EU e os GREGOS por joão batista do lago / são luis.ma

A senhora pergunta, sob o meu ponto de vista “(caso a vida continuasse após a morte do corpo)”, que destino eu daria:

1) Ao Sócrates Histórico?;
2) Ao Sócrates de Xenofonte?;
3) Ao Sócrates de Platão?;
4) Ao Sócrates de Aristóteles?

“- Não lhes daria nenhum destino.”

Mas esta resposta é por demais simplória, e não abarca, ou seja, não contempla a excelsa sabedoria introjetada em vosso argumento (segundo minha visão). No seu parêntesis estão contidos já três temas fenomênicos fundamentais JOÃO BATISTA 002para a história do pensamento, para a filosofia e para a história da formação do humano, assim como das espécies: Vida, Morte e Corpo.

“EU”, não acredito na morte, do que quer que seja. Mas, ao inferir este brocardo, ocorre-me um fluir paradoxal, isto é, sou, pelo senso comum, assim como pelo senso intelectual, dos quais sou construído, condicionado a pensar no contrário da “Morte”, ou seja, na “Vida”. E, ao pensar na Vida, ocorre-me um novo paradoxo: o Corpo. Eis, aqui, um “João Poeta” totalmente agrilhoado. Preso ao “MEU” desconhecimento, à “MINHA” não-sabedoria.
Mas, como sou anti-humano, por demais anti-humano, e penso, anti-humano “despertado” e “desperto”; inquietado com a “MINHA” ignorância, e ansioso para alcançar a “MINHA” Sabedoria, não canso em buscar aprender, e apreender, sobre essas questões metafísicas, uma razão racional tendo como laboratório de análise, estudo e pesquisa o meu próprio “EU”. E, em razão disso, questiono-me, desde que me considerei desperto, respostas para fenômenos como esses que a senhora se me remete.

Para justificar a minha não-crença na Morte, tomo, por empréstimo, o pensamento de Arthur Schopenhauer (1788-1860), pensamento que também foi emprestado por Friedrich Nietzsche (1844-1900): tudo que sabemos do mundo é puro fenômeno, ou seja, aparência, ilusão, fantasia; qualquer objeto de conhecimento é sempre condicionado ou, melhor, “DETERMINADO”, pelos esquemas radicados na mente do sujeito cognoscitivo: o espaço, o tempo, a relação de causa e efeito…; Isso significa que é sempre e essencialmente uma construção mental, uma representação…; Todas as nossas convicções são subjetivas, pois, não existe objetividade, nem mesmo no campo científico, e o mundo inteiro no seu conjunto, mesmo que nos pareça estável, real e independente de nós, é somente uma totalidade de representações mentais pessoais.

(*****)

Portanto, minha prezadíssima filósofa, penso que a Morte, assim como a Vida, são representações mentais. Assim sendo, “EU”, não tenho como “destinar” nenhum dos “Sócrates” para “destino” quaisquer. O “destino” não passa de representação individual da mente do humano. Mas é interessante perceber-se, no interior da sua questão, a existência desse fenômeno: o corpo.

Qual daqueles “Sócrates” (inclusive o de Alighieri, como refere a senhora) tem um Corpo? E o que é Corpo? E na possibilidade da existência de um Corpo, de que matéria são compostos esses corpos? Como e de que forma se pode ter consciência sobre a existência de Corpo naqueles “Sócrates”? Qual matéria constitui o corpo do “Sócrates de (…)”, que “com certeza perambularia por toda a eternidade através do planeta, conhecendo povos e épocas diferentes?”

(*****)

E agora invertamos os papéis: e se a esta nossa existência, deste aqui e agora, chamássemos Morte, e depois do desaparecimento do corpo a concebêssemos como Vida? Porventura não continuariam sendo apenas representações fenomênicas, isto é, representação mental individual de cada humano?

