Arquivos Diários: 21 agosto, 2009

JULIO DAIO BORGES entrevista o poeta MANOEL DE ANDRADE / são paulo

América Latina foi minha grande universidade

Hoje gerente de uma empresa da área médica, o poeta brasileiro Manoel de Andrade se destacou nos anos 70 pelos versos nos quais expressava o sentimento do homem latino-americano no livroPoemas para a Liberdade, reeditado recentemente em edição bilíngue no Brasil (Escrituras Editora).

Sua forte ligação com a América Latina começou no final dos anos 1960, quando saiu do Brasil devido à perseguição política pela luta estudantil contra a ditadura e, especificamente, por um poema que escreveu em homenagem a Che Guevara.

Na viagem, percorreu 15 países latino-americanos, onde viveu, segundo ele, sua universidade poética, apesar de termanecosido preso e expulso de alguns deles. Em cada cidade, aproveitava o tempo para estudar, aprender o idioma espanhol e ler grandes escritores.

Os frutos da empreitada resultaram em reconhecimento internacional, com o livro Poemas para la Libertad publicado na Bolívia, Colômbia, Equador e Estados Unidos, além de edições panfletárias no Peru, Nicarágua, El Salvador e México.

De volta ao Brasil, em 1972, não exerceu mais sua vocação e só voltou à poesia mais de 30 anos depois, com a publicação do livroCantares, em 2007.

Qual foi o impulso para reeditar Poemas para a Liberdade (1970) hoje?

Primeiramente pela grata recepção que teve meu livro Cantares, lançado em 2007. E, depois, pela memória de 1968, relembrando as bandeiras da luta estudantil empunhadas por minha geração. Recordar toda nossa corajosa resistência, como porta-vozes da sociedade contra o regime militar, me fez relembrar também meus anos de luta pela América Latina, onde minha trincheira e meu fuzil foram os meus Poemas para la Libertad, finalmente editados no Brasil.


Você é um dos únicos casos que conheço de poeta brasileiro que escreveu para a América Latina inteira (e obteve êxito) – como aconteceu essa sua ligação tão forte com o idioma de Cervantes?

A ligação antiga foi a leitura dos clássicos espanhóis na juventude e a imediata foi a convivência diária com o idioma castelhano em meu imenso caminhar. Ao longo dos 15 países que percorri, tinha o hábito de reservar as primeiras semanas para ler, nas melhores bibliotecas, sua história política e literária e seus principais poetas e prosadores. Aprendi muito rápido: lendo muito, falando e escrevendo.

Sua saída do Brasil está relacionada a um poema seu em homenagem a Che Guevara. Quando ele morreu, era tão perigoso assim homenageá-lo no Brasil?

Quando ele morreu, em 8 em outubro de 1967, ainda não existia o AI-5 [Ato Institucional nº5]. Saudação A Che Guevara foi escrito para comemorar o primeiro ano de sua morte. O poema colocava, liricamente, a sua imagem de comandante no centro dos movimentos revolucionários do continente, convocava a luta armada e saudava a sua imortalidade como uma consigna triunfante na conquista de um mundo novo.

Quatro mil cópias foram panfletadas até o início de dezembro, quando a nação já respirava uma atmosfera carregada pelo pressentimento de uma surda e sinistra ameaça por trás dos biombos do poder. No dia 13 de dezembro, a edição do AI-5 sufocou os últimos suspiros da democracia.

Em março, o DOPS [Departamento de Ordem Política e Social] já tinha em mãos cópias do meu poema, e a caça às bruxas já havia começado no país inteiro. Eu já estava sendo procurado nos recintos universitários, e os suspeitos de subversão eram presos, mantidos incomunicáveis, e alguns começaram a sumir. Nesse perigoso contexto, eu saí do Brasil.

Como foi percorrer 15 países por conta da sua obra, que foi, finalmente, editada em livro na Bolívia em 1970? Hoje seria possível algum poeta brasileiro experimentar uma acolhida remotamente parecida?

