UM JORNALISTA DE VISÃO por hamilton alves

Só conheci Assis Chateaubriand, que mantinha uma rede de jornais e emissoras de rádio, por longo anos, pontificando entre os primeiros “O Jornal”, que era, para seu tempo, algo que representava um avanço além dos marcos já conquistados pela imprensa do país e até, por que não dizer?, mundial, pelo nome e por via de fotos. Era um velhote baixote, muito simpático – e mais que tudo isso velha raposa do jornalismo tupiniquim. Conheceram-no os grandes jornalistas brasileiros que com ele conviveram e lhe conheceram certamente as pequenezas e grandezas características de todo o ser humano.

Refiro-me a Chateaubriand para lembrar o senso jornalístico que possuía. Ou a forma de conquistar leitores quando as coisas lhe pareciam não ir bem, o que falta nos proprietários de muitos de nossos jornais de hoje, que se contentam com o rebotalho de que dispõe (não vou citar nomes).

Houve, por exemplo, um momento em que “O Jornal” passou por uma crise de anunciantes e até mesmo de boiar nas bancas de meter medo e assustar Chatô (como era chamado pelos mais íntimos).

O que é que fez?

Usou a cabeça ou a imaginação, que lhe serviram de bússola a vida toda.

Convocou à redação Nelson Rodrigues, que, por essa época, pontificava em algumas colunas de jornais menos badalados e menos importantes, mas com público fiel que o lia.

O que lhe propôs Chatô para atrair leitores e ganhar anúncios? Simplesmente lhe disse:

– Nelson, você vai inaugurar no jornal uma história em folhetim. Cada dia publica-se um novo capítulo.

Nelson não deve ter achado difícil cumprir a missão que lhe foi confiada. Até porque era uma coisa que sabia fazer como poucos: inventar histórias, as mais dramáticas e rocambolescas, como eram, tempos depois, as crônicas que escrevia, na “Zero Hora”, de Samuel Wainer, na última página, no rodapé, que hoje foram transformadas em livro por iniciativa de seu grande admirador, Ruy Castro, que conta no prefácio (A vida como ela é) que sua mãe as lia para ele, que ouvia entre deslumbrado e embevecido.

Chatô acertou em cheio com a convocação de Nelson para iniciar esse folhetim, que assinava com o pseudônimo de Suzana Flag, que acabou noutro de seus grandes romances, lançado pela Companhia das Letras, prefaciado também por Ruy, com o título de “Núpcias de Fogo”.

Estamos assistindo à decadência de alguns de nossos jornais (notoriamente os que ainda mantêm algum prestígio e boa circulação, mas que dão sinais evidentes de descompasso com os novos tempos, com a concorrência forte do computador, com a formação de blogs) e pergunto se os donos desses jornais têm alguma receita pronta para reagir aos solavancos eventuais de falta de leitores e anunciantes?

Ou pretendem manter as coisas dentro do atual padrão? Vale lembrar a lição de Chatô.

3 Respostas

  1. Tom, misturei um pouco “sua” com “tua” e “você”. Fiz uma mistura do diabo. Perdoa-me. hamilton

  2. Caríssimo amigo Tom,

    Você precisa voltar `à crônica e a outros gêneros literários de que você é um dos nossos cobras. Como tu também tenho certo horror aos rigores gramaticais, que tantas vezes empobrecem a comunicação com o leitor e o próprio texto. Admiro a forma como te expressas, livre e saborosa. Agradeeço muitíssimo suas generosas palavras. Abraço. Hamilton

  3. Meu Caro Hamilton,

    O escorreito seria iniciar minha intervenção com “__ Apraz-me ler…”, mas que vá às favas a Gramática, assim como a ditadura dela, com suas muitas taramelas, vou começar errado mesmo…

    Me apraz ler você, Hamilton, e observar que tempos mais atrás havia mais sabedoria do que os tempos de hoje, onde proliferam as fofocas políticas, a canalhice desenfreada dos defensores maniqueístas da dúvida permanente: “estou dentro ou fora da negociata, ou da adesão?”. Os jornais perderam muito a função de informar em primeira mão ou de acompanhar situações sociais; ou ainda as catástrofes, com muito zelo, conseguindo ser parceiro na dor e na solução dos graves problemas da sociedade. Também se olvidaram de ser o companheiro detetive na reportagem. Isto parece que vai morrendo. A Internet está sepultando os procedimentos mais usuais dos jornais, razão da criação da maioria deles.

    Você tem razão quando diz que Chatô… (adoro quando você, na sua sabedoria resistente vai nos revelando o melhor da nossa cultura e passagens brilhantes dos destaques da nossa gente) ousou ao colocar o Nelson Rodrigues como novelista diário do jornal. As colunas dos jornais hoje teriam este papel. No entanto, salvo poucos articulistas, a linguagem e a arte da escrita não são tão valorizadas ou não abordam temas do interesse geral da população. Neste mister Rubem Braga foi inigualável. Mais uma vez destaco a capacidade de comunicação do Rubem, quando cobriu a Campanha da FEB na Itália, na 2ª Guerra Mundial. Rubem a todo instante revelava a identidade dos pracinhas e dos seus superiores, com frases assim __ João de Artimatéia, paraibano, morador de Realengo, no Rio de Janeiro, me revela que um fuzil é capaz de dar um tiro a cada cinco segundos…” e vai por aí. Ou então – “Carlos Schultz, de Pomerode – SC, com seus olhos muito azuis nos diz…”

    E assim Rubem ia mostrando aos leitores, em especial aos parentes, que José ou Carlos estavam vivos. E assim mantinha todo aquele que tinha parente na guerra na Itália atento ao jornal. Pessoas que compravam o jornal, em todos os rincões do Brasil, para ver se Rubem citava ou dava alguma notícia de um parente envolvido com a guerra quilômetros e quilômetros longe daqui. Rubem, assim como Nelson, foram dois grandes da nossa literatura, com certeza.

    Pois bem, na década de 80 pretendi ser para o Estado do Paraná este cronista que mantém a atenção dos leitores, com sabor de quero mais, como dizem hoje. Mas o dono do jornal, que jamais vi, nem tampouco o seu redator chefe, dado que era apenas um correspondente hebdomadário e não jornalista do quadro, não acharam importante esta minha manifestação cultural, jornalística e social. Retornei às hostes arquitetônicas, desprendendo-me do afã e sofrimento diário de redigir uma crônica.

    Agora, Hamilton, quando você com suas penas em perfeita caligrafia nos devolve estas histórias maravilhosas dos personagens da nossa literatura, me incita a escrever e eu, muito desajuizadamente, escrevo um comentário que é maior do que o texto original.

    Perdão amigo, isto ocorre por pura admiração a sua pena.

    Um Grande Abraço.
    Tonicato Miranda
    (pra você simplesmente Tom).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: