Arquivos Diários: 3 setembro, 2009

IMPACIÊNCIA de josé dagostim / criciúma

Impaciência

O tempo corta-me num cerco implacável. Percorro perdido entre os limites da rota e o balanço, num ritual que tenta agradar os deuses da lentidão. Minha dança é sem compasso, presa no entroncamento do destino. Avanço o sinal num gesto previsível que acusa o agastamento do logradouro…


ÁFRICA de nelson padrella / curitiba

Os rios eram azuis na folha de cartolina. Tão azuis quanto os olhos de Margot. Ela ficou de vir estudar aqui em casa, ela e seus olhos muito azuis.

Os garotos vieram me procurar para a gente ir brincar. Bem que eu estava com vontade de descer a rua no carrinho de rolimã, mas a menina era muito mais importante.

Quando a campaínha tocou meu coração mudou de lugar. Margot entrou sobraçando cadernos. Nem um beijo à porta.

Sentados na sala grande como crianças comportadas. a África era nossa, onde sonhávamos safáris. Os faraós nos aguaravam, deitados pacientemenmte em seu sono de pó. O pó dos séculos deve ser como a areia do Sahara. O Nilo foi criado no papel, sem ameaça de crocodilos. Só o azul das águas ameaçava.

– Quando desenhei o rio pensei nos teus olhos.

Ela, concentrada na leitura de um texto.

Falo de maneira diferente:

– Teus olhos me lembram o Nilo.

Ela deixou o interesse pela leitura.

– Meus olhos estão cheios d’água?

– Não – eu disse.

– Cheios de faraós?

Abaixei a cabeça não envergonhado, abaixei para sorrir melhor.

A menina continuava me provocando:

– Então, meus olhos…(fez uma grande pausa, inventado o que dizer)…eles são os maiores do mundo?

– Sim – respondi.

Ela se admirou. Olhou séria para mim:

– Tenho olhos tão grandes assim?

– Não, Margot. Os olhos de você são os maiores do mundo em beleza.

Ela continuou seria. Retomou o texto, como se o que eu tivesse dito não importasse. Depois, apanhou a ecoline e ia pincelando savanas na África inventada. Parou nas margens do Nilo.

– Por que você disse aquilo?

O cheiro de Margot me inebriou. Flores da África ofereciam perfume. O siroco me sufocava com seu ar quente.

– Disse porque é verdade.

Agora, era ela quem se perdia. Retomou o desenho, mas a caneta parada na mão era como a caravana indecisa nas areias, que não sabe o rumo a ser tomado. Ela olhava para fora, o jardim onde verdes se insurgiam.

– E se fossem verdes?

– O quê?

– Meus olhos. Se fossem verdes?

Pensei um pouco, mas ela respondeu antes que eu falasse.

– Iam lembrar o lodo do fundo do Nilo?

Ela estava contrariada e eu não atinava o motivo. Era quase agressiva quando olhava daquele modo para mim.

– Não, Margot. Se fossem verdes me lembravam das florestas da África.

Paramos de falar. Da rua, gritos alegres de crianças. Um perfume vindo não sei de onde. A vontade de tocar na menina.

– Um dia queria ir pra África – eu disse.

Ela não respondeu. Talvez não tivesse o que dizer. Eu me enchi de coragem.

– Queria navegar no rio Nilo.

Ela ergueu o rosto e estava sereno. Era um sorriso nascendo no canto dos lábios?

– Queria navegar nos teus olhos – eu disse.

Ela abaixou a cabeça e fez que sim. Eu toquei com a mão em seu ombro e ela suspirou. O segredo da esfinge desvendado. Trouxe a cabeça da menina até perto da minha.

‘Entre o Linear e o Pictórico’ discussão no Espaço Cultural BRDE / curitiba

Discutir a produção individual de cada artista e relacioná-la ao contexto contemporâneo, trazendo um conceito entre o desenho e a pintura é o objetivo da exposição “Entre o Linear e o Pictórico” , que começa no dia três de setembro no Espaço Cultural BRDE – Palacete dos Leões.

A coletiva é formada por professores do curso de Artes Visuais da Universidade Tuiuti do Paraná (UTP). Os cinco artistas são integrantes do Grupo Papel, formado pelo curso de Artes Visuais da UTP, que tem como objetivo fomentar a produção cultural local, aliando o fazer artístico ao pensamento teórico, de forma que possa estimular uma produção crítica e consistente de arte contemporânea a partir do papel.

Como o nome diz, o papel é o que dá suporte às experimentações, então por que não utilizar a linha como estrutura que dá forma e corpo ao desenho? As poéticas, as lembranças e o olhar de mundo de cada um dos cinco artistas acontece por meio da costura, do lápis, da corrosão do ácido na placa de metal, do nanquim (tinta preta)  ou digital.  Para entender a obra, é necessário que o espectador se aproxime e observe de forma atenta o jogo de linhas sobre o papel.

Eliza Gunzi,  Mestre em Poéticas Visuais, reproduz  detalhes observados em estampas japonesas. Seus desenhos são feitos com nanquim sobre papel, por meio de linhas finas e delicadas. Depois de toda a etapa, são plotados em formatos grandes e adesivados em paredes.  “Me interesso por trabalhos que tenham minúcia detalhista em que o espectador tenha que se aproximar para olhar”.

