Arquivos Diários: 24 julho, 2009

D’ALMA por donato ramos / florianópolis

A saudade triste junto ao poeta chorou.
A lágrima pura também existiu.
O poeta sabia ter dentro de si alguma coisa que, aos poucos, ia tomando forma.

A materialização da lembrança… olhos aprisionados na saudade daquilo que, um dia, existiu.
Veja o que sobrou do poeta:
Olhos alongados no horizonte, à procura do que fugiu de si.
…..
De rezas e de rosas, fiz versos pra você.
De tanto andar, esqueci.
…..
Hoje haverá um céu e um sol como os outros de outros de outros dias, ou chuva iguais às outras, ou vento como os outros que já existiram em dias como este.
J.C.Meira Matos, no seu livro POEMAS SEM ENDEREÇO confirma que hoje haverá pássaros, é certo, e o mar estará onde sempre esteve, com suas ondas batendo como sempre foi.

Realmente, hoje se trabalhará como sempre se faz e se terá fome.
Morrerá gente certamente, algum parente talvez, talvez lá pelo meio dia caia uma chuva fina como às vezes cai no me io dia… e alguém roubará pela primeira vez e alguém, amará pela vez primeira igualmente…
Os rios continuarão correndo para mar e os ditados continuarão valendo…

Nascerá muita gente e muita gente desistirá de continuar por aqui.

Mas, muitos, ainda, sentirão o que, ainda, alguns sentem: saudade, mesmo sabendo que hoje será um dia igual aos outros…
…..
Da distância infinita do meu pensamento, quando este se alonga e força a lembrança, você sempre aparece.
Muda o tom das coisas que me rodeia, muda o tempo e as cores das margens dos rios, rasga e cola folhinhas velhas…

Vem me falar de promessas, de coisas das quais não lembro mais, de abraços e beijos esquecidos, sem marcas profundas,.
Você, sempre você é quem aparece.

DEALBAR de j.l. gaspar / fóz do iguaçu.pr

Mandeei minha cambona

adispondo-le as águas tantas

em demorado brasido,

que é como se esferve mateado.

Porungo mais curtido de conversa

sem terminação que de erva

na folha tosta com gramíneos,

já cancheada al saber do pó;

nos recuantes na madrugada…

E o paladar então travado

vai recortando solito à calma

pensar a solidão do mundo,

na surta coité da memória.

Temperança fragária sorvendo

o verde esconso da minha vida.

“A FORRA” e “FIRME E FORTE” – de raymundo rolim / morretes.pr

A forra

Os sinos já haviam dobrado mais que o suficiente para que os ofícios principiassem com a abertura dos trabalhos. E nada do sacristão parar com as badaladas. Fechara-se por trás da porta de ferro antiga e blindada, que em tempos idos de guerra, serviu a cidadezinha como torre de vigia e abrigo de víveres e água potável, caso resistisse aos impactos. E lá estava ele, que havia enlouquecido com o vinho do padre e resolvera mostrar a todos, como é que se fazia! (É que a cidadezinha não aprovara o namoro dele com a filha do prefeito). Prevenido, lembrou-se de estocar também muito vinho, para que sua permanência fosse o mais agradável possível, já que de antemão, traçara planos. E o sino continuou, e foi por todo aquele dia e adentrou a noite. A cada hora, era socado pelo sacristão com uma fúria terrível a ferir os ouvidos dos pacatos cidadãos que, de joelhos, rezavam para que lhe voltasse o juízo. Ainda mais que era moço bem quisto de todos, pois o conheciam desde criança, devotavam-lhe até algum apreço, apenas não aprovavam o namoro dele com a filha do prefeito, devido a incrível rebeldia da moça em acatar as ordens paternas, além de ser dona do único lupanar existente na região, onde os prazeres corriam graúdos e às escâncaras. Escandalosos, exatamente! Mas, paixão é paixão, e a moça lhe roubava por completo todo o seu ser e o fazia sofrer de modo vil. O vinho já ia pela metade do estoque quando, ao sétimo dia, chegou o vigário da capital para exorcizar o moço que se encontrava possuído de coisa ruim. A imprensa teve acesso ao fato. Chegaram caravanas de repórteres com suas câmeras de assédio e gente de binóculos, caneta e papel na mão. Procurou-se pela mocinha, a tal da Juju, a dona do bordéu, lá no próprio, para que se obtivesse mais informações sobre aquele caso purpúreo que intrigava e daria matéria sobre matéria. Saiu-lhes a atender uma mocinha extravagante e semi-nua que soltava baforadas de um cigarrinho enroladinho – cigarrinho de artista como ela dizia – hummm- e bebia longos tragos no gargalo da garrafa. Informou-lhes ela, que a prima Ju desaparecera há uma semana e que provavelmente deveria estar numa outra festa louca, lá na torre, com o sacristão. Bem que se ouvia música em altíssimo volume entre as badaladas e risinhos e fumacinha de cigarrinhos artesanais saíam pela chaminé impoluta, que ganhava ares de fábrica ao povoadinho….! “Valha-me Santo Expedito”! – ouviu-se uma horinha lá o sacristão dizer isto sussurrando -!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Firme e forte

Ela já havia entrado na idade. E era idade o bastante para duas ou três vidas. E danou-se a querer se apaixonar novamente. Seu queixo trêmulo e o andar claudicante não ofereciam perigos maiores, mas que o glamour tinha ido pelo ralo, isto tinha. A coisa estava cada vez mais difícil, quando lhe surgiu à frente um senhor de iguais tremores no queixinho e tempo de vida. Foi amor à primeira vista. A palavra primorosa que ela, a descendente do tempo, dirigiu-lhe em tom ansioso e espontâneo, foi à custa de saber se aquele senhor ali, postado à sua frente, estava mesmo potente! Ao responder aquele “sim” analítico e convicto, o oponente-pretendente teve uma síncope e seu coração não agüentou tanta emoção. Ela comoveu-se tanto e de tal forma com o fato (pois, havia acabado de perguntar se ele estava “contente”) que acabou por acompanhá-lo em mesmo guardamento em mesma capela mortuária. Ele também já andava ouvindo com dificuldades… e ela se expressava por parábolas. Foi bom assim.