Arquivos Diários: 30 agosto, 2009

UTÓPICA INTUIÇÃO (v) de joão batista do lago / são luis.ma

Rasgo meu coração atormentado

Viscerado pelas madrugadas indormidas

Cálido dos calores humanos

Destruídos pelos hinos das insônias

Soçobradas dos cansaços vomitados pelas almas

.

Hoje à noite quero o sono mais profundo

Adormecer no colo da utopia que me segreda

Como a criança ‘inda não nascida

Como a esperança ‘inda que desesperada

De todas as vidas desaparecidas nos campos de guerras

.

Hoje à noite quero a eternidade de todas minhas paixões

Quedá-la no meu peito com profundidade

Qual punhal (!)

Estraçalhando meu coração em mil paixões

E desta visceral volúpia arrancar-me de dentro como antihumano

.

Quero, enfim, nesta noite sacrossanta

Batizar-me de todos meus desejos

Tomar o corpo da minha amada, minha Temis!

E deitá-lo no mais profundo dos meus gozos

E sabê-lo eterno no tempo da eternidade que me restara

ONDE ARTISTAS MORREM por hamilton alves / florianópolis

Não sei se acontece com todo mundo, mas comigo dá-se esse interesse por saber ou ter curiosidade por lugares (hotéis, cidades, ruas) onde grandes artistas morreram ou foram sepultados. Ou deixaram um registro qualquer. Ainda que não sejam os artistas escritores propriamente ditos, mas seus personagens.

Há pouco, soube, lendo um conto de Hemingway, que Verlaine morreu num hotel modesto perto da rue Mouffetard, uma rua sempre atravancada como conta Hemingway. Mais recentemente, lendo uma crônica de Rubem Braga, ao acaso, para fazer outro tipo de consulta (saber se em alguma crônica teve a infelicidade de usar a palavra “todavia” – (discuti com um amigo sobre a questão de que essa palavra não soa bem numa crônica; em outro qualquer lugar, sim, poderá ser muito própria, por exemplo, num ofício de um excelentíssimo senhor para um outro excelentíssimo senhor) – lendo uma crônica do Braga, li que Proust morreu na rua Hamelin, próximo de onde morou quando passou curta temporada em Paris.

Sei que Odete de Crécy, personagem de “Em busca do tempo perdido”, de Proust, morou numa rua atrás do Arco do Triunfo, na rue La Pérouse (com um restaurante com esse mesmo nome). Um dia irei lá, nem que seja na forma de espectro.

Sei que Joyce foi sepultado no cemitério Fluntern, em Zurique, Suíça.

Tenho esses dados espalhados (ou anotados) em livros.

Kafka foi enterrado, em Praga, sua cidade natal.  Augusto Frederico Schmidt, o poeta, com quem, em certa época, andei trocando algumas cartas, esteve lá para conhecer esse local. Procurou colher informação com um e outro. Nada ficou  sabendo. O mesmo acontecera com Carpeaux, que foi numa clínica onde Kafka se tratara de sua doença, que o matou. Só conheceu a clínica e o filho do médico que deve ter cuidado do escritor, mas nada mais além do local em que estivera cuidando de sua saúde, que descreve como sendo muito discreto. Até pode observar por uma janela envidraçada uma sala onde provavelmente estivera Kafka sob tratamento. Ou o quarto onde se hospedara.

Há curiosidade em torno dessas coisas, que, afinal, marcam a história de um artista, que há pessoas que têm interesse de saber.

Se for um dia a Paris, procurarei conhecer o hotel modesto, no dizer de Hemingway, em que morreu Verlaine ou a rua, na informação de Rubem Braga, em que morreu Proust.

Ou ainda, em Praga ou em Zurique, conhecer os locais onde estão sepultados Kafka e Joyce.

E nos respectivos túmulos depositar uma flor.

