MÚSICA BRASILEIRA por mário de andrade / rio de janeiro

Até há pouco a música artística brasileira viveu divorciada da nossa entidade racial. Isso tinha mesmo que suceder. A nação brasileira é anterior à nossa raça. A própria música popular da Monarquia não apresenta uma fusão satisfatória. Os elementos que a vinham formando se lembravam das bandas de além, muito puros ainda. Eram portugueses e africanos. Ainda não eram brasileiros não. Se numa ou noutra peça folclórica dos meados do século passado se delineiam os caracteres da música brasileira, é mesmo só com os derradeiros tempos do Império que eles principiam abundando. Era fatal: Os artistas duma raça indecisa se tornaram indecisos que nem ela.

O que importa é saber se a obra desses artistas deve ser contada como valor nacional. Acho incontestável que sim. Esta verificação até parece ociosa mas para o meio moderno brasileiro sei que não é.

Nós, modernos, manifestamos dois defeitos grandes: bastante ignorância e leviandade sistematizada. É comum entre nós a rasteira derrubando da jangada nacional não só as obras e autores passados como até os que atualmente empregam a temática brasileira numa orquestra européia ou no quarteto de cordas. Não é brasileiro, se fala.

É que os modernos, ciosos da curiosidade exterior em muitos dos documentos populares nossos, confundem o destino dessa coisa séria que é a Música Brasileira com o prazer deles, coisa diletante, individualista e sem importância nacional nenhuma. O que deveras eles gostam no brasileirismo que exigem a golpes duma crítica aparentemente defensora do patrimônio nacional, não é a expressão natural e necessária duma nacionalidade não, em vez é o exotismo, o jamais escutado em música artística, sensações fortes, vatapá, jacaré, vitória-régia.

Mas um elemento importante coincide com essa falsificação da entidade brasileira: opinião de europeu. O diletantismo que pede música só nossa está fortificado pelo que é bem nosso e consegue o aplauso estrangeiro. Ora por mais respeitoso que a gente seja da crítica européia carece de verificar duma vez por todas que o sucesso na Europa não tem importância nenhuma para a Música Brasileira. Aliás, a expansão do internacionalizado Carlos Gomes e a permanência além-mar dele prova que a Europa obedece a genialidade e a cultura.

Mas no caso de Vila-Lobos, por exemplo, é fácil enxergar o coeficiente guassú (1) com que o exotismo concorreu para o sucesso atual do artista. H. Prumières confessou isso francamente. Ninguém não imagine que estou diminuindo o valor de Vila-Lobos não. Pelo contrário: quero aumentá-lo. Mesmo antes da pseudo-música indígena de agora Vila-Lobos era um grande compositor. A grandeza dele, a não ser para uns poucos, sobretudo Artur Rubinstein e Vera Janacopulos, passava despercebida. Mas bastou que fizesse uma obra extravagando bem do continuado para conseguir o aplauso.

Ora por causa do sucesso dos Oito Batutas ou do choro de Romeu Silva, por causa do sucesso artístico mais individual que nacional de Vila-Lobos, só é brasileira a obra que seguir o passo deles? O valor normativo de sucessos assim é quase nulo. A Europa completada e organizada num estádio de civilização campeia elementos estranhos para se libertar de si mesma. Como a gente não tem grandeza social nenhuma que nos imponha ao Velho Mundo, nem filosófica que nem a Ásia, nem econômica que nem a América do Norte, o que a Europa tira da gente são elementos de exportação universal: exotismo divertido. Na música, mesmo os europeus que visitam a gente perseveram nessa procura do esquisito apimentado. Se escutam um batuque brabo muito que bem, estão gozando, porém se é modinha sem síncope ou certas efusões líricas dos tanguinhos de Marcelo Tupinambá, Isso é música italiana! – falam de cara enjoada. E os que são sabidos se metem criticando e aconselhando, o que é perigo vasto. Numa toada de acalanto, num aboio, desentocam a cada passo frases francesas, russas, escandinavas. Às vezes especificam que é Rossini, que é Boris. (2) Ora o quê que tem a Música Brasileira com isso! Se Milk parece com Milch, as palavras deixam de ser uma inglesa outra alemã? O que a gente pode mas é constatar que ambas vieram dum tronco só. Ninguém se lembra de atacar a italianidade de Rossini porque tal frase dele coincide com outra da ópera-cômica francesa.

