Arquivos Diários: 1 setembro, 2009

MÚSICA BRASILEIRA por mário de andrade / rio de janeiro

Até há pouco a música artística brasileira viveu divorciada da nossa entidade racial. Isso tinha mesmo que suceder. A nação brasileira é anterior à nossa raça. A própria música popular da Monarquia não apresenta uma fusão satisfatória. Os elementos que a vinham formando se lembravam das bandas de além, muito puros ainda. Eram portugueses e africanos. Ainda não eram brasileiros não. Se numa ou noutra peça folclórica dos meados do século passado se delineiam os caracteres da música brasileira, é mesmo só com os derradeiros tempos do Império que eles principiam abundando. Era fatal: Os artistas duma raça indecisa se tornaram indecisos que nem ela.

O que importa é saber se a obra desses artistas deve ser contada como valor nacional. Acho incontestável que sim. Esta verificação até parece ociosa mas para o meio moderno brasileiro sei que não é.

Nós, modernos, manifestamos dois defeitos grandes: bastante ignorância e leviandade sistematizada. É comum entre nós a rasteira derrubando da jangada nacional não só as obras e autores passados como até os que atualmente empregam a temática brasileira numa orquestra européia ou no quarteto de cordas. Não é brasileiro, se fala.

É que os modernos, ciosos da curiosidade exterior em muitos dos documentos populares nossos, confundem o destino dessa coisa séria que é a Música Brasileira com o prazer deles, coisa diletante, individualista e sem importância nacional nenhuma. O que deveras eles gostam no brasileirismo que exigem a golpes duma crítica aparentemente defensora do patrimônio nacional, não é a expressão natural e necessária duma nacionalidade não, em vez é o exotismo, o jamais escutado em música artística, sensações fortes, vatapá, jacaré, vitória-régia.

Mas um elemento importante coincide com essa falsificação da entidade brasileira: opinião de europeu. O diletantismo que pede música só nossa está fortificado pelo que é bem nosso e consegue o aplauso estrangeiro. Ora por mais respeitoso que a gente seja da crítica européia carece de verificar duma vez por todas que o sucesso na Europa não tem importância nenhuma para a Música Brasileira. Aliás, a expansão do internacionalizado Carlos Gomes e a permanência além-mar dele prova que a Europa obedece a genialidade e a cultura.

Mas no caso de Vila-Lobos, por exemplo, é fácil enxergar o coeficiente guassú (1) com que o exotismo concorreu para o sucesso atual do artista. H. Prumières confessou isso francamente. Ninguém não imagine que estou diminuindo o valor de Vila-Lobos não. Pelo contrário: quero aumentá-lo. Mesmo antes da pseudo-música indígena de agora Vila-Lobos era um grande compositor. A grandeza dele, a não ser para uns poucos, sobretudo Artur Rubinstein e Vera Janacopulos, passava despercebida. Mas bastou que fizesse uma obra extravagando bem do continuado para conseguir o aplauso.

Ora por causa do sucesso dos Oito Batutas ou do choro de Romeu Silva, por causa do sucesso artístico mais individual que nacional de Vila-Lobos, só é brasileira a obra que seguir o passo deles? O valor normativo de sucessos assim é quase nulo. A Europa completada e organizada num estádio de civilização campeia elementos estranhos para se libertar de si mesma. Como a gente não tem grandeza social nenhuma que nos imponha ao Velho Mundo, nem filosófica que nem a Ásia, nem econômica que nem a América do Norte, o que a Europa tira da gente são elementos de exportação universal: exotismo divertido. Na música, mesmo os europeus que visitam a gente perseveram nessa procura do esquisito apimentado. Se escutam um batuque brabo muito que bem, estão gozando, porém se é modinha sem síncope ou certas efusões líricas dos tanguinhos de Marcelo Tupinambá, Isso é música italiana! – falam de cara enjoada. E os que são sabidos se metem criticando e aconselhando, o que é perigo vasto. Numa toada de acalanto, num aboio, desentocam a cada passo frases francesas, russas, escandinavas. Às vezes especificam que é Rossini, que é Boris. (2) Ora o quê que tem a Música Brasileira com isso! Se Milk parece com Milch, as palavras deixam de ser uma inglesa outra alemã? O que a gente pode mas é constatar que ambas vieram dum tronco só. Ninguém se lembra de atacar a italianidade de Rossini porque tal frase dele coincide com outra da ópera-cômica francesa.

