A IRMÃ do GIBA – de jorge lescano / são paulo

Era dançarina. Não uma grande dançarina de boate grã fina, dessas que têm cartazes luminosos na porta e leão de chácara que fala pra mais de três línguas. Não. A irmã do Giba, naquela época não tinha flores no vestiário nem admiradores ou amantes esperando na saída. Nem a cara dela nos jornais tinha. Nada disso, coitada. Dançava num inferninho que tinha mais pulgas que fregueses; acho que nem nome tinha, de tão mixuruca. Não é Giba? Aquela espelunca tem nome?

Todos a conheciam como o buraco da Merilin. É verdade, Giba, o pessoal chamava assim sem segundas intenções. Tinha maldade não.

Merilin era o nome que a irmã do Giba usava lá. Era lá também onde o Jão se virava. Eles se namoravam e o sonho dos dois era comprar aquela joça.

Pois bem. Uma noite chegou ao buraco um tal de senhor Jonson ou Ximiditi, com a respectiva senhora Ximiditi ou Jonson. Um casal de coroas turistas, que saíram zanzando por aí pra ver como o povo se diverte à noite. Pelo jeito, estavam de saco cheio de andar daqui pra acolá com um monte de outros gringos, só falando a língua deles.

Então. Era um casal muito do respeitável, como eles dizem. Eram… Sei lá o país deles. Loiros feito palha e vermelhos como assustados. Ele era…, ou ainda é Giba? Um cara importante, pelo jeito…

É do tipo que precisa pagar imposto porque tem e paga em dia; vai a missa domingo de manhãzinha e comunga cada seis meses. De cinco em cinco anos sai da terra dele pra visitar o Brasil e ver o carnaval no Rio. Quer dizer, um cara cem por cento. A senhora Jonson é sócia de uma porção de clubes e associações de pobres. Também acha que tem que ter uma constituição só pra mulheres. Quer dizer, uma supermulher.

Então chegam no Buraco, sentam e começam a tomar todas, feito gringos e com cada dose ficavam mais vermelhos.

O Jão era o apresentador do show. Sentava nas mesas dos bons fregueses e dos estranhos que tinham muito dinheiro e tempo pra gastar. Eleajudava empurrando uísque ou coisa que o valha.

Pois é. Numa hora daquela noite, deu à luz uma idéia genial, dessas que não pintam duas vezes na mesma cabeça e que se for desperdiçada nunca mais volta.

Quando a irmã do Giba apareceu pra dançar, ele foi até a mesa do senhor Ximiditi e cochichou no ouvido dele. Pelo jeito, o senhor Jonson não gostou nada da conversa porque fez que não e enfiou o narizão no copo; o Jão não se ofendeu e saiu de fininho como quem entra no velório errado.

A Merilin dança uma, dança duas, mais uma e dança outra. O senhor e a senhora Ximiditi estavam se divertindo pra valer. A senhora Jonson, na euforia do espetáculo piscou pro Jão, o Jão tocou de leve no joelho da senhora Ximiditi. O senhor Jonson olhava os seios que passavam que nem gato vendo peixe. E o Jão aí como quem não quer nada. Mais um tempo e volta a irmã do Giba, desta feita com uma roupinha que só vendo! Aquela fantasia era da escola de samba, não era, não, Giba?

É. Era da escola.

Aí então, o senhor Ximiditi vira pro Jão: cerrto, ele diz, o dinherro é dela.

O Jâo sorriu feito besta e disse pro senhor Jonson: mas o senhor não esquecer de mim, vai? Dizia isso com aquele sotaque nordestino, magina…

O senhor tem que lembrar que fui eu que fiz o programa, disse o Jão. O senhor ta vendo como a crioula é bonita e bem feita, e o senhor não faz idéia de como é carinhosa. O senhor nem contou as dosas que servi pra sua esposa. Pra mais de dez, só pra que o senhor tenha um bom programa esta noite. O senhor pode contar comigo pra levar sua patroa até o hotel, é só me dar o endereço, eu me encarrego de que fique confortável. Isso tudo era pra morrer de rir!

Cerrto, diz o gringo abrindo a carteira, senhorr também merrece.

O Jão quase engole o nariz de tanto sorrir.

A irmã do Giba dançou outra vez porque uma das meninas estava de chico e a outra em cana. O senhor Jonson babava feito criança. Mulherr loirra muito bom, falou piscando, negrra melhorr, mais quente, como África. Ah! Ah! Ah!