Um dos conselhos europeus que tenho escutado bem é que a gente se quiser fazer música nacional tem que campear elementos entre os aborígenes, pois que somente estes são legitimamente brasileiros. Isto é uma puerilidade que inclui ignorância dos problemas sociológicos, étnicos psicológicos e estéticos. Uma arte nacional se faz com escolha discricionária e diletante de elementos: uma arte nacional já está feita na inconsciência do povo. O artista tem só que dar para os elementos já existentes uma transposição erudita que faça da música popular, música artística, isto é: imediatamente desinteressada. O homem da nação Brasil hoje está mais afastado do ameríndio do que do japonês, e do húngaro. O elemento ameríndio no populário brasileiro está psicologicamente assimilado e praticamente já quase nulo. Brasil é uma nação com normas sociais, elementos raciais e limites geográficos. O ameríndio não participa dessas coisas e mesmo parando em nossa terra continua ameríndio e não brasileiro. O que evidentemente não destrói nenhum dos nossos deveres com ele. Só mesmo depois de termos praticado os deveres globais que temos para com ele é que poderemos exigir dele a prática do dever brasileiro.

Se fosse nacional somente o que é ameríndio; também os italianos não poderiam empregar o órgão que é egípcio; o violino que é árabe; o cantochão que é greco-hebraico; a polifonia que é nórdica; a anglosaxonia flamenga e o diabo. Os franceses não poderiam usar a ópera que é italiana e muito menos a forma-de-sonata que é alemã. E como todos os povos da Europa são produto de migrações pré-históricas se conclui que não existe arte européia…

Com aplausos inventários e conselhos desses a gente não tem que se amolar. São eles fruto de ignorância ou de gosto pelo exótico. Nem aquele nem este não podem servir para critério de um julgamento normativo.

Por isto tudo, Música Brasileira deve significar toda música nacional quer tenha quer não tenha caráter étnico. Do Padre Maurício, I Salduni, Schumanniana – são músicas brasileiras. Toda opinião em contrário é perfeitamente covarde, antinacional, anticrítica.

E afirmando assim não faço mais que seguir um critério universal. As escolas étnicas em música são relativamente recentes. Ninguém não lembra de tirar do patrimônio itálico Gregório Magno, Marchetto, João Gabrieli ou Palestrina. São alemães J. S. Bach, Haendel e Mozart, três espíritos perfeitamente universais como formação e até como caráter de obra os dois últimos. A França então se apropria de Lulli, Gretry, Meyerbeer, Cesar Franck, Honnegger e até Gluck que nem franceses são. Na obra de José Maurício e mais fortemente na de Carlos Gomes, Levy, Glauco Velásquez, Miguez, a gente percebe um não-sei-quê indefinível, um ruim que não é ruim propriamente, é um ruim esquisito para me utilizar duma frase de Manuel Bandeira. Este não-sei-quê, vago, mas geral, é uma primeira fatalidade de raça badalando longe. Então, na lírica de Nepomuceno, Francisco Braga, Henrique Osvaldo, Barroso Neto e outros; já pode ser percebido um parentesco psicológico bem forte. Isto basta pra gente adquirir agora o critério legítimo de música nacional que deve ter uma nacionalidade evolutiva e livre.

Mas neste caso um artista brasileiro escrevendo agora em texto alemão sobre assunto chinês, música da tal chamada música universal, faz música brasileira e é músico brasileiro. Não é não, por mais sublime que seja. Não. A obra não é brasileira, como é antinacional. E socialmente o autor dela deixa de nos interessar. Digo mais: por valiosa que a obra seja, devemos repudiá-la, que nem faz a Rússia com Strawinsky e Kandinsky.