A América Latina foi minha grande universidade. Com meus versos na garganta, muitos percalços e alegrias pelos caminhos, preso e expulso de alguns países, mas avançando sempre rumo ao norte, meus poemas atravessaram o continente, cruzaram o Rio Bravo e foram cantar a justiça e a liberdade nas próprias entranhas do “monstro” livro capaimperialista. Ecoaram na Califórnia de 40 anos atrás, para dizer da saga revolucionária latino-americana aos nossos irmãos chicanos, cuja latinidade, maculada pelo esbulho da própria pátria mexicana, buscava forças em suas raízes para lutar contra a discriminação, as humilhações e as injustiças após 150 anos de genocídio cultural, com a anexação, em 1848, do Novo México, Arizona, Califórnia, Utah, Nevada e Colorado ao território estadunidense.

Por outro lado, não creio que hoje se possa experimentar uma acolhida tão solidária como aquela fraternidade ideológica que envolveu a América Latina nos anos 70. A Revolução Cubana acendeu uma fogueira que iluminou a tantos e nos sulcos das suas trincheiras muitos nos alinhamos, segurando o mesmo estandarte. O mundo mudou e hoje eu não cantaria mais a mudança do mundo com as armas na mão. O muro de Berlim se despedaçou sobre nossos sonhos. A Rússia centralizou sua “democracia” e a China negociou o socialismo com o “Capitalismo de Estado”. É triste dizer que, hoje, não temos mais uma utopia.

Mas a consagração, aqui, só veio em 1980, graças a Moacyr Félix e Wilson Martins… Como foi esse reconhecimento tardio?

Na verdade esse foi um reconhecimento solitário e prematuro. Meu primeiro livro publicado no Brasil foi Cantares, em 2007. Meu nome começou a surgir no cenário poético paranaense em 1965, quando minha poesia foi premiada num  concurso literário, e por minha participação na Noite da Poesia Paranaense no Teatro Guaíra, onde lancei, solitariamente, minhas primeiras farpas contra a ditadura. O destaque para minha poesia chegou, em fins de 1968, pelas amplas portas que o jornalista Aroldo Murá abriu no “Diário do Paraná” e  pela minha longa “Canção para os homens sem face”, publicada em dezembro daquele ano na Revista Civilização Brasileira, onde pontificava a elite intelectual de esquerda brasileira e mundial. Mas em março de 1969 deixei o país e me coloquei no olho do imenso furacão ideológico que agitou o continente. Minha poesia amadureceu nesse embate e frutificou nas edições de meu livro na Bolívia, Colômbia, Equador e Estados Unidos, além de edições panfletárias no Peru, Nicarágua, El Salvador e México. Quadros, cartazes, revistas, jornais, panfletos, recitais, palestras e debates foram os caminhos por onde transitaram os meus versos, partilhando também páginas de antologias com Mario Benedetti, Juan Guelmann e Jaime Sabines entre outros. Mas tudo isso fora do Brasil.

Apesar de você já ser uma promessa, nos anos 60, ao lado de Paulo Leminski e Dalton Trevisan, se ressente de não ser considerado, pela crítica especializada, tão importante quanto eles?

E nem poderia sê-lo. Voltei a ocupar esse espaço há dois anos, depois de 40 anos de ausência. Os que se lembram do poeta que fui têm hoje mais de 50 anos. Eu era uma promessa? Talvez literariamente realmente fosse. Mas esse tipo de importância nunca o foi para mim. Encaro o significado da vida numa dimensão muito maior que a literária. Quanto à crítica especializada de hoje, não crio expectativas em relação ao reconhecimento da minha poesia.

Meu livro Poemas para a Liberdade não é apenas mais um livro no mercado editorial, mas um documento histórico e político. Sua verdadeira importância está na expressão literária de um sonho que transcendeu as fronteiras do espaço e do tempo, e a crítica atual, com raras exceções, despreza a ideologia.

Meu respeito pelas palavras, a reverência do meu estilo e a clareza cartesiana com que escrevo meus versos não fazem concessões ao mero intelectualismo e aos paradigmas da pós-modernidade.

