Arquivos Diários: 23 julho, 2009

PERGUNTAS À LÍNGUA PORTUGUESA por mia couto / moçambique

Venho brincar aqui no Português, a língua. Não aquela que outros embandeiram. Mas a língua nossa, essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós, moçambicanos, ficarmos mais Moçambique. Que outros pretendam cavalgar o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta.

A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o voo. Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida. E quantas são? Se a Vida tem é idimensões? Assim, embarco nesse gozo de ver como escrita e o mundo mutuamente se desobedecem. Meu anjo-da-guarda, felizmente, nunca me guardou.

Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia. Nós estamos simplesmente ocupados a sermos. Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. Nos falta domínio, carecemos de técnica. Ora qual é a nossa elegância? Nenhuma, excepto a de irmos ajeitando o pé a um novo chão. Ou estaremos convidando o chão ao molde do pé? Questões que dariam para muita conferência, papelosas comunicações. Mas nós, aqui na mais meridional esquina do Sul, estamos exercendo é a ciência de sobreviver. Nós estamos deitando molho sobre pouca farinha a ver se o milagre dos pães se repete na periferia do mundo, neste sulbúrbio.

No enquanto, defendemos o direito de não saber, o gosto de saborear ignorâncias. Entretanto, vamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira, que dança todas as brisas sem deslocar seu chão. Língua artesanal, plástica, fugidia a gramáticas.

Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas. Recriamos a língua na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo, um pensamento nosso. O idioma, afinal, o que é senão o ovo das galinhas de ouro?

Estamos, sim, amando o indomesticável, aderindo ao invisível, procurando os outros tempos deste tempo. Precisamos, sim, de senso incomum. Pois, das leis da língua, alguém sabe as certezas delas? Ponho as minhas irreticências. Veja-se, num sumário exemplo, perguntas que se podem colocar à língua:

– Se pode dizer de um careca que tenha couro cabeludo?

– No caso de alguém dormir com homem de raça branca é então que se aplica a expressão: passar a noite em branco?

– A diferença entre um ás no volante ou um asno volante é apenas de ordem fonética?

– O mato desconhecido é que é o anonimato

– O pequeno viaduto é um abreviaduto?

– Como é que o mecânico faz amor? Mecanicamente.

– Quem vive numa encruzilhada é um encruzilhéu?

– Se diz do brado de bicho que não dispõe de vértebras: o invertebrado?

– Tristeza do boi vem de ele não se lembrar que bicho foi na última reencarnação. Pois se ele, em anterior vida, beneficiou de chifre o que está ocorrendo não é uma reencornação?

– O elefante que nunca viu mar, sempre vivendo no rio: devia ter marfim ou riofim?

– Onde se esgotou a água se deve dizer: “aquabou”?

– Não tendo sucedido em Maio mas em Março o que ele teve foi um desmaio ou um desmarço?

– Quando a paisagem é de admirar constrói-se um admiradouro?

– Mulher desdentada pode usar fio dental?

– A cascavel a quem saiu a casca fica só uma vel?

– As reservas de dinheiro são sempre finas. Será daí que vem o nome: “finanças”?

– Um tufão pequeno: um tufinho?

– O cavalo duplamente linchado é aquele que relincha?

– Em águas doces alguém se pode salpicar?

– Adulto pratica adultério. E um menor: será que pratica minoritério?

– Um viciado no jogo de bilhar pode contrair bilharziose?
– Um gordo, tipo barril, é um barrilgudo?
– Borboleta que insiste em ser ninfa: é ela a tal ninfomaníaca?

Brincadeiras, brincriações. E é coisa que não se termina. Lembro a camponesa da Zambézia. Eu falo português corta-mato, dizia. Sim, isso que ela fazia é, afinal, trabalho de todos nós.

Colocámos essoutro português – o nosso português – na travessia dos matos, fizemos com que ele se descalçasse pelos atalhos da savana.

Nesse caminho lhe fomos somando colorações. Devolvemos cores que dela haviam sido desbotadas – o racionalismo trabalha que nem lixívia. Urge ainda adicionar-lhe músicas e enfeites, somar-lhe o volume da superstição e a graça da dança. É urgente recuperar brilhos antigos. Devolver a estrela ao planeta dormente.

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escritor moçambicano, nascido na cidade da Beira, em 1957

A IRMÃ do GIBA – de jorge lescano / são paulo

Era dançarina. Não uma grande dançarina de boate grã fina, dessas que têm cartazes luminosos na porta e leão de chácara que fala pra mais de três línguas. Não. A irmã do Giba, naquela época não tinha flores no vestiário nem admiradores ou amantes esperando na saída. Nem a cara dela nos jornais tinha. Nada disso, coitada. Dançava num inferninho que tinha mais pulgas que fregueses; acho que nem nome tinha, de tão mixuruca. Não é Giba? Aquela espelunca tem nome?