Um dos conselhos europeus que tenho escutado bem é que a gente se quiser fazer música nacional tem que campear elementos entre os aborígenes, pois que somente estes são legitimamente brasileiros. Isto é uma puerilidade que inclui ignorância dos problemas sociológicos, étnicos psicológicos e estéticos. Uma arte nacional se faz com escolha discricionária e diletante de elementos: uma arte nacional já está feita na inconsciência do povo. O artista tem só que dar para os elementos já existentes uma transposição erudita que faça da música popular, música artística, isto é: imediatamente desinteressada. O homem da nação Brasil hoje está mais afastado do ameríndio do que do japonês, e do húngaro. O elemento ameríndio no populário brasileiro está psicologicamente assimilado e praticamente já quase nulo. Brasil é uma nação com normas sociais, elementos raciais e limites geográficos. O ameríndio não participa dessas coisas e mesmo parando em nossa terra continua ameríndio e não brasileiro. O que evidentemente não destrói nenhum dos nossos deveres com ele. Só mesmo depois de termos praticado os deveres globais que temos para com ele é que poderemos exigir dele a prática do dever brasileiro.

Se fosse nacional somente o que é ameríndio; também os italianos não poderiam empregar o órgão que é egípcio; o violino que é árabe; o cantochão que é greco-hebraico; a polifonia que é nórdica; a anglosaxonia flamenga e o diabo. Os franceses não poderiam usar a ópera que é italiana e muito menos a forma-de-sonata que é alemã. E como todos os povos da Europa são produto de migrações pré-históricas se conclui que não existe arte européia…

Com aplausos inventários e conselhos desses a gente não tem que se amolar. São eles fruto de ignorância ou de gosto pelo exótico. Nem aquele nem este não podem servir para critério de um julgamento normativo.

Por isto tudo, Música Brasileira deve significar toda música nacional quer tenha quer não tenha caráter étnico. Do Padre Maurício, I Salduni, Schumanniana – são músicas brasileiras. Toda opinião em contrário é perfeitamente covarde, antinacional, anticrítica.

E afirmando assim não faço mais que seguir um critério universal. As escolas étnicas em música são relativamente recentes. Ninguém não lembra de tirar do patrimônio itálico Gregório Magno, Marchetto, João Gabrieli ou Palestrina. São alemães J. S. Bach, Haendel e Mozart, três espíritos perfeitamente universais como formação e até como caráter de obra os dois últimos. A França então se apropria de Lulli, Gretry, Meyerbeer, Cesar Franck, Honnegger e até Gluck que nem franceses são. Na obra de José Maurício e mais fortemente na de Carlos Gomes, Levy, Glauco Velásquez, Miguez, a gente percebe um não-sei-quê indefinível, um ruim que não é ruim propriamente, é um ruim esquisito para me utilizar duma frase de Manuel Bandeira. Este não-sei-quê, vago, mas geral, é uma primeira fatalidade de raça badalando longe. Então, na lírica de Nepomuceno, Francisco Braga, Henrique Osvaldo, Barroso Neto e outros; já pode ser percebido um parentesco psicológico bem forte. Isto basta pra gente adquirir agora o critério legítimo de música nacional que deve ter uma nacionalidade evolutiva e livre.

Mas neste caso um artista brasileiro escrevendo agora em texto alemão sobre assunto chinês, música da tal chamada música universal, faz música brasileira e é músico brasileiro. Não é não, por mais sublime que seja. Não. A obra não é brasileira, como é antinacional. E socialmente o autor dela deixa de nos interessar. Digo mais: por valiosa que a obra seja, devemos repudiá-la, que nem faz a Rússia com Strawinsky e Kandinsky.