A senhora Ximiditi que não entendia patavina, caiu na risada abrindo a boca deste tamanho, engasgando e ficando roxa. Apontava o nariz do marido com o dedo e gargalhava que nem doida. De trás do balcão, o gerente olhava e ria e anotava as risadas na conta. A mulher engasgou de vez e o Jão aproveitou o ensejo pra enfiar a mão nas coxas dela.

Assim que acabou o número, a senhora Jonson, numa clara amostra de emancipação feminina, como diz  o Giba, desabou em cima da mesa. Então aí o Jão e o senhor Ximiditi foram pro vestiário.

Lá estava apenas o dono da boate, sentado em uns caixotes e cercado de copos e garrafas cheias e vazias. Sentaram. Daí a pouco apareceu a Merilin. A roupa que estava usando era de quando tinha três anos e meio, imagina então o tamanho dos olhos do gringo, e ainda não tinha visto o estriptise.

O senhor me desculpe, disse ela com dengo. Ele sorriu. Você também, ela disse pro Jão. Eu não sou egoísta e acho que a beleza deve ser mostrada democraticamente a todos, respondeu ele gastando toda sua lábia.

Não sabia que tinha visitas, insistiu a irmã do Giba arrumando o decote pra que o senhor Ximiditi não vomitasse dentro dele. Por mim não tem grilo, disse o dono. Então ela olhou pro senhor Jonson.

O senhor Ximiditi não é um freguês, diz o Jão, é um amigo da gente e do Brasil, e sorriu com aquele seu jeito de safado. Ela disse que estava com calor e tirou a blusinha…

O Jão já estava de saída com a loira.

Depois de certo tempo, toda a mão de obra do senhor Jonson era esperar a Merilin na saída, mas o Jão não os perdia de vista.

Claro que a estória não é tão escura como parece, tem até um final feliz, é ou não é, Giba?

O Jão ficou sabendo depois que o senhor Ximiditi não era turista coisa nenhuma e decidiu encompridar o namoro; o senhor Jonson gostou da brincadeira e pelo menos uma vez por mês visita a Merilin, quando as crianças estão na escola. Ela não dança mais e o Jão também não. Acabaram casando de papel passado e só de sacanagem mandaram moldurar a certidão e penduraram na sala. Não é engraçado?!

Foi um casamento e tanto, porque o Jão gosta dela. Sim, ninguém pode dizer que não goste. Quem deu o dinheiro foi o gringo, como é de praxe nestes casos. O senhor Ximiditi prontificou-se pra ser o padrinho, mas o Giba se enfezou e acabou não deixando.

A Merilin agora é mãe de dois moleques bonitinhos. O Junior batuca que é um danado, vai ser artista que nem a mãe. O Jéferson, então, é forte como um boizinho e o que joga de bola não está escrito.

O Jão e a Merilin são um casal feliz no duro. É verdade que o senhor Jonson contribui bastante. O Jão sempre dá um jeito pra que a senhora Ximiditi esteja bem informada sem implicar. A Merilin não tem queixas do marido porque ele adora as crianças. O Jâo abriu um barzinho com o irmão dela, não é Giba? E eles tão se dando bem, é ou não é?

Este ano o senhor Jonson fez tantas visitas à Merilin que o casal já comprou televisão de tela plana compacta.

Você não acha bonita essa estória?

Mas quer saber uma coisa? Um dia destes me encho do parceiro e acabo com a raça dele. Você e eu, hein, Giba?

Pensando bem, o que o senhor Ximiditi poderia fazer? Nada. O senhor Jonson não podia fazer nada. Ele é tão inocente como a senhora Ximiditi. Eles dois também sonham, como qualquer hipi, com uma vida mais pura, mais natural, mais justa por assim dizer. Qualquer coisa do tipo acampamento pra festival de roqui. Tenho certeza que pra ir pro céu aceitariam com gosto um regime na base de sardinhas em lata, sem se importar com o pescador ou se tem que ser pescadas. Garanto que a senhora Jonson acredita que as sardinhas são como as ostras, só que nascem na lata.

O Jão emprestou a namorada a troco de uns trocados porque quis, ninguém mandou. A Merilin continua com o gringo porque é bom ter conforto dentro de casa e ninguém tem nada com isso. Ou será que tem, hein, Giba?

– Ó João, manda duas esprimidinhas e aquela cerveja! – a chegada de alguns fregueses interrompeu a conversa.

Ele saiu de trás do balcão atendendo o pedido, enquanto eu ficava matutando que, no fim das contas, esses gringos estão ajudando o desenvolvimento do Brasil.

– Você não acha, Giba?

Ele balançou a cabeça para os lados, duvidando.

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