Todos a conheciam como o buraco da Merilin. É verdade, Giba, o pessoal chamava assim sem segundas intenções. Tinha maldade não.

Merilin era o nome que a irmã do Giba usava lá. Era lá também onde o Jão se virava. Eles se namoravam e o sonho dos dois era comprar aquela joça.

Pois bem. Uma noite chegou ao buraco um tal de senhor Jonson ou Ximiditi, com a respectiva senhora Ximiditi ou Jonson. Um casal de coroas turistas, que saíram zanzando por aí pra ver como o povo se diverte à noite. Pelo jeito, estavam de saco cheio de andar daqui pra acolá com um monte de outros gringos, só falando a língua deles.

Então. Era um casal muito do respeitável, como eles dizem. Eram… Sei lá o país deles. Loiros feito palha e vermelhos como assustados. Ele era…, ou ainda é Giba? Um cara importante, pelo jeito…

É do tipo que precisa pagar imposto porque tem e paga em dia; vai a missa domingo de manhãzinha e comunga cada seis meses. De cinco em cinco anos sai da terra dele pra visitar o Brasil e ver o carnaval no Rio. Quer dizer, um cara cem por cento. A senhora Jonson é sócia de uma porção de clubes e associações de pobres. Também acha que tem que ter uma constituição só pra mulheres. Quer dizer, uma supermulher.

Então chegam no Buraco, sentam e começam a tomar todas, feito gringos e com cada dose ficavam mais vermelhos.

O Jão era o apresentador do show. Sentava nas mesas dos bons fregueses e dos estranhos que tinham muito dinheiro e tempo pra gastar. Eleajudava empurrando uísque ou coisa que o valha.

Pois é. Numa hora daquela noite, deu à luz uma idéia genial, dessas que não pintam duas vezes na mesma cabeça e que se for desperdiçada nunca mais volta.

Quando a irmã do Giba apareceu pra dançar, ele foi até a mesa do senhor Ximiditi e cochichou no ouvido dele. Pelo jeito, o senhor Jonson não gostou nada da conversa porque fez que não e enfiou o narizão no copo; o Jão não se ofendeu e saiu de fininho como quem entra no velório errado.

A Merilin dança uma, dança duas, mais uma e dança outra. O senhor e a senhora Ximiditi estavam se divertindo pra valer. A senhora Jonson, na euforia do espetáculo piscou pro Jão, o Jão tocou de leve no joelho da senhora Ximiditi. O senhor Jonson olhava os seios que passavam que nem gato vendo peixe. E o Jão aí como quem não quer nada. Mais um tempo e volta a irmã do Giba, desta feita com uma roupinha que só vendo! Aquela fantasia era da escola de samba, não era, não, Giba?

É. Era da escola.

Aí então, o senhor Ximiditi vira pro Jão: cerrto, ele diz, o dinherro é dela.

O Jâo sorriu feito besta e disse pro senhor Jonson: mas o senhor não esquecer de mim, vai? Dizia isso com aquele sotaque nordestino, magina…

O senhor tem que lembrar que fui eu que fiz o programa, disse o Jão. O senhor ta vendo como a crioula é bonita e bem feita, e o senhor não faz idéia de como é carinhosa. O senhor nem contou as dosas que servi pra sua esposa. Pra mais de dez, só pra que o senhor tenha um bom programa esta noite. O senhor pode contar comigo pra levar sua patroa até o hotel, é só me dar o endereço, eu me encarrego de que fique confortável. Isso tudo era pra morrer de rir!

Cerrto, diz o gringo abrindo a carteira, senhorr também merrece.

O Jão quase engole o nariz de tanto sorrir.

A irmã do Giba dançou outra vez porque uma das meninas estava de chico e a outra em cana. O senhor Jonson babava feito criança. Mulherr loirra muito bom, falou piscando, negrra melhorr, mais quente, como África. Ah! Ah! Ah!

A senhora Ximiditi que não entendia patavina, caiu na risada abrindo a boca deste tamanho, engasgando e ficando roxa. Apontava o nariz do marido com o dedo e gargalhava que nem doida. De trás do balcão, o gerente olhava e ria e anotava as risadas na conta. A mulher engasgou de vez e o Jão aproveitou o ensejo pra enfiar a mão nas coxas dela.