A crítica que me gratifica são os comentários sinceros que fazem na Internet aos meus poemas. Como me gratifica ver este meu livro citado publicamente por um grande escritor como Domingos Pellegrini, com dois Jabutis nas costas, e que, em mensagem a mim enviada, relembra a mesma bandeira que desfraldamos no passado e confessa que meus Poemas para a Liberdade lavaram sua alma.

E o que andou fazendo de 1980 pra cá?

Voltei em meados de 1972, quando o país passava pela sua mais aguda fase de repressão. Era a época da Guerrilha do Araguaia e quando a Anistia Internacional revela ao mundo o nome de centenas de torturadores e de milhares de torturados no Brasil. Depois de alguns meses, os agentes do DOPS já estavam à minha procura. Transferi minha [carteira da] OAB para Santa Catarina, na esperança de advogar em meu estado. Também lá não foi possível assumir publicamente qualquer trabalho.

Neste anonimato voltei para Curitiba e fui vender a Enciclopédia Delta Larousse. Era uma forma itinerante de trabalhar pelo interior sem que os agentes do DOPS me localizassem. Profissionalizei-me rapidamente, cheguei ao topo na hierarquia dos títulos nacionais e tive um grande sucesso financeiro.

Em 1987, já na abertura democrática, ingressei na área gerencial de uma empresa de medicina de grupo onde estou até hoje. Durante todo este período, embora não tenha escrito poesia, fui sempre um leitor insaciável e sempre envolvido com o voluntariado.

Foi difícil retomar o caminho da poesia em Cantares (2007)?

O caminho pelo qual retornei à poesia deu-se de forma intrigante em termos de inspiração poética: em setembro de 2002, durante a campanha eleitoral para governador no Paraná, meu velho amigo Roberto Requião foi covardemente atacado, na mídia, com uma série de infâmias e inverdades pelos seus inimigos políticos.

Indignado com tanta mentira, comecei a rabiscar um poema relembrando sua coragem, depois do golpe de 1964, quando partilhamos sua afiada oratória e minha poesia nos protestos estudantis contra a ditadura. Relembrei, sobretudo, seu gesto solidário quando, em março de 1969, me ajudou a sair do país, num dos momentos mais difíceis da minha vida. Este poema chama-se Tributo e consta do livro Cantares, e foi com este poema que voltei a escrever poesia depois de 30 anos.

E aquele sonho, dos anos 60, acabou mesmo – como disse John Lennon?

O sonho tem a dimensão que lhe queremos dar e sempre acreditei que o DNA dos poetas é feito de sonhos. Embora aquele sonho dos anos 60 tenha acabado, nos restou a indignação por termos que arriar tantas bandeiras. E essa indignação, que caracteriza toda a humanidade contemporânea, é a nova tese no misterioso processo dialético da própria vida que se renova, sobrepondo-se a todos os reveses. Em algum lugar sempre haverá alguém sonhando, ou nascendo para sonhar com um mundo novo, assim como Colombo um dia sonhou com o Novo Mundo.

Leia poema de Manoel Andrade:

Por que Cantamos*

Se tantas balas perdidas cruzam nosso espaço
e já são tantos os caídos nesta guerra…
Se há uma possível emboscada em cada esquina
e temos que caminhar num chão minado…

“você perguntará por que cantamos”

Se a violência sitia os nossos atos
e a corrupção gargalha da justiça…
Se respiramos esse ar abominável
impotentes diante do deboche…

“você perguntará por que cantamos”

Se o medo está tatuado em nossa agenda
e a perplexidade estampada em nosso olhar…
Se há um mantra entoado no silêncio
e as lágrimas repetem: até quando, até quando, até quando…

“você perguntará por que cantamos”

Cantamos porque uma lei maior sustenta a vida
e porque um olhar ampara os nossos passos.
Cantamos porque há uma partícula de luz no túnel da maldade
e porque nesse embate só o amor é invencível.

