. Os prefeitos e os arquitetos do caos conseguiram ali um efeito pior do que a desgraça que se abateu dos céus sobre a cidade alemã de Dresden, reduzida a pó na Segunda Guerra Mundial.

Às margens das águas cristalinas do Rio Neva, no estuário do Báltico, os russos se orgulham de São Petersburgo e de seus monumentos, como a Catedral de Santo Isaac e o Hermitage, o mais belo museu do mundo.

À beira do Tâmisa, ergue-se a gótica e milenar Torre de Londres, onde Henrique VIII fez decapitar Ana Bolena, para esconder o seu próprio alpinismo sexual.

À beira do Sena, deita-se uma antiga estação de trem, transformada no belo Museu D’Orsay, casa e albergue dos gênios do Impressionismo.

Às margens da Baía Sul, em Floripa, ergue-se a subestação da Casan, conhecida mundialmente pela insensatez dos que plantaram aquele liquidificador bem ali, ao lado do que deveria ser um jardim de Burle Marx.

Trata-se da admirável Chernobyl do “chorume” e faz lembrar o aroma emanado dos antigos “pés de loiça” do Colégio Catarinense, porcelana sobre a qual os rapazes depositavam o seu produto em estado bruto e não processado.

Ali, à beira-baía, só nos resta rogar ao São Vento Sul que use o seu eólio látego para depurar a atmosfera do local, como, aliás, tem feito com proverbial regularidade desde o século 19.

Na falta de qualquer estrutura de saneamento, era o vento sul o principal “spray” que depurava aquele ambiente, espécie de aerosol mitigando a catinga que se desprendia dos barris de carvalho, penicos ambulantes da classe abastada, transportados por escravos.

Os moradores da Rua do Príncipe, depois Conselheiro Mafra, jogavam os seus dejetos nas praias próximas ao atual Mercado Público. Já o pessoal “melhor de vida” contava com o “esgotomóvel”: negros plásticos e ornamentais, à semelhança dos crioulos de Debret, de ombros largos o bastante para suportar o recipiente, chamado “Tigre”.

Serviço infame e infamante, que só era executado depois de um “toque de recolher”, às 20h em ponto. Hora em que os pobres escravos deixavam as casas senhoriais com o “Tigre” às costas, rumando para a Prainha ou para o ancoradouro da Arataca, próximo ao Forte de Sant’Ana.

Continuamos dependendo do “gari” chamado vento sul.

Sem ele, o parque imaginado por Roberto Burle-Marx cada vez mais se parecerá com uma cloaca urbana. Repleta de garajões, cortiços, puxados, estações de esgoto, sambódromos, camelódromos – e outras passarelas onde possa desfilar a insensatez humana.

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