FIM DE JOGO por hamilton alves

A peça famosa de Beckett “Fim de Jogo” chegou-me às mãos por um texto em espanhol. Comecei a lê-lo e, a partir de certo ponto em diante, o larguei. Não pude colher nenhuma impressão das poucas páginas lidas. Sabia, no entanto, que se tratava de uma das melhores peças do dramaturgo irlandês. Vinha precedido de outro sucesso de palco, esse mais estrondoso – “Esperando Godot”, representado, no Brasil, pela primeira vez, por Walmor Chagas e Cacilda Becker, que, num dos espetáculos, teve uma crise de aneurisma e morreu em cena.

“Fim de Jogo” foi exibida aqui por Edson Celulari (canastrão global) e Cacá Carvalho (ator excelente). Revezavam-se ambos na interpretação dos personagens Clov e Hamm (dificílimos). Mas se saíram muito bem de sua missão árdua, melhor do que se poderia esperar.

Como fui ver essa peça é preciso que se conte.

Não tinha nenhum interesse de vê-la porque não acreditava em Celulari. Cacá era, para mim, um ilustre desconhecido, se bem que, como o outro, trabalhava nas novelas xaropes da Globo.

Um amigo, um dia antes da sessão a que compareci, me ofereceu dois ingressos.

Tinha-os ganho mas não revelava nenhuma disposição de ver a peça.

De minha parte, como aludido, tinha minhas restrições a Celulari, mal conhecia os demais atores, que formavam um quarteto, dois dos quais tinham pouca participação.

Sabia do valor do texto de Beckett, que, àquela altura, tinha corrido mundo.

Enfrentando uma má vontade de rotina de sair de casa à noite, onde invariavelmente me enfurno para distrair-me com leitura de livros ou jornais ou para compor algum trabalho literário, além do convívio com a família, fui ver a peça, já sabendo de ante-mão o que me esperava. Ou as poucas perspectivas de assistir a alguma coisa que me agradasse.

Bem, para resumir: o tiro me saiu pela culatra. Ou seja, foi um dos maiores espetáculos de teatro que já vi.                                                                                                Celulari que, na oportunidade em que assisti à peça, interpretava Hamm, e Cacá, Clov, deram ambos um show ”au complet” de arte teatral.

Punha as barbas de molho pela crítica ferina que havia feito de suas possibilidades de atores. Celulari, especialmente, estava absolutamente senhor de seu complicado papel de interpretar um velho caquético e autoritário como Hamm, que submetia sob seu tacão o pobre Clov, que lhe era todo servil. Cacá merece igualmente destaque especial (fez Clov de forma absolutamente espetacular). Trata-se, para mim, da revelação de um ator genial.

Quando saía do teatro, vinha comentando com um amigo a funda impressão que me deixara o desempenho de todos os quatro atores, com destaque para Celulari e Cacá. Notei que uma pessoa, que me ouvia, fez um risinho de mofa, levando-me a crer que não entendera lhufas da peça.

Não quero aprofundar o tema, mas me ocorreu como são mal aproveitados e pior dirigidos os atores de novelas.

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