O período atual do Brasil, especialmente nas artes, é o de nacionalização. Estamos procurando conformar a produção humana do país com a realidade nacional. E é nessa ordem de idéias que se justifica o conceito de Primitivismo aplicado às orientações de agora. É um engano imaginar que o primitivismo brasileiro de hoje é estético. Ele é social. Um poeminho humorístico do Pau Brasil de Osvaldo de Andrade até é muito menos primitivista que um capítulo da Estética de Vida de Graça Aranha. Porque este capítulo está cheio de pregação interessada, cheio de idealismo ritual e deformatório, cheio de magia e de medo. O lirismo de Osvaldo de Andrade é uma brincadeira desabusada. A deformação empregada pelo paulista não ritualiza nada, só destrói pelo ridículo. Nas idéias que expõe não tem idealismo nenhum. Não tem magia. Não se confunde com a prática. É arte desinteressada.

Pois toda arte socialmente primitiva que nem a nossa é arte de circunstância. É interessada. Toda arte exclusivamente artística e desinteressada não tem cabimento numa fase primitiva, fase de construção. É intrinsecamente individualista. E os efeitos do individualismo artístico no geral são destrutivos. Ora numa fase primitivística, o indivíduo que não siga o ritmo dela é pedregulho na botina. Se a gente principia matutando sobre o valor intrínseco do pedregulho e o conceito filosófico de justiça, a pedra fica no sapato e a gente manqueja. “A pedra tem de ser jogada fora”. É uma injustiça feliz, uma injustiça justa, fruto de época.

O critério atual de Música Brasileira deve ser não filosófico, mas social. Deve ser um critério de combate. A força nova que voluntariamente se desperdiça por um motivo que só pode ser indecoroso (comodidade própria, covardia de pretensão) é uma força antinacional e falsificadora.

E arara. Por quê? Imaginemos com senso comum: Se um artista brasileiro sente em si a força do gênio, que nem Beethoven e Dante sentiram, está claro que deve fazer música nacional. Porquê como gênio saberá fatalmente encontrar os elementos essenciais da nacionalidade (Romeau, Weber, Wagner, Mussorgski). Terá, pois, um valor social enorme. Sem perder em nada o valor artístico porque não tem gênio por mais nacional (Rabelais, Goya, Whitman, Ocussai) que não seja do patrimônio nacional. E se o artista faz parte dos noventa e nove por cento dos artistas e reconhece que não é gênio, então é que deve mesmo de fazer arte nacional. Porque incorporando-se à escola italiana ou francesa será apenas mais um na fornada, ao passo que na escola iniciante será benemérito e necessário. Cesar Cui seria ignorado se não fosse o papel dele na formação da escola russa. Turina é de importância universal mirim. Na escola espanhola o nome dele é imprescindível. Todo artista brasileiro que no momento atual fizer arte brasileira é um ser eficiente com valor humano. O que fizer arte internacional ou estrangeira, se não for um gênio, é um inútil, um nulo. E é um reverendíssimo besta.

Assim: estabelecido o critério transcendente de Música Brasileira que faz a gente com a coragem dos íntegros adotar como nacionais a Missa em Si Bemol e Salvador Rosa, (3) temos de reconhecer que este critério é pelo menos ineficaz para julgar as obras dos atuais menores de quarenta anos. Isto é lógico. Porque se trata de estabelecer um critério geral transcendente se referindo à entidade evolutiva brasileira. Mas um critério assim é ineficaz para julgar qualquer momento histórico. Porque transcende dele. Isto, porque as tendências históricas é que dão a forma que as idéias normativas se revestem.

O critério de música brasileira para a atualidade deve de existir em relação à atualidade. A atualidade brasileira se aplica aferradamente a nacionalizar a nossa manifestação. Coisa que pode ser feita e está sendo sem nenhuma xenofobia nem imperialismo. O critério histórico atual da Música Brasileira é o da manifestação musical que sendo feita por brasileiro ou indivíduo nacionalizado, reflete as características musicais da raça.

E onde estas estão?

__ Na música popular.

(1) Todas estas afirmativa já foram escutadas por mim, de estranhos…fazendo  inventário do que é nosso (observação do próprio autor).

