Arquivos Diários: 29 julho, 2009

VARIAÇÕES SOBRE TEMAS DIFERENTES por mário de almeida / porto alegre

Escolada 
Da série “Poesia numa hora dessas?!” 

“Lua, lua…” 
disse o poeta, 
procurando uma rima, 
uma frase, 
uma imagem. 
“Ai meu santo” 
disse a Lua, escolada. 
“Lá vem bobagem.” 
(Verissimo, O Globo, 23.07) 

Ué, não era para escrever sobre as catacumbas de Paris!? 

O engenheiro paulista José Carlos Pellegrino e eu fomos colegas no Ginásio, há mais de 60 anos, e somos amigos até hoje. 

Parte da fortuna da minha vida é que uns 40 como ele também jogam no nosso time da Fraternidade. 

Pellê, outros do time e eu nos reunimos num jantar, em São Paulo, em janeiro deste ano. Ele lê as minhas crônicas aqui, sempre registra a leitura, às vezes com comentários, às vezes não. A última crônica recebeu dele um elogio, inda com a ressalva que prefere as não-fúnebres. 

Eu já havia “atropelado” semana passada a prometida crônica sobre as catacumbas de Paris e, como décadas de amizade têm direito a preferências, sepultei de vez o assunto. 

Aurea e eu já matamos in loco a nossa curiosidade e até nos divertimos com as frases que provam o refinado humor francês, mas quem quiser saber a história daquelas catacumbas, basta acessar um Google da vida, onde há dezenas de sites sobre aquele mundo subterrâneo, onde, como visitá-lo e coisas tais.

Decidi que esta coluna “vai na valsa”, ou seja, vou valsar com assuntos diferentes. E nada de apelos lúgubres.

Tirei a dúvida da minha filha Carla, antes do vestibular, quando a indecisão dela vacilava entre duas vocações: imprensa e ciência. Expliquei a ela a não-incompatibilidade se a escolha fosse jornalismo.

Aprovada na Federal do RJ, ainda no primeiro semestre já estagiava na redação do Jornal da Ciência, publicação da SBPC e, antes de formada, já era remunerada como se o fosse. Formada, foi trabalhar no Museu da Vida, da Fundação Oswaldo Cruz. Depois, com uma bolsa do Conselho Britânico, partiu para um mestrado em divulgação científica em Londres.

Foi, e 11 meses depois, em 2007, voltou com o cartucho na mão para a Fiocruz, mas logo se afastou para cursar – como bolsista – doutorado na mesma especialidade na UFRJ, coisa que já acontece desde o ano passado. Minha filha, por bom tempo, como milhares de brasileiros que se aprofundaram nos estudos, tem como prêmio – por alguns anos – emprego fixo: estudante profissional.

É um investimento do governo para capacitar, ainda mais, cidadãos com grande potencial de gerar dividendos nas mais diversas atividades.

Carla acaba de completar 29 anos, dois a mais que Augusto Chaves, “estudante profissional” cursando a terceira faculdade sem concluir alguma e que acaba de assumir a presidência da UNE.

Mais um filiado do PCdoB que, como outros, chega ao cargo. Já ficou notório que mudaram a UNE e o PCdoB, pois se sabe que, em troca de apoiar o “lulismo”, verbas das estatais e de outros órgãos públicos vão regar a antiga entidade que só se envolvia em política quando em defesa de interesses nacionais, incluindo sua heroica luta contra a ditadura.

Quanto ao PCdoB…

Carla, milhares de bolsistas e o augusto pelego* deste governo são financiados, também, pelo contribuinte. Mas os “dividendos” do pelego serão pagos no ato para o lulismo que o patrocina.

Em O Globo de 22.07, Zuenir Ventura escreveu boa e, em alguns trechos, divertida crônica sobre aquela pergunta por vezes desagradável: lembra de mim?

Conta o caso de um colega dele que não se lembrando, mas dizendo-se lembrar, foi vítima da impertinência:

– Qual é o meu nome?

– Se você não sabe o seu nome, eu é que vou saber?

Lembrei-me de antiga historinha atribuída ao folclórico político mineiro José Maria Alckmim, ao abordar o filho de um eleitor: “Como vai seu pai, meu filho? – Meu pai morreu há muito tempo, doutor Alckmim. – Morreu para você, filho ingrato. Porque continua vivo no meu coração.”

Zuenir cita duas espécies humanas: uma que não faz a pergunta e vai logo lembrando a que fato ou situação se conheceram e a outra, do incômodo “Tá se lembrando de mim, não?” Essa crônica do Zuenir me remeteu ao próprio e a 2003.

O mesmo veículo da Feira do Livro que nos apanhou no Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, ele para fazer uma palestra sobre o 35º ano em que o ditador Costa e Silva assinou o famigerado Ato Institucional n° 5, e eu para dirigir e participar da leitura pública, com texto meu com cerca de 60 minutos com os antigos companheiros do nosso Teatro de Equipe.

Ainda no carro, fui logo lembrando ao Zuenir que estivéramos juntos 30 anos antes, ele, Henfil e eu que, atendendo a convite do então prefeito carioca Marcelo Alencar, formamos o júri de um concurso de desenho de crianças de uma favela carioca. Depois, nunca mais.

Após a palestra e a nossa apresentação, no Centro Cultural Erico Verissimo, Rafael Guimaraens e eu ainda autografamos para os presentes alguns exemplares do nosso “Trem de Volta – Teatro de Equipe”, lançado dois meses antes no Theatro São Pedro.

Eu, que havia levado o meu exemplar do “1968 – O ano que não terminou”, inverti a situação e ganhei do autor uma carinhosa dedicatória: “Por esse nosso reencontro, Mario, o meu abraço emocionado. Só não quero esperar mais 30 anos para te rever”.

Meses depois, em 31 de maio, livraria cheia de amigos, a gente apenas se cumprimentou na noite de autógrafos de Flavio Tavares para o seu livro “O Dia em que Getulio matou Allende”.

A fortuna me sorriu, saí com o bolso cheio de cartões de gente que há muito não via e há mais de 40 anos eu não falava com Leonel Brizola. Brizola – que, em 1961, quando governador do Rio Grande, solicitou uma apresentação especial para a minha peça “O Despacho”, no Teatro de Equipe – e eu chegamos cedo à livraria, o que rendeu um grande papo.

Três semanas depois, ele “se despedia da vida para entrar na História”.

Passando na TV por um canal de esportes, assisti ao início de uma entrevista de Romário, que vive num inferno astral. O “baixinho” começou muito bem:

– Quero logo avisar que não fui eu quem trouxe a gripe suína para o Brasil.

Como não continuei a ver, não sei se ele acrescentou que não é senador, não se chama Sarney, Renan, Collor e muito menos pizzaiolo…

O Pensamento Nacional das Bases Empresariais (PNBE) e mais 11 entidades reuniram numa pizzaria paulistana cem pessoas, muitas com nariz de palhaço. Cardápio: Pizzas de abobrinha com jabá, conhaque Senador e cachaça Providência. 
Inté.

*Vocábulo que acusava líderes sindicais de apoiar o governo em troca de benesses pessoais.

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Mario de Almeida é jornalista, publicitário, dramaturgo, autor de “Antonio’s, caleidoscópio de um bar” (Ed. Record), “O Comércio no Brasil – Iluminando a Memória” (Confederação Nacional do Comércio) e “Confederação Nacional do Comércio – 60 Anos” (CNC); co-autor, com Rafael Guimaraens, de “Trem de Volta – Teatro de Equipe” (Libretos); e um dos autores de “64 Para não esquecer” (Literalis).