Detalhes é o que podemos encontrar nos trabalhos de Evandro Gauna. Formado em artes e com gosto pela fotografia, sai pela cidade em busca do que passa desapercebido no dia a dia.  Com agulha e linha, suas fotos viram bordados em papel. “Nos meus trabalhos as pessoas reconhecem os detalhes do dia a dia da cidade”, comenta o artista que em seus desenhos deixa pequenos espaços vazios, tornando assim necessário que com o olhar as pessoas preencham o que não foi bordado. A pictorialidade da mancha e do desfocamento também fazem parte do trabalho do artista.

Assim como Gauna, a artista plástica Haydée Guibor também tem olhos atentos. Desenhos feitos em ambiente digital, jogo entre o preto e o translúcido, impressos em adesivo e colados em acrílico são pequenas descrições do expressionismo abstrato de seu trabalho. “Eu tenho a necessidade de desenhar. Quero que as pessoas percebam a massa (preto) e o vazio (transparente).”

Imagens de propagandas e filmes são apropriadas e transformadas pelo artista visual Hugo Mendes. “Vejo uma imagem e sinto como se já tivesse vivido aquilo, por conta desta lembrança eu dou o nome à figura”. Os desenhos em nanquim sobre papel, feitos a partir de linhas horizontais, trazem uma reflexão de pensar no original, que é por tantas vezes modificado e chega sempre ao espectador de uma forma diferente.

Renato Torres, Bacharel em Gravura, trabalha com idéias de temporalidade, em cima daquilo que já foi gravado pelas pessoas através de linhas que suscitam um desdobramento da imagem. “É uma discussão entre as linguagens, uma tentativa é ir além da técnica tradicional”.

Rubens Portella, curador da exposição, faz um resumo da essência das obras.

“Como sugere o próprio título da exposição, é de interesse do grupo investigar não apenas as características, linguagens e possibilidades expressivas de cada modalidade artística isolada, mas as transições, convergências e interligações entre elas, estabelecendo novos pontos de vista, tensões e desafios. É por meio da troca constante de referências, do debate de idéias e da abertura do diálogo, que estes jovens artistas  e pesquisadores esbatem as fronteiras entre o desenho, a fotografia, a arte eletrônica, o objeto, a pintura e a gravura – áreas específicas  do interesse década um dos integrantes do grupo – para ingressar em um novo campo experimental e poético, propiciado pela atmosfera do pensamento em coletividade”.

Entre o Linear e o Pictórico

Abertura

03 de setembro às 19hs

Exposição

De 04/09 a 30/09

Segunda a sexta-feira, 12h30 às 18h30

Espaço Cultural BRDE – Palacete dos Leões

Av. João Gualberto, 530/570 (com estacionamento)

Alto da Glória – Curitiba -PR

Informações: (41) 3219-8056

Poliana Dal Bosco
Estagiária / ASCOM
Fone: 41 3219.8035
Fax: 41 3219.8153

www.brde.com.br

MEDIOCRIDADE versus TALENTO / editoria

quando Winston Churchill, ainda jovem, acabou de pronunciar seu discurso de estréia na Câmara dos Comuns, foi perguntar a um velho parlamentar, amigo de seu pai, o que tinha achado do seu primeiro desempenho naquela assembléia de vedetes políticas.

o velho pôs a mão no ombro de Churchill e disse, em tom paternal: -“Meu jovem, você cometeu um grande erro. Foi muito brilhante neste seu primeiro discurso na Casa. Isso é imperdoável. Devia ter começado um pouco mais na sombra. Devia ter gaguejado um pouco. Com a inteligência que demonstrou hoje deve ter conquistado, no mínimo, uns trinta inimigos. O talento assusta.”

e ali estava uma das melhores lições de abismo que um velho sábio podia dar ao pupilo que se iniciava numa carreira difícil. a maior parte das pessoas encasteladas em posições políticas é medíocre e tem um indisfarçável medo da inteligência. temos de admitir que, de um modo geral, os medíocres são mais obstinados na conquista de posições. sabem ocupar os espaços vazios deixados pelos talentosos displicentes que não revelam apetite pelo poder. mas é preciso considerar que esses medíocres, ladinos, oportunistas e ambiciosos têm o hábito de salvaguardar as posições conquistadas com verdadeiras muralhas de granito por onde talentosos não conseguem passar.

dentro desse raciocínio, que poderia ser uma extensão do “Elogio da Loucura”  de Erasmo de Roterdam, somos forçados a admitir que uma pessoa precisa fingir-se de burra se quiser vencer na vida.

o grande dramaturgo brasileiro nelson rodrigues nos deixou esta:

Finge-te de idiota e terás o céu e a terra.

VERA LÚCIA KALAHARI e sua poesia / portugal

Disseste que voltavas

E eu esperei…

Mandei que as acácias rubras

Florissem só para ti.

Que as casuarinas desgrenhadas

Se vestissem com mantos de nívea espuma.

Mandei que as rosas

Se abrissem só para ti…

Que juncassem de flores

As pedras de cada rua…

Que tocassem batucadas

Na noite luarenta…

Qu’acendessem fogueiras

Em todas as esquinas…

Tu não voltaste.

Murcharam as acácias

A florirem numa ansiedade vã…

Curvaram-se as casuarinas

Com lágrimas d’espuma

Caindo na praia escura…

Calaram-se os cantos nos beirais.

Parados quedávamos

Tentando o som dos teus passos escutar…

Calou-se o menino de barriguinha inchada

Qu’esperava por ti para o salvares…

Que fazias que não voltavas?

Que fizemos p´ra não voltares?

Tu que trouxeras a fé e a crença

A este povo descrente

Eras agora uma voz …

Uma voz…nada mais.