(2) guassú, parece que o autor quis dizer “guaçu” em língua tupi-guarani – açu (grande). Portanto, “coeficiente guassú – “coeficiente de grandeza” de Vila Lobos.

(3) todas marcações sublinhadas foram realizadas pelo próprio autor.

(com pequena adaptação do texto por Tonicato Miranda)

Quando um mendigo mendiga… de tonicato miranda / curitiba

TONICATO MIRANDA - Sophia e Catherine


para Sophia Loren e Catherine Deneuve

.

Se eu

lambesse com a língua curva

o parafuso mais recurvo de uma nave estelar

seria muito mais do que um boi estrelado

seria um quadrúpede intergaláctico e alado

Mas não,

sou touro do campo mesmo

lambendo chão, remoendo gramíneas

trespassando o corpo de porteira em porteiras

chifrando os horizontes e as segundas-feiras

Se eu

babasse a baba do ódio com o olho turvo

seria um demo de carranca na cara

meu frontispício assustando o espelho

a cara fugindo da imagem, qual coelho

Mas não,

tenho a cara santa e limpa

sorriso suave, noves fora da maldade

e até dizem tenho um rosto suave

que até confiança produz à pequena ave

Se eu

fosse um jacaré com dentes pontiagudos

ansiando o estômago por carne dilacerada

de frango, de galinhas e suas ninhadas

penas apenadas seriam na boca trituradas

Qual o quê…

sou quase vegetariano e verde

meus dentes e as bocas do meu olhar

miram mais os peixes e os frutos do mar

uma dúzia de camarões já me serve um manjar

Se eu

fosse um rude de queixo duro

gestos imprecisos, mãos e pés calejados

monossílabos frios e curtos no canto da boca

teria a voz sem cantares e arte, totalmente rouca

Qual o quê…

meu canto também é rouco

a voz, do princípio ao fim de um louco

apenas ressoa o muito brilho de um cântico

porque sou irremediavelmente romântico

Se eu

fosse o pergaminho de uma era

teria apenas poucos versos impressos

um poema de pedra e tons de verdes

na umidade da gaveta criando musgos mais verdes

Mas pra quê?

ninguém se interessa por poemas e poesias

nem por bois voadores e jacarés comedores de galinhas

muito menos por musgos e liquens

o mundo continua atrás dos verdes e seus níqueis

Se eu

fosse um mago da palavra

que um gesto da vara e no abracadabra

pudesse mudar o olhar da atriz

fa-la-ía mirar-me na platéia, deixando-me por um triz

Mas pra quê?

se a personagem e os atores da peça

somente à atriz seu olhar interessa

não vê que este pobre ser pedalador de bicicleta

não é homem, boi ou musgo, apenas um mendigo poeta

DIDI (RENATO ARAGÃO) recebe carta-desabafo de ELIANE SINHASIQUE / rio branco

Há alguns meses você vem me escrevendo pedindo uma doação mensal para enfrentar alguns problemas que comprometem o presente e o futuro de muitas crianças brasileiras. Eu não respondi aos seus apelos (apesar de ter gostado do lápis e das etiquetas com meu nome para colar nas correspondências).

Eliane Sinhasique

Eliane Sinhasique

Achei que as cartas não deveriam sem endereçadas à mim. Agora, novamente, você me escreve preocupado por eu não ter atendido as suas solicitações. Diante de sua insistência, me senti na obrigação de parar tudo e te escrever uma resposta.

Não foi por “algum” motivo que não fiz a doação em dinheiro solicitada por você. São vários os motivos que me levam a não participar de sua campanha altruísta (se eu quisesse poderia escrever umas dez páginas sobre esses motivos). Você diz, em sua última carta, que enquanto eu a estivesse lendo, uma criança estaria perdendo a chance de se desenvolver e aprender pela falta de investimentos em sua formação.