(*****)

E quanto ao corpo, vejamos o que diz Schopenhauer: que cada um é capaz de conhecer apenas “UM” objeto, somente “UM” no universo inteiro, em toda a sua objetivação e realidade efetiva. Esse objeto é o “NOSSO” corpo. Porventura não é a única “coisa” fenomênica que realmente percebemos, ou seja, que não percebemos por meio dos sentidos?
Ser; Ser-si; Sentir-se um corpo vivente é, para “NÓS”, o único conhecimento númeno possível, isto é, verdadeiro, essencial, objetivo, não fenomênico.

(*****)

Contudo, além de todas essas razões que apontei aqui e agora, lógico, partindo do pensamento de Schopenhauer, no qual acredito e, portanto, tomo-o como a “MINHA” verdade fenomênica, há, ainda, em sua questão, um fenômeno que subjaz, que está envolto por uma obscuridade apolínea, mas que a contesto dentro de uma concepção dionisíaca: a existência da “alma” que perambula.

(*****)

Se, porventura, “EU” destinasse para algum lugar, quaisquer daqueles “Sócrates” [inclusive o Sócrates de Alighieri, assim como o Sócrates de (…)], “EU” estaria pressupondo a existência de um outro ser ou de uma outra entidade: a alma, o que, por inferência lógica, com base numa tipologia de intuicionismo ou, quando muito, estabelecida a partir de uma teoria empirista da metempsicose, teria uma forma, ou seja, acabaria, de alguma maneira, prefigurando a existência de um corpo que “com certeza perambularia por toda a eternidade através do planeta, conhecendo povos e épocas diferentes”, como acredita a filósofa (…).

(*****)

Permita-me, filósofa (…), discordar do vosso aforismo filosófico, mas se porventura entendi errado o vosso pensamento, conceda-me, por gentileza, o dom da vossa correção. De minha parte não acredito na existência de uma alma que vaga mundo afora “conhecendo povos e épocas diferentes”, transmigrando de um corpo para outro após a morte, para novamente se instalar num novo “parto”, ou pairando em algum limbo, que “soi-disant” em humanos adormecidos pela estética do apolíneo. Isto, entretanto, não significa dizer que “EU” esteja com a verdade ou que tenha razão sobre este fenômeno. E, com certeza, provavelmente não estou com a verdade ou com a razão sobre este fenômeno. A verdade e a razão também não passam de representações mentais da mente pessoal.

(*****)

Por sua vez, Dante Alighieri, que não faz parte da história e do pensamento da Filosofia, a não ser sob o aspecto literário, nos remete para o “limbo”, um espaço metafísico ou um provável lugar onde “almas que não puderam escolher a Cristo”, pelo batismo, continuam a experienciar suas vidas após a morte. Devo admitir que esta é um das mais belas criações da literatura universal, e que se junta à “Odisséia” e à “Ilíada”, de Homero, assim como ao “Erga”, de Hesíodo. Não é a-toa que ‘o’ “Dante” da “Divina Comédia” encontra-se no Limbo com ‘o’ “Homero” da mesma obra dantesca, construída em três partes: Inferno, Purgatório e Paraíso.

Não seria isso tudo, pois, a representação mental fenomênica de Alighieri? E o que são o Inferno, o Purgatório e o Paraíso se não representações mentais fenomênicas? Podemos assinalar que Alighieri, nesta obra, em que pese toda a sua beleza, a sua plasticidade, a sua estética enfim, é um “ser adormecido”? Porventura a sua obra não foi criada para “(contentar em parte a igreja)”, conforme assinalou a senhora ao criar o tópico em debate?

