Arquivos Diários: 25 julho, 2009

PÁTRIA, MADRASTA VIL! por clarice zeitel vianna silva / rio de janeiro

REDAÇÃO DE ESTUDANTE CARIOCA VENCE CONCURSO DA UNESCO

Imperdível para amantes da língua portuguesa, e claro também para Professores. Isso é o que eu chamo de  jeito mágico de juntar palavras simples para formar belas frases. Premiada pela UNESCO, Clarice Zeitel Vianna Silva, de 26 anos, estudante que termina a faculdade de direito da UFRJ em julho, concorreu com outros 50 mil estudantes universitários.

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PÁTRIA, MADRASTA VIL!

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Onde já se viu tanto excesso de falta? Abundância de inexistência. .. Exagero de escassez… Contraditórios? ? Então aí está! O novo nome do nosso país! Não pode haver sinônimo melhor para BRASIL.
Porque o Brasil nada mais é do que o excesso de falta de caráter, a abundância de inexistência de solidariedade, o exagero de escassez de responsabilidade.
O Brasil nada mais é do que uma combinação mal engendrada – e friamente sistematizada – de contradições.
Há quem diga que ‘dos filhos deste solo és mãe gentil.’, mas eu digo que não é gentil e, muito menos, mãe. Pela definição que eu conheço de MÃE, o Brasil  está mais para madrasta vil.
A minha mãe não ‘tapa o sol com a peneira’. Não me daria, por exemplo, um lugar na universidade sem ter-me dado uma bela formação básica.
E mesmo há 200 anos atrás não me aboliria da escravidão se soubesse que me restaria a liberdade apenas para morrer de fome. Porque a minha mãe não iria querer me enganar, iludir. Ela me daria um verdadeiro Pacote que fosse efetivo na resolução do problema, e que contivesse educação + liberdade + igualdade. Ela sabe que de nada me adianta ter educação pela metade, ou tê-la aprisionada pela falta de oportunidade, pela falta de escolha, acorrentada pela minha voz-nada-ativa. A minha mãe sabe que eu só vou crescer se a minha educação gerar liberdade e esta, por fim, igualdade. Uma segue a outra… Sem nenhuma contradição!
É disso que o Brasil precisa: mudanças estruturais, revolucionárias, que quebrem esse sistema-esquema social montado; mudanças que não sejam hipócritas, mudanças que transformem!
A mudança que nada muda é só mais uma contradição. Os governantes (às vezes) dão uns peixinhos, mas não ensinam a pescar. E a educação libertadora entra aí. O povo está tão paralisado pela ignorância que não sabe a que tem direito. Não aprendeu o que é ser cidadão.
Porém, ainda nos falta um fator fundamental para o alcance da igualdade: nossa participação efetiva; as mudanças dentro do corpo burocrático do Estado não modificam a estrutura. As classes média e alta – tão confortavelmente situadas na pirâmide social – terão que fazer mais do que reclamar (o que só serve mesmo para aliviar nossa culpa)… Mas estão elas preparadas para isso?
Eu acredito profundamente que só uma revolução estrutural, feita de dentro pra fora e que não exclua nada nem ninguém de seus efeitos, possa acabar com a pobreza e desigualdade no Brasil.
Afinal, de que serve um governo que não administra? De que serve uma mãe que não afaga? E, finalmente, de que serve um Homem que não se posiciona?
Talvez o sentido de nossa própria existência esteja ligado, justamente, a um posicionamento perante o mundo como um todo. Sem egoísmo. Cada um por todos…
Algumas perguntas, quando auto-indagadas, se tornam elucidativas. Pergunte-se: quero ser pobre no Brasil? Filho de uma mãe gentil ou de uma madrasta vil? Ser tratado como cidadão ou excluído? Como gente… Ou como bicho?

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Ela acaba de voltar de Paris, onde recebeu o prêmio da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) por esta redação.

A redação de Clarice Zeitel foi incluída num livro com  outros cem textos selecionados no concurso. A publicação está disponível no site da Biblioteca Virtual da Unesco.

FOGÃO COM COMPUTADOR DE BORDO de otaciel de oliveira melo / fortaleza

– E o senhor quer comprar um fogão? – perguntou-me o vendedor da loja, olhando desconfiado para os meus cabelos brancos.

– Sim. O meu está todo enferrujado, anda vazando gás e, antes que alguma explosão danifique o prédio onde moro ou mate a minha empregada, eu vou trocá-lo.

– Então o senhor nos procurou na hora certa. Esta semana recebemos um modelo de fogão que é aquele que o Bill Gates usa em sua casa informatizada de 25 milhões de dólares, situada no Estado de Washington, USA.