Didi, não tente me fazer sentir culpada. Essa jogada publicitária eu conheço muito bem. Esse tipo de texto apelativo pode funcionar com muitas pessoas mas, comigo não. Eu não sou ministra da educação, não ordeno as despesas das escolas e nem posso obrigar o filho do vizinho a freqüentar as salas de aula. A minha parte eu já venho fazendo desde os 11 anos quando comecei a trabalhar na roça para ajudar meus pais no sustento da família. Trabalhei muito e, te garanto, trabalho não mata ninguém. Estudei na escola da zona rural, fiz supletivo, estudei à distância e muito antes de ser jornalista e publicitária eu já era uma micro empresária.

Didi, talvez você não tenha noção do quanto o Governo Federal tira do nosso suor para manter a saúde, a educação, a segurança e tudo o mais que o povo brasileiro precisa. Os impostos são muito altos !
Sem falar dos impostos embutidos em cada alimento, em cada produto que preciso comprar para minha família.

Eu já pago pela educação duas vezes: pago pela educação na escola pública, através dos impostos, e na escola particular, mensalmente, porque a escola pública não atende com o ensino de qualidade que, acredito, meus dois filhos merecem. Não acho louvável recorrer à sociedade para resolver um problema que nem deveria existir pelo volume de dinheiro arrecadado em nome da educação e de tantos outros problemas sociais. O que está acontecendo, meu caro Didi, é que os administradores, dessa dinheirama toda, não tem a educação como prioridade. O dinheiro está saindo pelo ralo, estão jogando fora, ou aplicando muito mal.

Para você ter uma idéia, na minha cidade, a alimentação de um presidiário custa para os cofres públicos R$ 3,82 (três reais e oitenta e dois centavos) enquanto que a merenda de uma criança na escola pública custa R$ 0,20 (vinte centavos)! O governo precisa rever suas prioridades, você não concorda?

Você diz em sua carta que não dá para aceitar que um brasileiro se torne adulto sem compreender um texto simples ou conseguir fazer uma conta de matemática. Concordo com você. É por isso que sua carta não deveria ser endereçada à minha pessoa. Deveria se endereçada ao Presidente da República.

Ele é “o cara”. Ele tem a chave do cofre. Eu e mais milhares de pessoas só colocamos o dinheiro lá para que ele faça o que for necessário para melhorar a qualidade de vida das pessoas.

No último parágrafo da sua carta, mais uma vez, você joga a responsabilidade para cima de mim dizendo que as crianças precisam da “minha” doação, que a “minha” doação faz toda a diferença. Lamento discordar de você Didi. Com o valor da doação mínima, de R$ 15,00, eu posso comprar 12 quilos de arroz para alimentar minha família por um mês ou posso comprar pão para o café da manhã por 10 dias.

Didi, você pode até me chamar de muquirana, não me importo, mas R$ 15,00 eu não vou doar. Minha doação mensal já é muito grande. Se você não sabe, eu faço doações mensais de 27,5% de tudo o que ganho e posso te garantir que essa grana, se ficasse comigo, seria muito melhor aplicada na qualidade de vida da minha família.
Você sabia que para pagar os impostos eu tenho que dizer não para quase tudo que meus filhos querem ou precisam?

Renato Aragão

Renato Aragão

Meu filho de 12 anos quer praticar tênis e eu não posso pagar as aulas que são caras demais para nosso padrão de vida.
Você acha isso justo? Acredito que não.
Você é um homem de bom senso e saberá entender os meus motivos para não colaborar com sua campanha pela educação brasileira.

Outra coisa Didi, mande uma carta para o Presidente pedindo para ele selecionar melhor os professores. Só escolher quem de fato tem vocação para o ensino. Melhorar os salários, desses profissionais, também funciona para que eles tomem gosto pela profissão e vistam, de fato, a camisa da educação. Peça para ele, também, fazer escolas de horário integral, escolas em que as crianças possam além de ler, escrever e fazer contas, possam desenvolver dons artísticos, esportivos e habilidades profissionais. Dinheiro para isso tem sim ! Diga para ele priorizar a educação e utilizar melhor os recursos.

