Arquivos Diários: 12 agosto, 2009

JOÃO DE ALMEIDA NETO declama o poema ” O MEU PAÍS” / porto alegre

UM clique no centro do vídeo:

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Um país que crianças elimina;
E não ouve o clamor dos esquecidos;
Onde nunca os humildes são ouvidos;
E uma elite sem Deus é que domina;
Que permite um estupro em cada esquina;
E a certeza da dúvida infeliz;
Onde quem tem razão passa a servis;
E maltratam o negro e a mulher;
Pode ser o país de quem quiser;
Mas não é, com certeza, o meu país.

Um país onde as leis são descartáveis;
Por ausência de códigos corretos;
Com noventa milhões de analfabetos;
E multidão maior de miseráveis;
Um país onde os homens confiáveis não têm voz,
Não têm vez,
Nem diretriz;
Mas corruptos têm voz,
Têm vez,
Têm bis,
E o respaldo de um estímulo incomum;
Pode ser o país de qualquer um;
Mas não é, com certeza, o meu país.

Um país que os seus índios discrimina;
E a Ciência e a Arte não respeita;
Um país que ainda morre de maleita, por atraso geral da Medicina;
Um país onde a Escola não ensina;
E o Hospital não dispõe de Raios X;
Onde o povo da vila só é feliz;
Quando tem água de chuva e luz de sol;
Pode ser o país do futebol;
Mas não é, com certeza, o meu país!

Um país que é doente;
Não se cura;
Quer ficar sempre no terceiro mundo;
Que do poço fatal chegou ao fundo;
Sem saber emergir da noite escura;
Um país que perdeu a compostura;
Atendendo a políticos sutis;
Que dividem o Brasil em mil brasis;
Para melhor assaltar, de ponta a ponta;
Pode ser um país de faz de conta;
Mas não é, com certeza, o meu país!

Um país que perdeu a identidade;
Sepultou o idioma Português;
Aprendeu a falar pornô e Inglês;
Aderindo à global vulgaridade;
Um país que não tem capacidade;
De saber o que pensa e o que diz;
E não sabe curar a cicatriz;
Desse povo tão bom que vive mal;
Pode ser o país do carnaval;
Mas não é, com certeza, o meu país!

SAUDADE de pablo neruda / chile


Saudade – O que será… não sei… procurei sabê-lo
em dicionários antigos e poeirentos
e noutros livros onde não achei o sentido
desta doce palavra de perfis ambíguos.

Dizem que azuis são as montanhas como ela,
que nela se obscurecem os amores longínquos,
e um bom e nobre amigo meu (e das estrelas)
a nomeia num tremor de cabelos e mãos.

Hoje em Eça de Queiroz sem cuidar a descubro,
seu segredo se evade, sua doçura me obceca
como uma mariposa de estranho e fino corpo
sempre longe – tão longe! – de minhas redes tranquilas.

Saudade… Oiça, vizinho, sabe o significado
desta palavra branca que se evade como um peixe?
Não… e me treme na boca seu tremor delicado…
Saudade…

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tradução de rui lage.

AFOGO-ME de ana carolina cons bacila / curitiba

Neste mundo de bolhas,
aqui me vejo
aqui me fico.
Me desgraço
me desvio,
aqui me estravio.

As memórias,
as lembranças,
aquelas prosas
que trançam,
me tranço
me esqueço,
a bolha se desfaz
e eu me lembro.

Que era tudo um sonho,
que agora se acaba,

Me afogo.

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ana carolina (16) faz parte do grupo de poetas iniciantes do site.

PIVETE de marinaldo gonçalves / são luis.ma

Por favor,

Tirem-me os piolhos da cabeça.

Por amor,

Antes que a fome me desfaleça,

Tenham piedade,

Evitem que mau destino me aconteça.

Sou pobre,

Mas também sou gente;

Estou sujo,

Falta-me mãe ou parente;

Sou triste,

Por isso tão carente.

Ainda não sei,

Como é que vai ser.

Apenas percebo

Que um dia vou crescer.

Forte,

Pelo muito que sofrerei;

Duro,

Ante o desprezo que passarei;

Mau,

Face a perversidade

Que na pele sentirei.

Então,

Vendo-me forte,

Sabendo-me mau,

A sociedade,

Que não ligou na minha sorte,

Há de me chamar de marginal.

Mas,

Outro já serei:

Revólver,

Na destra terei;

Punhal,

Na sinistra usarei!

E,

Vivenciando

O que aprendi,

Nem lembrando

O amor que nunca senti,

Em próprio juiz me farei,

Minha Justiça empregarei,

A todos roubando

E muitos matando!

Se ao menino

Repulsa e dor ofertaram,

Do homem,

Menos gente, mais fera,

As elites

Receberão a paga:

Nas ruas, nas estradas,

Pessoas, viaturas assaltadas:

Nos becos, nas moradas

Suas mulheres e filhas estupradas!

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“A + FORTE” com CAROL PUCU e PATRÍCIA MELO / rio de janeiro

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