Arquivos Diários: 6 agosto, 2009

DARCI RIBEIRO, SEUS PENSAMENTOS, SUAS FRASES E POESIAS / rio de janeiro

“Memória…Através dela daremos livros, livros a-mãos-cheias, a todo o povo. O livro, bem sabemos, é o tijolo com que se constrói o espírito. Fazê-lo acessível é multiplicar tanto os herdeiros quanto os enriquecedores do patrimônio literário, científico e humanístico, que é, talvez, o bem maior da cultura humana.”

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“Nós, brasileiros, somos um povo em ser, impedido de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem jamais foi crime ou pecado. Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo. Essa massa de nativos viveu por séculos sem consciência de si… Assim foi até se definir como uma nova identidade étnico-nacional, a de brasileiros…”

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“Por isso mesmo, o Brasil sempre foi, ainda é, um moinho de gastar gentes.

Construímo-nos queimando milhões de índios.Depois, queimamos milhões de negros.

Atualmente, estamos queimando, desgastando milhões de mestiços brasileiros, na produção não do que eles consomem, mas do que dá lucro às classes empresariais.”

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“Dizem, também, que nosso território é pobre – uma balela. Repetem, incansáveis, que nossa sociedade tradicional era muito atrasada – outra balela. Produzimos, no período colonial, muito mais riqueza de exportação que a América do Norte e edificamos cidades majestosas corno o Rio, a Bahia, Recife, Olinda, Ouro Preto, que eles jamais conheceram.”

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“Nosso povo preservará, depois dessa drástica cirurgia, a vitalidade indispensável para sair do atraso ou estará condenado a afundar cada vez mais no subdesenvolvimento? Quem está interessado em que o Brasil seja capado e esterilizado? Serão brasileiros?”

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“Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca.”

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“O Delta do Amazonas constitui uma das áreas de mais antiga ocupação européia no Brasil. Já nos primeiros anos do século XVII ali se instalaram soldados e colonos portugueses, inicialmente para expulsar franceses, ingleses e holandeses que disputavam seu domínio, depois como núcleos de ocupação permanente. Estes núcleos encontrariam uma base econômica na exploração de produtos florestais como o cacau, o cravo, a canela, a salsaparrilha, a baunilha, a copaíba que tinham mercado certo na Europa e podiam ser colhidos, elaborados e transportados com o concurso da mão-de-obra indígena, farta e acessível naqueles primeiros tempos.”

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“Embora a civilização nas zonas de fronteira seja algo tosca e desconjuntada, é sempre a civilização ocidental que avança através da sua encarnação na sociedade brasileira. O que oferece aos índios não são, naturalmente, as conquistas te cnicas e humanísticas de que se orgulha, mas a versão degradada destas, de que são herdeiros os proletariados externos dos seus centros de poder.”

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“Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.”

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“O Brasil cresceu visivelmente nos últimos 80 anos. Cresceu mal, porém. Cresceu como um boi mantido, desde bezerro, dentro de uma jaula de ferro. Nossa jaula são as estruturas sociais medíocres, inscritas nas leis, para compor um país da pobreza na província mais  BELA da terra. Sendo assim, no Brasil do futuro, a maioria da gente nascerá e viverá nas ruas, em fome canina e ignorância figadal, enquanto a minoria rica, com medo dos pobres, se recolherá em confortáveis campos de concentração, cercados de arame farpado e eletrificado.

Entretanto, é tão fácil nos livrarmos dessas teias, e tão necessário, que dói em nós… A nossa conivência culposa.”

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“ Nessa casona, hoje, um homem espera a Morte.

Eu. Nem homem sou.

Sou é um des-homem,

de punhos atados,

de dentes cerrados,

de pernas peadas,

aos pés do Senhor!

Quanta coisa boa!

Mas devo respeitar o espaço, e só tenho  TEMPO de falar de Emilinha,

uma gostosura de poema e de figura:

Emilinha não era desse mundo.

Ou era, demais da conta.

Safada de nascença.

Nela havia o sumo de dez,

de cem mulheres

muito fêmeas.

Tanto que extravasava,

sopitava em cheiros e barbas.

Suspiros e choros.

Era uma força viva,

selvagem como esses bichos silvestres.

Emilinha me fez homem

como jamais fui antes nem depois.

parecia até feitiço.

Eu e ela inesgotáveis…

Vi por fim,

me convenci,

de que Lea me vencia,

me amofinava.

Era mulher demais para um homem só.

Eu não podia com a mulinha!”.

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“ Ele sentava na ponta do banco, comendo no prato com a mão,

fazendo capitão e me escutando.

Lindo, quando ele fala de Benedito Gomes:

Chamei o compadre Benedito.

homem de  SABEDORIA,

para ver se descobria

e me explicava a causa de tanto urubu

Não sabia! Ótimo quando se vê como o mulo:

Aquele sim, é o homem

que eu sou,

inteiro. Cabal.

Sossegado, Valente

Realizado.

Contente.

Isso tudo, sem saber.

Inocente “