Bem, você assina suas cartas com o pomposo título de Embaixador Especial do Unicef para Crianças Brasileiras e eu vou me despedindo assinando…

Eliane Sinhasique – Mantenedora Principal dos Dois Filhos que Pari

Jornalista/Radialista e Publicitária
atuante em Rio Branco – Acre há mais de 19 anos.
Repórter especial do Jornal A Gazeta e Apresentadora do programa Toque Retoque da Gazeta FM 93,3

LAÇOS ETERNOS de marcele carvalho / são paulo

Séculos atrás tu te atirastes
Ás areias do Egito
Para proteger meus pequeninos pés…
Séculos atrás me encontro
Jogada aos leões famintos
Em meio ao coliseu
Tu gladiador,com tua coragem
Jogaste teu corpo em frente ao meu…
Séculos atrás nos esbarramos
Em uma caminhada
Á Revolução Francesa
Gritávamos bem alto ao mundo
Liberté, Egualité, Fraternité !
Séculos atrás não tinhas
O direito á liberdade
Imposto por minha família
Mas enquanto tu eras torturado
Minhas lágrimas corriam
Junto aos versos de Castro Alves…
Hoje tu defendes a liberdade
Do nosso Brasil no Exército
Eu própria escrevo
As poesias destinadas a ti…
Amanhã não sei onde estaremos
Se seremos grandes ou pequenos
Mas sei que serão sempre
Os momentos mais lindos que vivi!

MANHÃS DE SETEMBRO de helena guimarães / rio de janeiro


Manhãs de Setembro,

aragem fresca

construindo sonhos,

teias de gotas

enfeitando os matos,

perfume verde

a seguir meus passos,

lírios roxos

ponteando as margens

do fio de água

que escorre manso.

E tu E eu!

E a erva tombada

pelos corpos,

os lírios violados

na paixão.

E o céu!

Esse céu azul

sem limite.

O nosso limite.

A nossa eternidade!

MANOEL DE ANDRADE comenta em: “SIETE PUÑALES EN EL CORAZÓN DE AMÉRICA” por fidel castro / cuba

Comentário:
Sete punhais no coração da América. Que poética imagem para relembrar as incontáveis punhaladas cravadas no corpo inteiro da América desde que os saqueadores europeus chegaram aqui há quinhentos anos.

Em 1519, no México, o Imperador Montezuma II acolhe os espanhóis como enviados divinos e recebe o ingrato punhal  da prisão e da  morte com grande parte do seu povo,  pela cobiça de seu ouro por Fernão Cortez,  Pedro de Alvarado e seus prespostos.
MANOEL DE ANDRADE - FOTO DELE - IMG_7355Em 1532, o Imperador do Peru, Atahualpa,  é traído e aprisionado em Cajamarca por Francisco Pizarro, que toma seu ouro e depois manda executá-lo por estrangulamento.

No Chile os indomáveis araucanos resistiram às crueldades e as fogueiras de Diego de Almagro e ao conquistador Pedro de Valdívia e seus sucessores, mas resistiram por 350 anos. Muitos caíram com  o punhal da crueldade espanhola…,como Galvarino, que teve as mãos cortadas e Caupolicán, que foi empalado vivo. Conheci seus sobreviventes, nas montanhas de Arauco, no sul do Chile,  onde se isolaram da “civilização” e mantém ainda viva a memória heróica do passado.

Artigas, San Martin, O’Higgins, Sucre, Bolívar, Hidaldo e Juarez, os pais de tantas pátrias e que arrancaram os punhais do domínio espanhol da América.

Mas depois viriam os punhais dos comerciantes ingleses a sangrar, com a usura e a ganância comercial  a nossa independência política.
Viriam os punhais yanques da United Fruit para engolfar-se no sangue dos camponeses guatemaltecos, hondurenhos e salvadorenhos.
E essa Cuba heróica,  bloqueada  pelo poder do império e apunhalada, há cinco décadas, pelos representantes bastardos do sangue latino-americano.
E vieram  os punhais da CIA para assassinar nossos revolucionários.