Cantamos porque é imprescindível dar as mãos
e recompor, em cada dia, a condição humana.
Cantamos porque a paz é uma bandeira solitária
a espera de um punho inumerável.

Cantamos porque o pânico não retardará a primavera
e porque em cada amanhecer as sombras batem em retirada.
Cantamos porque a luz se redesenha em cada aurora
e porque as estrelas e porque as rosas.

Cantamos porque nos riachos e lá na fonte as águas cantam
e porque toda essa dor desaguará um dia.
Cantamos porque no trigal o grão amadurece
e porque a seiva cumprirá o seu destino.

Cantamos porque os pássaros estão piando
e ninguém poderá silenciar seu canto.
Cantamos para saudar o Criador e a criatura
e porque alguém está parindo neste instante.

Pelo encanto de cantar e pela esperança nós cantamos
e porque a utopia persiste a despeito da descrença.
Cantamos porque nessa trincheira global, nessa ribalta,
nossa canção viverá para dizer por que cantamos.

Cantamos porque somos os trovadores desse impasse
e porque a poesia tem um pacto com a beleza.
E porque nesse verso ou nalgum lugar deste universo
o nosso sonho floresce deslumbrante.

(*) Manoel de Andrade escreveu estes versos motivado pelo poema “Por que Cantamos”, do uruguaio Mario Benedetti.

LEIA TAMBÉM ARTIGO SOBRE MANOEL DE ANDRADE: clicando AQUI.

“il pleure dans mon coeur” PAUL VERLAINE / frança

GERAÇÃO BEAT, COMO ESQUECER… por daisy carvalho / rio de janeiro

jack-kerouac-22

JACK KEROUAC. foto livre.

.

Para mim, falar de livros, além de ser sempre um prazer, me remete à cultura, ao tempo e espaço onde o escritor se inspirou para escrever seu livro. Eles são eternos, porém datados política e socialmente. Quando um escritor tem sua inspiração para desenvolver sua obra, ele está cercado pelo espaço e pelo tempo e, assim, não tem como não catalogar em seu livro, questões sociais, comportamentais e filosóficas. Respeito, mais que tudo nesta vida, aquele que emprega seu tempo e seu coração no ato de escrever. São deuses os escribas e devem ser sim reverenciados como disse-o bem nosso querido amigo Christian Gurtner.

Hoje vou falar de Jack Kerouac, para mim um dos maiores e mais sensíveis escritores de seu tempo. Vou falar de revolução cultural. Revolução! Uma revolução cultural que ficou conhecida como a Geração Beat.

On The Road

Em 1957, Jack Kerouac publicava On The Road e iniciava uma revolução cultural nos Estados Unidos. Este livro tornou-se o manifesto da geração beat, que rompia com o compromisso do american Way of life e pregava a busca de experiências autênticas, um compromisso selvagem e espontâneo com a vida até seus mais perigosos limites. Diante de uma sociedade que aniquilava o indivíduo, os beatniks queriam uma consciência nova, libertada de padrões, escolhiam a marginalidade. (Trecho O Autor e sua Obra)

Não queriam continuar numa sociedade morna, desprovida de vida, de ação e liberdade de pensar e viver.

Apesar das experiências com o êxtase através das drogas, na minha opinião é apenas um detalhe dada a importância desta revolução, a geração beat marcou nova era no mundo cultural. O homem tem direitos de indivíduo e o mais sagrado é, possivelmente o de mudar o Status Quo. Perceber que pode repensar as coisas e, diga-se de passagem, estamos falando de uma revolução artística – Literatura essencialmente…

Por intermédio de Burroughs, Kerouac tomou contato com escritores como Kafka, Céline, Spengler e Wilhelm Reich. Os três amigos passaram a conviver com as barras pesadas do Times Square.

Descendente de uma família de franco-canadenses, Jack Kerouac recebeu uma educação católica e graças às suas aptidões de atleta foi estudar na Universidade de Colúmbia. Lá no Campus, conheceu Allen Ginsberg, também estudante e William Burroughs, formado em Harvard. Os três iriam se tornar os principais representantes da geração beat.

