FLORIANÓPOLIS, ilha dos nomes flutuantes – por charles silva / florianópolis

Quando o poeta Zininho escreveu o verso “um pedacinho de terra perdido no mar”, não fazia referência a nenhuma ilha flutuante. Ele cantava uma ilha de cinquenta e quatro quilômetros de comprimento, cujas cristas montanhosas permanecem petrificadas até hoje. Ele cantava a figueira centenária e profundamente enraizada, a lagoa de águas azuis e sonolentas, a natureza exuberante de uma paisagem que se renova constantemente sem sair do lugar. E foi assim, reunidas e paradas, que as belezas deslumbrantes e eternizadas pelo tempo encheram os olhos e o coração do poeta: “Jamais a natureza reuniu tanta beleza! Jamais algum poeta teve tanto pra cantar!”

O mesmo não se deu com o nome. Os índios carijós, muito antes dos portugueses, chamavam a ilha de “Meiembipe”, palavra que traz a ideia de “montanha ao longo do rio”. O italiano Sebastião Caboto, a serviço da Espanha, numa de suas expedições, por volta de 1526, desembarcou na ilha e assinalou em seus mapas o nome de “Porto dos Patos”. Decerto que o topônimo está ligado a uma grande quantidade dessas aves, que imitando a flecha certeira dos legítimos donos da ilha, espetavam os pequenos peixes, pingentes prateados sob a lâmina azul daqueles dias.

Pouco mais de três anos da chegada de Caboto, tanto ele como um outro navegante, Diego Ribeiro, passaram a anotar em seus mapas o nome de “Ilha de Santa Catarina”. Não se sabe se tal nomenclatura foi uma homenagem de Sebastião Caboto à sua esposa, Catarina Medrano, ou a Santa Catarina de Alexandria, venerada pela Igreja Católica até 1969, quando foi banida do Calendário Litúrgico por falta de provas históricas de sua existência.

Devido a sua localização, era comum a visita de portugueses e espanhóis à ilha. Praticamente todas as embarcações que partiam do Rio de Janeiro em direção ao Rio da Prata, entre Argentina e Uruguai, necessitavam de reparos, água e víveres de toda sorte. Assim, no ano de 1623, aportou na ilha o bandeirante Francisco Dias Velho, provavelmente por sugestão do Governador do Rio de Janeiro, Salvador Correa de Sá e Benevides, e deu início ao povoado de “Nossa Senhora do Desterro”. O nome do novo povoado foi motivado por ser a ilha, à época, habitada por vários desterrados. A estes, juntavam-se náufragos, marinheiros desertores e alguns frades franciscanos.

Quase três séculos se passaram até a eclosão da Revolução Federalista em 1893, no Rio Grande do Sul. À frente dos acontecimentos estava “o primeiro vice-presidente a se tornar presidente”, o marechal Floriano Peixoto, que se revelou um ditador implacável, crudelíssimo, inimigo de toda e qualquer liberdade. Os federalistas gaúchos exigiam que Floriano se pautasse pela Constituição. Como o marechal não fosse homem de acordos, em pouco tempo os três estados do Sul se revoltaram. A ilha assistiu ao conflito sangrento entre “federalistas” e “legalistas”, até que, no ano seguinte, em 1894, Desterro foi ocupada pelas tropas de Floriano Peixoto. O Coronel Antônio Moreira César assumiu a chefia estadual. Seguiu-se uma ferrenha perseguição aos revoltosos, que em poucos dias foram fuzilados impiedosamente, sem direito algum de defesa.

A julgar pelos acontecimentos históricos, o nome atual da ilha recai como uma ironia ácida às famílias que viram muitos de seus membros serem assassinados friamente. Em homenagem lúgubre à carnificina imposta pelos vencedores do conflito, a ilha passou a se chamar “Florianópolis”, a “cidade de Floriano”, o terrível marechal.

É claro que hoje o nome soa antipático apenas aos que conhecem a outra parte da história do “pedacinho de terra perdido no mar”. Várias sugestões já foram dadas para que a ilha mudasse mais uma vez de nome. Já se falou em “Ondina”, que segundo a mitologia germânico-escandinava eram ninfas aquáticas de beleza extraordinária. Essas ninfas estariam ligadas à eternidade e efemeridade do amor. O nome é bem apropriado, posto a ilha como um símbolo do amor do Oceano Atlântico, que embora seja conhecedor de todo o corpo de sua amada, não pode adivinhar-lhe o nome exato.

Conquanto as empresas de turismo tenham explorado bastante a expressão “Ilha da Magia”, atualmente os moradores da cidade a chamam carinhosamente de “Floripa”. As ruas do centro ostentam dois nomes em cada placa, o atual e o antigo. Através dos antigos nomes, “Rua do Príncipe”, “Rua da Paz”, “Rua da Saudade”, pode-se flanar também pela atmosfera poética que continua adoçando toda ilha. É quando o caminhante mais sensível observa, na penumbra do palimpsesto urbano, o verdadeiro tesouro da ilha dos nomes flutuantes… Mais do que uma descoberta, um momento de puro amor.

(Charles Silva é poeta da ilha, graduado em História e mestre em Educação)

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