Sim…, há que tomar partido diante destes sete punhais a serem cravados no coração da América. Ali…, onde  em o6 de  dezembro de 1928,  a praça principal da cidade colombiana de Ciénaga, tingiu-se de vermelho no já esquecido “Massacre das bananeiras”. Sob as ordens yanques da United Fruit os velozes punhais de chumbo silenciaram o protesto de  mais de mil camponeses que caiam abraçados com suas mulheres e seus filhos.. Alí…, na pátria do “Bogotaço” onde assassinaram a voz de Eliécer Gaitán  e depois caiu  Camilo Torres.

RESISTÊNCIA …, SIM….   “los pueblos pueden resistir y ser portadores de los principios más sagrados de la sociedad humana. De lo contrario el imperio destruirá la civilización y la propia especie.”
Veja a matéria comentada  AQUI.

CAPITÓLIO ANÃO por sérgio da costa ramos / florianópolis

Nos EUA, o Parlamento alberga-se no Capitólio, nome emprestado da mais elevada das colinas de Roma. Em Londres, a democracia se irriga no Tâmisa, em cuja beira está a morada dos legisladores, propriamente conhecida como a Câmara dos Comuns.

Aqui, no Planalto Central, coração verde da pátria, nosso “Capitólio” é anão, e nossos comuns, “incomuns”.SÉRGIO DA COSTA RAMOS 1

A Inglaterra teve Oliver Cromwell, pai da monarquia parlamentarista, que acabou com o absolutismo. Os Estados Unidos tiveram Thomas Jefferson e a hegemonia de uma Constituição eternamente respeitada.

E a “Terra Papagallis”? Ora, temos José Sarney, o poetastro de Marimbondos de Fogo e o vovô das netinhas que pedem emprego para os namorados.

Sempre que pôde contar com presidentes decorosos e respeitáveis – um Nereu Ramos, um Afonso Arinos de Mello Franco, um Tancredo Neves, um Ulysses Guimarães – o Parlamento brasileiro escreveu capítulos de limpa e asseada democracia na oscilante história da República. Mas as instituições têm beirado o desastre sempre que sobe à presidência de suas casas, a alta ou a baixa, gente do quilate de Renan Calheiros, ACM, Sarney, Severino Cavalcanti – três dos quais não terminaram seus mandatos de chefes legislativos: foram obrigados a apear em meio a cabeludos escândalos – o que se repete com Sarney, o recalcitrante.

Vivemos em Brasília um grave momento de impiedosa “entressafra”, de árida seca de valores e de compostura, um período de treva, em que suas excelências não se pejam de atravessar semestres sem trabalhar, apenas discutindo “quem é o mais desonesto”. Chega a ser uma piada o discurso de que o Executivo “atropela” o Legislativo com medidas provisórias. Sem as MPs, como poderia ser governado o Brasil, num Parlamento que se reúne só para conduzir “inquéritos policiais”, transformado em delegacia de polícia?

Raras são as sessões deliberativas. E quando uma votação acontece, logo vem acompanhada da “explicação” constrangedora: os deputados votaram porque o governo liberou o dinheiro das emendas individuais ao orçamento… Grana que vai para as paróquias de cada “interessado” – irrigando algum provinciano chafariz, ou, o que é pior, os bolsos do próprio deputado e sua ONG fantasma.

O Parlamento brasileiro vai se identificando com o apodrecido organismo das “máfias”, enquanto a população, estarrecida, assiste a um espetáculo hamletiano, no qual lhe caberia repetir a exclamação de Marcelo, logo no primeiro ato da peça shakespeariana:

– Há algo de podre no Reino da Dinamarca…

Havia traição, incesto, usurpação do trono, fraude, assassinato, perfídia. Em Brasília, há preguiça, chantagem, pantomimas, CPIs inócuas e a incapacidade de votar e trabalhar.

Sobram os “auxílio-moradia”, “auxílio-paletó”, “verba de gabinete”, “escritório nas bases”, “passagens e cotas”, “atos secretos” e outras mutretas.

Falta o mínimo entendimento do que seja um Capitólio: um lugar de boas emanações, um recanto elevado, próprio ao exercício da nobre arte de servir “às gentes”, à democracia e ao chamado “bem comum”.

Quem compreende esta missão no “capitoliozinho” de Brasília?