Em 1947 Kerouac resolveu sair viajando pelo mundo e pegou a estrada. Associou-se com vagabundos, caroneiros, e bebeu muito por aí. Terminou o On The Road em 1951. Seu estilo é notável e inconfundível, com suas longas frases, onde descartava o uso da pontuação.

Mas sempre foi um individualista. Terminou dividindo um apartamento com sua mãe, onde pintava quadros com Cristos tristes, ficava horas a fio diante da televisão. Ou seja, era, no fundo um espírito conservador e não entendia como influenciara pessoas como Allen Ginsberg (poeta)!

Considerado um rebelde existencial, quedou-se ao budismo mas foi sempre um inadaptado ao mundo em que vivemos.

Escreveu vários romances, como “O Subterrâneo”, Desolate Angels”, “The town and the city”, entre outros.

Se alguém estiver se perguntando o que a geração beatnik tem a ver com os dias de hoje, eu poderia responder, de pronto, que tudo que somos e fomos depois desta revolução, tem a ver com a abertura literária no campo das experiências, da pós modernidade, da noção de liberdade de pensamento e principalmente, tem a ver com a felicidade de fazermos parte de uma cadeia de pensadores e escritores que nos deixaram um legado inestimável.

Trechos de On The Road

Casualmente, uma gostosíssima garota do Colorado bateu aquele shake pra mim; ela era toda sorrisos também; eu me senti gratificado, aquilo me refez dos excessos da noite passada. Disse a mim mesmo: Uau! Denver deve ser ótima. Retornei à estrada calorenta e zarpei num carro novo em folha, dirigido por um jovem executivo de Denver, um cara de uns trinta e cinco anos. Ele ia a cento e vinte por hora. Eu formigava inteiro; contava os minutos e subtraía os quilômetros. Bem em frente, por trás dos trigais esvoaçantes, que reluziam sob as neves distantes do Estes, eu finalmente veria Denver. Imaginei-me num bar qualquer da cidade, naquela noite, com a turma inteira; aos olhos deles, eu pareceria misterioso e maltrapilho, como um profeta que cruzasse a terra inteira para trazer a palavra enigmática, e a única palavra que eu teria a dizer era: “Uau!”…

ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE

BANHEIRO1

CORRENTE AMPLIADA por harry laus / florianópolis

Num bar de esquina da Barata Ribeiro com a Siqueira Campos, eu tomava um cafezinho antes de ir para o Ministério da Guerra, onde o expediente da Diretoria de Armamento começava às 11 horas. De Juiz de Fora à Vila Militar, da Vila ao Ministério, agora podia dormir tarde, acordar sem o alarde do despertador.

Foi nesse bar que encontrei Walter Wendhausen, catarinense, meu conhecido das noites de Copacabana. Apresentou-me seu companheiro de apartamento, Luís Canabrava, contista premiado em São Paulo com o livro Sangue de Rosaura. Morava no 418 da Barata, eu no 435 do outro lado da rua. Bastaria o fato de trabalharem em publicidade (na Sears, depois na Mesbla) para nos unir. Meu fascínio pela propaganda vinha de longe, quando mandei o layout de um anúncio para uma agência de Porto Alegre e nunca soube o resultado. Mas havia outros elos: ambos desenhistas e pintores. Walter conhecedor da música popular, guardando seus preciosos discos numa velha geladeira pintada de verde-oliva.

No 418 morava também o contista Renard Perez, irmão do gravador Rossini Perez, e o ator Jason Cesar. No apartamento junto ao meu, o jornalista Antônio Pinto de Medeiros, conhecido de Natal, redator deO Jornal. Sálvio de Oliveira, em frente ao meu prédio, completava este simpático quadro de vizinhança, onde não faltavam gostosas confabulações sobre arte, literatura e teatro, algumas vezes acompanhadas pelo brilho verbal de Jayme Maurício ou a irreverência de Sansão Castello Branco.