Assim que acabou o número, a senhora Jonson, numa clara amostra de emancipação feminina, como diz  o Giba, desabou em cima da mesa. Então aí o Jão e o senhor Ximiditi foram pro vestiário.

Lá estava apenas o dono da boate, sentado em uns caixotes e cercado de copos e garrafas cheias e vazias. Sentaram. Daí a pouco apareceu a Merilin. A roupa que estava usando era de quando tinha três anos e meio, imagina então o tamanho dos olhos do gringo, e ainda não tinha visto o estriptise.

O senhor me desculpe, disse ela com dengo. Ele sorriu. Você também, ela disse pro Jão. Eu não sou egoísta e acho que a beleza deve ser mostrada democraticamente a todos, respondeu ele gastando toda sua lábia.

Não sabia que tinha visitas, insistiu a irmã do Giba arrumando o decote pra que o senhor Ximiditi não vomitasse dentro dele. Por mim não tem grilo, disse o dono. Então ela olhou pro senhor Jonson.

O senhor Ximiditi não é um freguês, diz o Jão, é um amigo da gente e do Brasil, e sorriu com aquele seu jeito de safado. Ela disse que estava com calor e tirou a blusinha…

O Jão já estava de saída com a loira.

Depois de certo tempo, toda a mão de obra do senhor Jonson era esperar a Merilin na saída, mas o Jão não os perdia de vista.

Claro que a estória não é tão escura como parece, tem até um final feliz, é ou não é, Giba?

O Jão ficou sabendo depois que o senhor Ximiditi não era turista coisa nenhuma e decidiu encompridar o namoro; o senhor Jonson gostou da brincadeira e pelo menos uma vez por mês visita a Merilin, quando as crianças estão na escola. Ela não dança mais e o Jão também não. Acabaram casando de papel passado e só de sacanagem mandaram moldurar a certidão e penduraram na sala. Não é engraçado?!

Foi um casamento e tanto, porque o Jão gosta dela. Sim, ninguém pode dizer que não goste. Quem deu o dinheiro foi o gringo, como é de praxe nestes casos. O senhor Ximiditi prontificou-se pra ser o padrinho, mas o Giba se enfezou e acabou não deixando.

A Merilin agora é mãe de dois moleques bonitinhos. O Junior batuca que é um danado, vai ser artista que nem a mãe. O Jéferson, então, é forte como um boizinho e o que joga de bola não está escrito.

O Jão e a Merilin são um casal feliz no duro. É verdade que o senhor Jonson contribui bastante. O Jão sempre dá um jeito pra que a senhora Ximiditi esteja bem informada sem implicar. A Merilin não tem queixas do marido porque ele adora as crianças. O Jâo abriu um barzinho com o irmão dela, não é Giba? E eles tão se dando bem, é ou não é?

Este ano o senhor Jonson fez tantas visitas à Merilin que o casal já comprou televisão de tela plana compacta.

Você não acha bonita essa estória?

Mas quer saber uma coisa? Um dia destes me encho do parceiro e acabo com a raça dele. Você e eu, hein, Giba?

Pensando bem, o que o senhor Ximiditi poderia fazer? Nada. O senhor Jonson não podia fazer nada. Ele é tão inocente como a senhora Ximiditi. Eles dois também sonham, como qualquer hipi, com uma vida mais pura, mais natural, mais justa por assim dizer. Qualquer coisa do tipo acampamento pra festival de roqui. Tenho certeza que pra ir pro céu aceitariam com gosto um regime na base de sardinhas em lata, sem se importar com o pescador ou se tem que ser pescadas. Garanto que a senhora Jonson acredita que as sardinhas são como as ostras, só que nascem na lata.

O Jão emprestou a namorada a troco de uns trocados porque quis, ninguém mandou. A Merilin continua com o gringo porque é bom ter conforto dentro de casa e ninguém tem nada com isso. Ou será que tem, hein, Giba?

– Ó João, manda duas esprimidinhas e aquela cerveja! – a chegada de alguns fregueses interrompeu a conversa.

Ele saiu de trás do balcão atendendo o pedido, enquanto eu ficava matutando que, no fim das contas, esses gringos estão ajudando o desenvolvimento do Brasil.

– Você não acha, Giba?

Ele balançou a cabeça para os lados, duvidando.

CORRENTE AMPLIADA de harry laus / tijucas.sc

Num bar de esquina da Barata Ribeiro com a Siqueira Campos, eu tomava um cafezinho antes de ir para o Ministério da Guerra, onde o expediente da Diretoria de Armamento começava às 11 horas. De Juiz de Fora à Vila Militar, da Vila ao Ministério, agora podia dormir tarde, acordar sem o alarde do despertador.