O período atual do Brasil, especialmente nas artes, é o de nacionalização. Estamos procurando conformar a produção humana do país com a realidade nacional. E é nessa ordem de idéias que se justifica o conceito de Primitivismo aplicado às orientações de agora. É um engano imaginar que o primitivismo brasileiro de hoje é estético. Ele é social. Um poeminho humorístico do Pau Brasil de Osvaldo de Andrade até é muito menos primitivista que um capítulo da Estética de Vida de Graça Aranha. Porque este capítulo está cheio de pregação interessada, cheio de idealismo ritual e deformatório, cheio de magia e de medo. O lirismo de Osvaldo de Andrade é uma brincadeira desabusada. A deformação empregada pelo paulista não ritualiza nada, só destrói pelo ridículo. Nas idéias que expõe não tem idealismo nenhum. Não tem magia. Não se confunde com a prática. É arte desinteressada.

Pois toda arte socialmente primitiva que nem a nossa é arte de circunstância. É interessada. Toda arte exclusivamente artística e desinteressada não tem cabimento numa fase primitiva, fase de construção. É intrinsecamente individualista. E os efeitos do individualismo artístico no geral são destrutivos. Ora numa fase primitivística, o indivíduo que não siga o ritmo dela é pedregulho na botina. Se a gente principia matutando sobre o valor intrínseco do pedregulho e o conceito filosófico de justiça, a pedra fica no sapato e a gente manqueja. “A pedra tem de ser jogada fora”. É uma injustiça feliz, uma injustiça justa, fruto de época.

O critério atual de Música Brasileira deve ser não filosófico, mas social. Deve ser um critério de combate. A força nova que voluntariamente se desperdiça por um motivo que só pode ser indecoroso (comodidade própria, covardia de pretensão) é uma força antinacional e falsificadora.

E arara. Por quê? Imaginemos com senso comum: Se um artista brasileiro sente em si a força do gênio, que nem Beethoven e Dante sentiram, está claro que deve fazer música nacional. Porquê como gênio saberá fatalmente encontrar os elementos essenciais da nacionalidade (Romeau, Weber, Wagner, Mussorgski). Terá, pois, um valor social enorme. Sem perder em nada o valor artístico porque não tem gênio por mais nacional (Rabelais, Goya, Whitman, Ocussai) que não seja do patrimônio nacional. E se o artista faz parte dos noventa e nove por cento dos artistas e reconhece que não é gênio, então é que deve mesmo de fazer arte nacional. Porque incorporando-se à escola italiana ou francesa será apenas mais um na fornada, ao passo que na escola iniciante será benemérito e necessário. Cesar Cui seria ignorado se não fosse o papel dele na formação da escola russa. Turina é de importância universal mirim. Na escola espanhola o nome dele é imprescindível. Todo artista brasileiro que no momento atual fizer arte brasileira é um ser eficiente com valor humano. O que fizer arte internacional ou estrangeira, se não for um gênio, é um inútil, um nulo. E é um reverendíssimo besta.

Assim: estabelecido o critério transcendente de Música Brasileira que faz a gente com a coragem dos íntegros adotar como nacionais a Missa em Si Bemol e Salvador Rosa, (3) temos de reconhecer que este critério é pelo menos ineficaz para julgar as obras dos atuais menores de quarenta anos. Isto é lógico. Porque se trata de estabelecer um critério geral transcendente se referindo à entidade evolutiva brasileira. Mas um critério assim é ineficaz para julgar qualquer momento histórico. Porque transcende dele. Isto, porque as tendências históricas é que dão a forma que as idéias normativas se revestem.

O critério de música brasileira para a atualidade deve de existir em relação à atualidade. A atualidade brasileira se aplica aferradamente a nacionalizar a nossa manifestação. Coisa que pode ser feita e está sendo sem nenhuma xenofobia nem imperialismo. O critério histórico atual da Música Brasileira é o da manifestação musical que sendo feita por brasileiro ou indivíduo nacionalizado, reflete as características musicais da raça.

E onde estas estão?

__ Na música popular.

(1) Todas estas afirmativa já foram escutadas por mim, de estranhos…fazendo  inventário do que é nosso (observação do próprio autor).

(2) guassú, parece que o autor quis dizer “guaçu” em língua tupi-guarani – açu (grande). Portanto, “coeficiente guassú – “coeficiente de grandeza” de Vila Lobos.

(3) todas marcações sublinhadas foram realizadas pelo próprio autor.

(com pequena adaptação do texto por Tonicato Miranda)

Uma resposta

  1. tenis muito lokoooooooooo tá ligado vo compraa um desse mano é loko di mais

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