– Vala-me, Deus! Homem, eu quero um fogão só para cozinhar, compreendeu? Desses que agente usa um fósforo, ascende uma das bocas, coloca a cuscuzeira em cima e pronto. Nada de muito sofisticado, desses que um assalariado pode pagar em suaves prestações mensais.

– Não se preocupe, meu amigo: todos os nossos fogões são vendidos à prestação. Agora, esse tipo de fogareiro que o senhor quer nos comprar já deixou de ser fabricado há muito tempo. Para começar, fósforo é uma coisa obsoleta, e todos os nossos fogões são dotados de um COMPUTADOR DE BORDO que gerencia uma quantidade enorme de funções indispensáveis a uma perfeita fritura.

E continuou o nosso diligente vendedor, mostrando-me uma brochura com os últimos lançamentos:

– Veja, por exemplo, esse maravilhoso termômetro conectado diretamente ao Windows XP: ele é capaz de medir variações de temperatura da ordem de milésimos de graus centígrados, deixando o seu frango no ponto. Isso mesmo: nem mal passado nem bem passado, mas à temperatura que o cliente desejar. Além desse termômetro, o forno dos nossos fogões tem um sensor de fumaça que percebe se a carne que foi colocada para assar encontra-se ou não em bom estado de conservação. Este sensor é gerenciado por um software chamado smoke-feeling, programado para detectar variações infinitesimais de odores estranhos em decorrência de pequenas alterações no tecido animal ou vegetal, alterações estas reveladas pelo cheiro da fumaça.

E provocativamente eu perguntei:

– E fumaça tem cheiro?

– Não tem para aquelas narinas que estão sempre obstruídas – respondeu com certa irritação o perspicaz vendedor. E arrematou:

– O senhor já passou a 5 km de um aterro sanitário sem sentir o cheiro de borracha queimada? Pois saiba que os computadores dos fogões de última geração têm um olfato muito mais sensível do que o de qualquer ser humano. Estou começando a perceber que o senhor é uma pessoa pouco informada sobre os últimos avanços tecnológicos, mas continuarei atenciosamente com a minha explicação, só que de agora em diante usando uma linguagem muito mais simples. O senhor já ouviu falar em um dispositivo chamado grampola da pirumbeta?

– Eu? Nunca! Nem num fogão nem em coisíssima nenhuma. Para mim isto é palavrão, se não for sacanagem.

– Pois eu explico do que se trata: a grampola da pirumbeta é um dispositivo que regulamenta a distribuição do tempero desejado possibilitando uma perfeita homogeneização do sabor do alimento. Nada daquelas manchas localizadas de colorau, sal em excesso em alguns pontos, pimenta do reino e cuminho em outros. Tudo agora é distribuído de tal maneira a espalhar o tempero de maneira uniforme por todo o corpo em fritura. A grampola emite raios laser que penetram no tecido animal ou vegetal e promove esta homogeneização. Não me diga que o senhor não está maravilhado com esta fantástica invenção? Quem gerencia a grampola é um soft chamado hot-dog, criado por um cozinheiro brasileiro que, com a crise financeira mundial, trabalha também como garçom no restaurante da NASA.

– Você até agora só falou do forno. E as bocas, são também computadorizadas?

– É claro que sim. Tanto as bocas quanto a chama. A boca é acesa graças a uma célula fotoelétrica que aciona um dispositivo chamado fire on. Assim que o senhor abrir a tampa do fogão, e assobiar uma música programada qualquer (“perfume de gardênia”, por exemplo), se formará uma chama no interior de uma película transparente. A chama como um todo se espalhará no interior desta película na forma de um pequeno cogumelo, semelhante em design ao desenvolvido pela explosão da bomba atômica de Hiroshima. Esta película transparente fará com que o recipiente onde se esquenta o leite, por exemplo, pareça flutuar sobre um colchão de raios luminosos. É a coisa mais linda do mundo. Não é à toa que Bill Gates mexe os ovos que ele come todos os dias no café da manhã só pelo prazer de contemplar esta chama fulgurante e multicolorida. Disseram-me que e a música que ele assobia para acender uma das bocas do fogão é “I’ve spent my money”. Não me peça, por favor, explicação sobre esta escolha, pois eu não conheço os hábitos de consumo da mulher do homem mais rico do mundo.

– Me diga mais uma coisa: é verdade que vocês dão de brinde um exemplar da Bíblia Sagrada para quem comprar um desses fogões?

– Meu amigo, não confunda as coisas. Este livro de 730 páginas que acompanha o fogão não é a Bíblia Sagrada, mas o seu manual de instrução. Ele ensinará ao comprador a tirar o máximo de proveito desta extraordinária revolução tecnológica que é este fogão computadorizado.

– Só mais uma curiosidade: e para apagar o fogo, o que eu devo fazer.

– Simplesmente assobiar a música “perfume de gardênia” de trás para frente. Fácil, não?