Arquivos Diários: 4 setembro, 2009

PRIMAVERA de philomena gebran / curitiba

TULIPAS ROJAStulipas.  foto livre.

urgente preparar-me

acordar, ficar atenta

prestar muita atenção

.

para quando a primavera vier

.

quero lavar-me no fraescor

do orvalho da manhã

mesmo antes de o sol chegar

.

para quando a primavera vier

.

quero despir-me da noite

do frio, da bruma da névoa

das nuvens, do chumbo

.

para quando a primavera vier

.

quero lavar meu rosto pálido

minhas mãos vazias e frias

meus olhos cinza e triste

.

para quando a primavera vier

.

quero soltar meu coração

quero correr livre e nua

beber o ar da manhã,

.

para quando a primavera vier

.

quero deitar-me na grama,

cobrir-me de flores

vestir-me de todas as cores

.

para quando a primavera vier

.

quero abrir meu corpo, minha alma

libertar-me de tudo, de todos

entregar-me nua e pura

.

quando a primavera chegar

FLORIANÓPOLIS, ilha dos nomes flutuantes – por charles silva / florianópolis

Quando o poeta Zininho escreveu o verso “um pedacinho de terra perdido no mar”, não fazia referência a nenhuma ilha flutuante. Ele cantava uma ilha de cinquenta e quatro quilômetros de comprimento, cujas cristas montanhosas permanecem petrificadas até hoje. Ele cantava a figueira centenária e profundamente enraizada, a lagoa de águas azuis e sonolentas, a natureza exuberante de uma paisagem que se renova constantemente sem sair do lugar. E foi assim, reunidas e paradas, que as belezas deslumbrantes e eternizadas pelo tempo encheram os olhos e o coração do poeta: “Jamais a natureza reuniu tanta beleza! Jamais algum poeta teve tanto pra cantar!”

O mesmo não se deu com o nome. Os índios carijós, muito antes dos portugueses, chamavam a ilha de “Meiembipe”, palavra que traz a ideia de “montanha ao longo do rio”. O italiano Sebastião Caboto, a serviço da Espanha, numa de suas expedições, por volta de 1526, desembarcou na ilha e assinalou em seus mapas o nome de “Porto dos Patos”. Decerto que o topônimo está ligado a uma grande quantidade dessas aves, que imitando a flecha certeira dos legítimos donos da ilha, espetavam os pequenos peixes, pingentes prateados sob a lâmina azul daqueles dias.

Pouco mais de três anos da chegada de Caboto, tanto ele como um outro navegante, Diego Ribeiro, passaram a anotar em seus mapas o nome de “Ilha de Santa Catarina”. Não se sabe se tal nomenclatura foi uma homenagem de Sebastião Caboto à sua esposa, Catarina Medrano, ou a Santa Catarina de Alexandria, venerada pela Igreja Católica até 1969, quando foi banida do Calendário Litúrgico por falta de provas históricas de sua existência.

Devido a sua localização, era comum a visita de portugueses e espanhóis à ilha. Praticamente todas as embarcações que partiam do Rio de Janeiro em direção ao Rio da Prata, entre Argentina e Uruguai, necessitavam de reparos, água e víveres de toda sorte. Assim, no ano de 1623, aportou na ilha o bandeirante Francisco Dias Velho, provavelmente por sugestão do Governador do Rio de Janeiro, Salvador Correa de Sá e Benevides, e deu início ao povoado de “Nossa Senhora do Desterro”. O nome do novo povoado foi motivado por ser a ilha, à época, habitada por vários desterrados. A estes, juntavam-se náufragos, marinheiros desertores e alguns frades franciscanos.

Quase três séculos se passaram até a eclosão da Revolução Federalista em 1893, no Rio Grande do Sul. À frente dos acontecimentos estava “o primeiro vice-presidente a se tornar presidente”, o marechal Floriano Peixoto, que se revelou um ditador implacável, crudelíssimo, inimigo de toda e qualquer liberdade. Os federalistas gaúchos exigiam que Floriano se pautasse pela Constituição. Como o marechal não fosse homem de acordos, em pouco tempo os três estados do Sul se revoltaram. A ilha assistiu ao conflito sangrento entre “federalistas” e “legalistas”, até que, no ano seguinte, em 1894, Desterro foi ocupada pelas tropas de Floriano Peixoto. O Coronel Antônio Moreira César assumiu a chefia estadual. Seguiu-se uma ferrenha perseguição aos revoltosos, que em poucos dias foram fuzilados impiedosamente, sem direito algum de defesa.

A julgar pelos acontecimentos históricos, o nome atual da ilha recai como uma ironia ácida às famílias que viram muitos de seus membros serem assassinados friamente. Em homenagem lúgubre à carnificina imposta pelos vencedores do conflito, a ilha passou a se chamar “Florianópolis”, a “cidade de Floriano”, o terrível marechal.

É claro que hoje o nome soa antipático apenas aos que conhecem a outra parte da história do “pedacinho de terra perdido no mar”. Várias sugestões já foram dadas para que a ilha mudasse mais uma vez de nome. Já se falou em “Ondina”, que segundo a mitologia germânico-escandinava eram ninfas aquáticas de beleza extraordinária. Essas ninfas estariam ligadas à eternidade e efemeridade do amor. O nome é bem apropriado, posto a ilha como um símbolo do amor do Oceano Atlântico, que embora seja conhecedor de todo o corpo de sua amada, não pode adivinhar-lhe o nome exato.

Conquanto as empresas de turismo tenham explorado bastante a expressão “Ilha da Magia”, atualmente os moradores da cidade a chamam carinhosamente de “Floripa”. As ruas do centro ostentam dois nomes em cada placa, o atual e o antigo. Através dos antigos nomes, “Rua do Príncipe”, “Rua da Paz”, “Rua da Saudade”, pode-se flanar também pela atmosfera poética que continua adoçando toda ilha. É quando o caminhante mais sensível observa, na penumbra do palimpsesto urbano, o verdadeiro tesouro da ilha dos nomes flutuantes… Mais do que uma descoberta, um momento de puro amor.

(Charles Silva é poeta da ilha, graduado em História e mestre em Educação)

A VIDA COM TEMPO de osvaldo wronski / curitiba


O satélite fotografa a alma da chuva

Que por acima se aproxima

Fazendo-nos ficar a sós

.

Nada podemos contra o seu avanço

Que medonho e cativante nos enfrenta

estremecendo todas as estruturas

.

Vamos dar um tempo ao tempo

Este pode ser um bom momento

Para acompanhar os seus estágios

.

Por momentos nos contemos

Cercados por água saciante

Benvinda de todos os lados

.

Lá fora  a água retinge a cor da tinta

Invadindo lugares, privando a cidade de pessoas

Que andam em círculos sobre o metro quadrado

.

Nuvens obscuras encobrem o céu

O raio aponta para o chão

estarrecendo o cenário

.

Indo até aonde nós nos temos

Debaixo de algum abrigo metereológico

O clima se modifica e tudo se reedita

.

Chuva que cai como uma luva

quem me dera ficar ao deus dará

e ver o tempo que não para de cessar

QUERO SER FADA de ana carolina cons bacila /curitiba


Fada das quatro estações,
me traz emoções,
me traz meu sonhar.

Crio coragem pra te falar,
quero asas para voar,
sonho do coração.

Asas negras para o inverno.
Asas vermelhas para o verão.

Asas marrons para o outono,
Asas rosadas para a primavera.

Asas de anjo
para confortar um coração.

.

ana carolina (16) faz parte do grupo jovens poetas do site.