CONCHAS por omar de la roca / são paulo

Colei as mãos aos ouvidos como conchas.Como conchas que contam estórias e que as vezes prendemos em nossas orelhas.Conchas que contem água mas não a bebemos.Talvez por ser estranha ,salgada e não querermos.Coloquei as mãos a cintura,como quem espera.Como mãos que esperam a concha vir a elas,resvalando pela onda.Mas a concha cala e seca.Pus meus pés no chão,que no ar estavam.Como pinheiros altos querendo possuir o céu.No chão molhado escorrego,mas não caio .Me segurando nas franjas do papel.Pus minha mente nas estrelas.Que nublada estava a visão do chão.Me veio a sempre névoa rosada e me embalou,me toldando de novo a visão.Serei como um carvalho teimoso,que insiste em crescer na ribanceira?Ou oliveira a produzir frutos amargos? Que trago a curtir em mim para melhorar o gosto e servi-los ?Como conchas moídas a distribuir fortalezas,hidratadas,concisas,continuas certezas ?Pus meus olhos no horizonte.Como alguém que espera,que alguém pelo caminho venha.Que venha e tenha certeza do que quer e que seja eu o que quer,o que deseja.Para que eu então,finalmente seja.Como a luz que ilumina o caminho escuro.E que por ele também segue tateando.Como o fogo que aquece e consome,mas ao mesmo tempo se acaricia e estrebucha e morre.Como a água que a tudo leva e tudo lava.E tudo limpa e permanece limpa.Como a lava que tudo derrete.Como a frágil folha que tremula e cai.Como o galho fino que o vento quebra.Como quebra a onda nas pedras que a lava funde.E confunde o vento que muda de direção.E foge,foge para longe.Para outras terras que penteará sem dó.Levantando as asas dos pássaros.Ou como o fundo triste de pedras de algum riacho. Que se lava e se lava e continua sujo. Mas limpo,que apenas aos seus olhos esta poluído.E segue mexendo uma pedra aqui,outra ali,outra oscilando. Na água que tudo vê e que corre zombando.Correndo sem saber pra onde,pro mar pro oceano pra longe na certa.Se fundindo no sal,ao sol que a areia aperta.E a areia escolhe seus grãos,e a eles presenteia,com outro grão de sol,que colhe alheia.E os peixes prateados que voam lá no fundo lambiscando molusco,pólem  e planta,seguem firmes pensando,que triste esse mundo e,solitário ,pobre de quem canta.E as conchas gritam que não só feitas de branco não são só feitas de nada.E reclamam furiosas,quem irá sozinho percorrer o caminho?Eu que era prosa sem graça e agora penso em rimas, falsas, corretas,perfeitas quase cristalinas.E me empenho em ajeitar o injusto,ainda me espanto,me surpreendo com o susto.Que levo ao abrir o e mail.E encontrar a mensagem que não esperava,mas esperava.Por que sabia que não viria mas ansiava que viesse e veio. Entrando em minhas veias dilatando tudo, latejando feio. E quieto, cedo, agradecendo tudo e nada. Como poderia ser de outra forma , meu caminhar nesta estrada?

Rumorejando (Com a vitória de Rubinho Barrichello vibrando. Só por ele. Tal esporte continuo não apreciando. Esporte?) por juca (josé zokner) / curitiba

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I

O livro do meu grande amigo Valdir Izidoro Silveira, Escritos de Resistência – Quatro Décadas de Reflexão é leitura obrigatória para quem quer tomar conhecimento de nossa história e da luta do escritor em defesa das injustiças sociais. Rumorejandorespeitosamente recomenda.JUCA - Jzockner pequenissima (1)

Constatação II (De uma dúvida crucial).

Se a fórmula química da água é H2O, a fórmula do fogo é 1/H2O (Um sobre H2O) ?

Constatação III (De outra dúvida crucial).

A Progressão Aritmética decrescente é parente da Ordem e Progresso que consta na nossa bandeira, como os positivistas apregoaram?

Constatação IV

E a Progressão Geométrica é comadre da euclideana, analítica e da espacial?

Constatação V

A Pílula de Vida do Dr. Ross morreu?