Sansão aparecia sempre de improviso, sandálias nordestinas, uma pasta com desenhos, projetos de decoração, o caderno de capa preta com os telefones “de todo o Rio de Janeiro”. De calça cinza, larga camisa preta, levou-me um dia a um velho edifício da rua Barão de Ipanema:

– Eneida, este é o Laus, oficial do exército, também contista.

Eneida, outra pessoa-chave de minha vida, uma das mais importantes como ser humano autêntico. De uma vivacidade sem limites, tinha seu caderno com os telefones também “de todo o Rio”. Jornalistas, críticos de arte, compositores, cantores, conhecia a todos, por todos conhecida como cronista do Diário de Notícias, responsável pelo Baile do Pierrots, lançadora das tardes de autógrafos na Livraria São José de Carlos Ribeiro.

Numa livraria ou galeria de arte, na entrada dos teatros ou no bar Vermelhinho, chegava com o ruído das pulseiras e colares de prata, os ativos olhos verdes saltando de uma pessoa a outra, beijos, abraços, um dito gostoso, uma palavra de humor. Mulher excepcional, amiga incondicional de seus amigos, defendia-os mesmo no erro:

– Sei que você não está certo, seu porcaria, mas afinal somos ou não somos amigos?

Impossível relacionar todas as pessoas conhecidas através de Eneida. Algumas, pura apresentação; outras, convivência rápida, sem consequência; mas também muitas de sólida ligação. Na literatura, Jorge Amado, James Amado, Aníbal Machado, José Condé, Valdemar Cavalcanti, o coronel M. Cavalcanti Proença, além de Antônio Bandeira, Ana Letícia, Rossini Perez, nas artes plásticas. Figura obrigatória nos Bailes do Pierrots, Elizeth Cardoso cantava sem se fazer de rogada nos grandes almoços de sábado, em casa de escritores e artistas.

Jayme Maurício, como bom gaúcho, aparecia no 435 com uma garrafa de vinho. Um dia, em 1954, trouxe Mário Faustino, o poeta, o maior poeta com quem convivi, poeta desde o amanhecer até a noite. Antes de dormir, para o descobrimento de novas palavras, ia avançando sua busca nas páginas do Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. Conversação instigante, agressiva, fulgurante, não concedia aos outros o que não concedia a si próprio: comodismo e improviso na criação artística.

Quando Mário voltou de Belém do Pará, onde morava, para trabalhar na Fundação Getúlio Vargas, ficou hospedado dois meses comigo. Esse período permitiu-me conhecer e avaliar sua inteligência, a cultura profunda. A presença do poeta trazia uma grande carga de emulação. Insistia para que se trabalhasse, lia sem cessar e, de vez em quando, interrompia a leitura para mostrar uma descoberta, fosse um poema inteiro, um verso ou uma simples palavra.

Tudo isso reforçou em mim uma convicção posta em letra de forma numa entrevista que concedi a um jornal de Belém, onde estive com Eneida e Renard Perez em 1956:

– Escrever pra mim, corresponde a uma necessida de interior que posso, quando muito, adiar; impedir é impossível.

Mas, em 1956, ia perder o amigo (Sansão) que me chegou sob a forma envolvente e mágica de um balé.

.

(Capítulo I, texto 5, do livro De-Como-Ser – Memórias de Harry Laus, 1978)

SARA VANEGAS e poesia / ecuador

mar: un cuchillo de sal me atraviesa el pecho y las palabras

—-

las voces llegan a borbotones. como el oleaje a las naves sumergidas de la catedral eterna. voces que ascienden al coro y las cúpulas. como alas o lluvia mansa

tras los vitrales encendidos: peces arrodillados y tu sonrisa

dormida

—-

alguien dibuja en la arena el recuerdo de un nombre

y se arroja a la mar

.

—-

alguien me dice que es la luz azulada de la luna. y yo vuelvo a confundirla con un río submarino. nunca conoceré el origen del agua. me pregunto si el mar devorará sus propias lunas …

—————

la luna y sus manantiales. el mar henchido de campanas. aquí: castillos de espuma y sal. para tus ojos solos