Foi nesse bar que encontrei Walter Wendhausen, catarinense, meu conhecido das noites de Copacabana. Apresentou-me seu companheiro de apartamento, Luís Canabrava, contista premiado em São Paulo com o livro Sangue de Rosaura. Morava no 418 da Barata, eu no 435 do outro lado da rua. Bastaria o fato de trabalharem em publicidade (na Sears, depois na Mesbla) para nos unir. Meu fascínio pela propaganda vinha de longe, quando mandei o layout de um anúncio para uma agência de Porto Alegre e nunca soube o resultado. Mas havia outros elos: ambos desenhistas e pintores. Walter conhecedor da música popular, guardando seus preciosos discos numa velha geladeira pintada de verde-oliva.

No 418 morava também o contista Renard Perez, irmão do gravador Rossini Perez, e o ator Jason Cesar. No apartamento junto ao meu, o jornalista Antônio Pinto de Medeiros, conhecido de Natal, redator deO JornalSálvio de Oliveira, em frente ao meu prédio, completava este simpático quadro de vizinhança, onde não faltavam gostosas confabulações sobre arte, literatura e teatro, algumas vezes acompanhadas pelo brilho verbal de Jayme Maurício ou a irreverência de Sansão Castello Branco.

Sansão aparecia sempre de improviso, sandálias nordestinas, uma pasta com desenhos, projetos de decoração, o caderno de capa preta com os telefones “de todo o Rio de Janeiro”. De calça cinza, larga camisa preta, levou-me um dia a um velho edifício da rua Barão de Ipanema:

– Eneida, este é o Laus, oficial do exército, também contista.

Eneida, outra pessoa-chave de minha vida, uma das mais importantes como ser humano autêntico. De uma vivacidade sem limites, tinha seu caderno com os telefones também “de todo o Rio”. Jornalistas, críticos de arte, compositores, cantores, conhecia a todos, por todos conhecida como cronista do Diário de Notícias, responsável pelo Baile do Pierrots, lançadora das tardes de autógrafos na Livraria São José de Carlos Ribeiro.

Numa livraria ou galeria de arte, na entrada dos teatros ou no bar Vermelhinho, chegava com o ruído das pulseiras e colares de prata, os ativos olhos verdes saltando de uma pessoa a outra, beijos, abraços, um dito gostoso, uma palavra de humor. Mulher excepcional, amiga incondicional de seus amigos, defendia-os mesmo no erro:

– Sei que você não está certo, seu porcaria, mas afinal somos ou não somos amigos?

Impossível relacionar todas as pessoas conhecidas através de Eneida. Algumas, pura apresentação; outras, convivência rápida, sem consequência; mas também muitas de sólida ligação. Na literatura,Jorge Amado, James Amado, Aníbal Machado, José Condé, Valdemar Cavalcanti, o coronel M. Cavalcanti Proença, além de Antônio Bandeira, Ana Letícia, Rossini Perez, nas artes plásticas. Figura obrigatória nos Bailes do Pierrots, Elizeth Cardoso cantava sem se fazer de rogada nos grandes almoços de sábado, em casa de escritores e artistas.

Jayme Maurício, como bom gaúcho, aparecia no 435 com uma garrafa de vinho. Um dia, em 1954, trouxe Mário Faustino, o poeta, o maior poeta com quem convivi, poeta desde o amanhecer até a noite. Antes de dormir, para o descobrimento de novas palavras, ia avançando sua busca nas páginas do Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. Conversação instigante, agressiva, fulgurante, não concedia aos outros o que não concedia a si próprio: comodismo e improviso na criação artística.

Quando Mário voltou de Belém do Pará, onde morava, para trabalhar na Fundação Getúlio Vargas, ficou hospedado dois meses comigo. Esse período permitiu-me conhecer e avaliar sua inteligência, a cultura profunda. A presença do poeta trazia uma grande carga de emulação. Insistia para que se trabalhasse, lia sem cessar e, de vez em quando, interrompia a leitura para mostrar uma descoberta, fosse um poema inteiro, um verso ou uma simples palavra.

Tudo isso reforçou em mim uma convicção posta em letra de forma numa entrevista que concedi a um jornal de Belém, onde estive com Eneida e Renard Perez em 1956:

– Escrever pra mim, corresponde a um necessidade interior que posso, quando muito, adiar; impedir é impossível.

Mas, em 1956, ia perder o amigo (Sansão) que me chegou sob a forma envolvente e mágica de um balé.

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(Capítulo I, texto 5, do livro De-Como-Ser – Memórias de Harry Laus, 1978)

grifos originais.