(*****)

Veja, cara filósofa, o quanto de importância, beleza e profundidade têm o vosso questionamento. E o que se disse até aqui não é sequer um grão de areia nessa imensidão de conhecimento e sabedoria. Talvez não seja nada mesmo! Quem sabe!? Mas o fato é que estamos todos – todos mesmo – imbricados nessa avalancha monolítica do desconhecimento da origem das espécies, assim como do universo, apesar das teorias científicas modernas que nos alentam de conhecimentos racionais e científicos… E ainda sequer falamos de quaisquer dos “Sócrates”: o Histórico, o de Xenofonte, o de Platão e o de Aristóteles.

(*****)

Penso que o maior problema do debate sobre Sócrates reside, fundamentalmente, na dissonância discursiva dos principais discípulos, sobretudo quando falamos do “Sócrates” de Platão ou do “Sócrates” de Xenofonte, ou de ambos simultaneamente. E pior ainda, quando associamos a esses dois o Sócrates Histórico.

(***)

Mas para que possamos falar em (e de) Sócrates é indispensável que lembremos de um autor “maldito”, mas que me é caro e atraente, mesmo que dele discorde em muitas coisas: Friedrich Nietzsche. Sem este autor, quer gostemos ou não do seu pensamento, é quase que impossível, nos dias de hoje, estudarmos a socrática. Senão vejamos: foi a partir do instante em que N. desligara-se do Cristianismo, a partir do instante em que proclamara o advento do super-homem, que Sócrates teve de dar contas do ilimitado poder que desde o início da Idade Moderna exercera, como protótipo da “anima naturaliter christiana”. Somente para se ter como alocução sobre o poder de Sócrates, na Idade Média, veja-se o que o grande humanista da época da Reforma, Erasmo de Roterdam, sentia a respeito do helenista, chegando, inclusive, a incluí-lo entre os seus santos. E orava: “Sancte Socrates, ora pro nobis!”.

Isso, de certa maneira, atravessou os séculos, até que, na tendência anti-socrática de N. renascia, sob nova forma, o velho ódio do humanismo erasmiano contra o humanismo conceptual dos escolásticos. Para N., não era Aristóteles o “Príncipe” da Escolástica, mas o próprio Sócrates era “a autêntica personificação daquela petrificação intelectualista da filosofia escolástica, que durante meio milênio manietava o espírito europeu e cujos últimos rebentos o discípulo de Schopenhauer julgava descortinar nos sistemas teologizantes do chamado idealismo alemão” (Werner Jaeger) [Já na primeira obra de N., Die Geburt der Tragödie aus dem Geist der Musik, manifesta-se o ódio contra Sócrates, convertido pelo autor pura e simplesmente em símbolo de toda a “razão e ciência”. Nesta obra, N. tomava uma decisão interior entre o espírito racional da socrática e a concepção trágica do mundo dos Gregos. Esta mesma formulação do problema só se poderá compreender se o situarmos nos estudos sobre o helenismo que preenchem toda a vida de Nietzsche. Cf. E. SRANGER].

(*****)

Minha Mestra, permita-me fazer, por enquanto, um corte a este meu comentário, que, agora percebo, já se alongou, mas que está distante de sua conclusão.

Uma resposta

  1. Um texto magnífico que nos faz reflectir e criar alento para conseguir responder, concordando ou contestando.
    Como sempre, o filósofo que é o João Batista dá-nos aqui uma verdadeira lição sobre as complexidades da vida e da morte. Onde está a racionalidade duma e doutra? Onde está a nossa racionalidade como seres vivos, ou já mortos, se não interpretarmos a morte, unicamente, como o encerrar duma etapa e o acabamento inglório da matéria que constitui o corpo?
    Somos todos tão iguais, mas igualmente tão diferentes, que também é difícil de aceitar que sábios, heróis, poetas, santos, criminosos, loucos, etc., acabem todos da mesma maneira, sem que haja alguma coisa que marque a diferença. Ou essa diferença se resume,apenas na imortalidade duns, cujo nome atravessa os tempos e as gerações e dos outros que caem no esquecimento imediato?
    Mais uma vez os meus parabéns ao poeta e filósofo João Batista do Lago.

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