Constatação VI

O médico mandou

Ela fazer uma dieta,

Mas ela se revoltou.

Ao invés de obedecer

Desbragadamente passou

A comer

O triplo da meta

Recomendada.

Finou.

Coitada!

Constatação VII (Quadrinha para ser recitada pelas mamães).

Vai dormir menino sapeca

Amanhã tem que ir à escola

E no recreio jogar bola

Pra não ser um Juca, digo, Jeca.

Constatação VIII

Não se pode confundir açulou que o dicionário Houaiss dá como 1 incitar (cão) para que morda, ataque ou se porte agressivamente (contra).

transitivo direto e bitransitivo

2 Derivação: por extensão de sentido.

provocar em (alguém) irritação, agastamento (contra); enfurecer, exasperar

Ex.: <ruídos muito agudos o açulam> <a. a torcida contra o time adversário> com azulou, que o mesmo dicionário diz, dentre outros3 Regionalismo: Brasil. Uso: informal.

pôr-se em fuga, retirar-se em debandada; fugir, escapar, até porque se um cão, açulado ou não vier em sua direção com ares indistintos e, se der no jeito, a melhor coisa é azular.

Constatação IX

“A tua prima escorregou

Quando me encontrou

E na bochecha me beijou”,

O marido explicou

Quando a mulher encontrou

Baton na sua gravata.

“Deixe-se de lorota!

Prefiro que você me conte

Alguma bravata.

Afinal, é inesgotável tua fonte

E a marca da bochecha não se nota.

Seu mentiroso,

Metido a talentoso

Seu descarado,

Seu safado!”

“Se eu não a tivesse segurado,

Ela teria se esborrachado

Na calçada”.

Coitada!*

Coitado!

*Não ficou devidamente esclarecido à qual das duas se refere o termo “coitada”. Tão logo Rumorejando tome conhecimento dará ciência aos seu prezados leitores.

Constatação X

O septuagenário não conseguia entender porque os atendentes esboçavam um sorriso – quando não, um riso – e iam falar com o gerente, pedindo esclarecimentos, quando ele estacionava no posto de gasolina e pedia: “Me encha o tanque com um hectolitro de gasolina comum”; quando no armazém pedia um decagrama de queijo e mais ou menos um decímetro de salame e um galão de manteiga. E, na casa de tecidos, 100 polegadas de determinado tecido. Coitado!

Constatação XI (Pseudo-soneto, da série Ah, o amor…).

Ternura

Olhos nos olhos e de mão dadas

O casal idoso senta na praça.

Será que ele diz piadas?

Ela ri. De alguma graça?

Súbito, ficam sérios

Se beijam como antigamente

Afinal, não há mistérios

Em se beijar de modo ardente.

Agora, ela apóia a cabeça no seu ombro.

E ele beija os seus brancos cabelos

Para quem passa, nenhum assombro.

Os vizinhos já estão habituados

Com essa sucessão de doces desvelos

Só os de fora ficam com olhos arregalados.

Constatação XII

Com a absolvição do ex-ministro e atual deputado federal Antonio Palocci pelo Supremo Tribunal Federal, deu na mídia: O ex-presidente da Caixa Econômica Federal Jorge Mattoso será o único a responder a ação penal por suspeita de participação na quebra do sigilo bancário e na divulgação dos dados do caseiro Francenildo dos Santos Costa”. Data vênia, como diriam nossos juristas, masRumorejando acha que o ex-presidente da Caixa quis fazer média, na época, com o então ministro Antonio Palocci. Ver a constatação seguinte.

Constatação XIII

Não se pode confundir costura com postura, até porque quando o garotão costura no trânsito, porque tem pressa em não ter nada a fazer, pondo em risco a sua vida e de outros, e porque assistiu a vitória do Rubinho na Fórmula I, está tendo uma postura digna de ser enquadrado como qualquer simples mortal, obviamente exceto deputados, senadores, ministros, juízes e desembargadores de um país de alhures.