MÚSICA, MAESTRO! por jorge lescano / são paulo

– Para esses ouvintes a arte deve se parecer com um bom jantar ou um par de sapatos macios!

Ao Maestro parecia-lhe que a educação musical havia chegado a um ponto no qual era possível ouvir as estruturas à par da melodia, do ritmo. Pensava em termos de som e pausas expressivas. Os ouvintes do Café Concerto precisavam de música de fundo para não ouvir suas próprias palavras, e de melodias que se gravassem na memória para reproduzi-las, ou convites à dança.

– A isto chamam de utilidade, justificação social da arte! Eu chamo de ganha-pão!

Alguma vez pensou num concerto só de cadenzas, uma para cada instrumento. Assim a orquestra permaneceria como estrutura, porém, sua função seria outra, destacando as qualidades de todos os sons sem se misturarem:

– O ouvinte vinculará esses elos dentro do seu tempo de escuta. Uma composição que utilize a descontinuidade do tempo através de instrumentos musicais e temas sonoros diversos, unidos, no entanto, pela estrutura da orquestra e a continuidade da audição.

Lamentava não poder discutir estes assuntos com seus companheiros do Café. Todos estavam preocupados com o artesanato da música, a reprodução exata das notas do pentagrama. Todos eram partidários da melodia bem feita:

– Apenas o trivial variado, não variado demais se se quer trivial. Mas eu entendo; é preciso sobreviver!

Às vezes se abandonava aos impulsos de mudança, de rupturas:

– Não respeitar as formas estabelecidas pelo romantismo, e ainda estamos nisso, é o único modo de ser autenticamente romântico! Pense nas Humoresques de Sibelius, nos Caprichos de Paganini, nos Noturnos de Chopin, mas sem o instrumentista virtuose. Houve um caso de flautista virtuose. Seu maior sucesso era o Moto Perpétuo. Fez carreira até que se soube que era gago. O interesse do público esfriou e ele acabou como faquir, pobre, em sânscrito. É uma piada, naturalmente, mas ilustrativa. Compreende o que quero dizer? Na situação em que foi colocado, o público só aprecia fenômenos, e o artista, em tanto que profissional, só pode aspirar a ser um fenômeno. Tudo isso é puro romantismo. O indivíduo exótico contra a multidão comum, para agradá-la. Mas, como poderia ter dito Mozart: vida de artista não é uma valsa de Strauss. Nunca sentiu que o Bravo! Ouvido na sala de concertos é o Gol! das elites culturais? Eu sempre penso nos concursos de arte como um campeonato. Como se o amor, o ódio, a consciência e o medo da própria morte e a perplexidade ante a vida, pudessem ser avaliados com pontos, como uma redação escolar, e premiados numa competição! Arte é forma, diz você. Concordo, mas todo prêmio é por bom comportamento, e há de convir comigo que os sentimentos não respeitam convenções formais. Eu quero construir algo assim como haikus musicais. Fragmentos que são um todo. Sim, Webern, mas não é isso…

Coçava o queixo, impotente ante as limitações da palavra

– Cada instrumento criará seu próprio contexto, sic, confiando na perspicácia do ouvinte, e com ele se relacionando de forma sutil, no mesmo plano de criação. O músico provocando e o ouvinte, que é tão musical quanto ele, estimulando sua criatividade. Os dois no mesmo plano, unidos pelo som e este diversificado por cada instrumento.

Antecipava-se à jogada do outro:

– O jazz era isso! Hoje também tem partitura e autor e arranjador e direito autoral e empresas gravadoras e colecionadores e críticos e tratados enciclopédicos. A arte, como o esporte, é boa quando praticada. Chega de ver o rei passar! A música, meu amigo, deve ser vivida. Imagine um coro que cantasse em uníssono a mesma melodia, mas cada cantor cantando em língua diferente, segundo suas necessidades e convidando o público, vamos pôr aspas na palavra público, e convidando o público as participar ativamente, juntando sua voz e melodias ao tutti. Que festa!

O outro poderia ter avançado seu Ives, ou atacado com a música para não ser ouvida de Satie, para não apelar com John Cage, a música aleatória e tutti quanti:

– Sim, sim! Isso já foi feito, ouviu Deus que lhe diziam…

Segundo o Maestro, o Concerto é um gênero romântico: o mocinho solista contra a orquestra de bandidos:

– Não importa se surgiu antes do romantismo. Estou falando de uma atitude, não de baboseiras escolares. É um gênero, como o nu, a natureza morta e o soneto. Agora abundam os Concertos num só movimento. Veja as sonatas de Béla Bartók, têm um ou dois movimentos, quer dizer, não são Sonatas. A Sinfonia Inacabada de Schubert não é uma Sinfonia porque não preenche os requisitos formais da Sinfonia. Você já leu algum Soneto de sete ou oito versos? Nem poderia! Eu já vi um Nu Corretamente Vestido, o que não está errado, se pensarmos que todos somos Adão sob a roupa; e outro nu intitulado Natureza Morta, mas o autor dos dois quadros era um poeta que propositadamente misturava as linguagens e confundia os gêneros para chegar a outra coisa. Meu amigo Rodrigo Barrientos, um pintor colombiano que atualmente reside em Paris, ameaçava pintar um Nu Esotérico. Nunca soube como seria, provavelmente estava tão oculto que nem ele sabia como era. Quero dizer que vivemos presos às palavras; chamamos de inacabado algo que o autor não teve necessidade de continuar. No Masp há um retrato de Diego Rivera pintado por Modigliani. Aparentemente não está terminado porque aparecem trechos da tela que não foram preenchidos, mas está acabado. O pintor percebeu que não era necessário acrescentar nada. Fugiu da redundância parando onde o assunto se esgotou como pintura. A coisa muda e nós continuamos usando as mesmas definições, ou então acreditamos que mudando o nome mudamos a coisa. Para que chamar uma composição musical de Concerto ou Sonata, Suite ou Sinfonia? Para não falar do absurdo do Poema Sinfônico, como se a música precisasse da literatura! Talvez o contrário seja verdadeiro. O que importa é a música, não o rótulo. Eu quero desnudar a orquestra, por assim dizer, e mostrá-la ao vivo. Lembra de Pedro e o Lobo?, ampliar essa idéia musical, desafiar o ouvinte a unir os fragmentos e construir mentalmente sua própria composição. Falo de ouvintes, não de todos os que têm orelhas. Orelha não é documento! Ir além da sensualidade do som, reorganizar o tempo de escuta. Imagino uma composição como um quebra-cabeça, um mosaico e um caleidoscópio de sons, onde a orquestra não seja o meio, o suporte de uma Sinfonia ou de um Concerto, mas apenas produtora de som, do qual o objeto será a própria orquestra. Quanta música na Sinfonia Inacabada! Bartók compôs um Concerto para Orquestra, e Barber um Ensaio para Orquestra, mas não é isso, ainda não é isso… Isto está parecendo um manifesto! É melhor deixar sempre algo por dizer, parar antes de chegar à idéia, essa Musa morta!

(do Livro de Marievar)

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