Arquivos Diários: 5 setembro, 2009

PROFECIA de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

Na minha morte

milhões de pássaros vão cantar

por que milhões de pássaros cantam sempre.

Crianças nascerão,

por que  crianças nascem todos os dias.

e como combinado também

muitos homens morreram na mesma hora

que homens morrem a todo minuto.

Flores se abrirão

por mais que aqui seja inverno,

mas em algum lugar do mundo será primavera

e lá as flores se abrirão

E rosas secarão em jardins e floriculturas

Porque a muito tempo que rosas secam nos jardins

e causam prejuízo nas floriculturas

Neste dia uma pomba fará seu primeiro vôo

e nos cantos escuros e camas de toda a terra

haverá êxtases e fecundações

e terá em algum lugar  chuva, em outro sol

em metade do planeta será claro em outra, escuro

como no ing-iang

E posso profetizar

Que na exata hora da minha morte

alguns copos e pratos  se quebrarão

para sempre

por que é corriqueiro que pratos quebrem

VOAR, SEM GLAMOUR por sérgio da costa ramos / floranópolis

Viajar, ser outro em outros países, como poetou Fernando Pessoa, já não desperta os mesmos prazeres dos tempos dourados.

Os acordes de Fly Me to the Moon, ou Come Fly with Me, como festejava Frank Sinatra, resumindo a alegria de voar, transformaram-se em Missa de Réquiem depois do 11 de setembro de 2001. Os terminais se tornaram sucursais do SÉRGIO DA COSTA RAMOS 1hospício, com passageiros tresnoitados, overbookings e hordas de viajantes indignados, entregues à má sorte. As companhias aéreas e os aeroportos simplesmente não conseguiram crescer com a mesma velocidade do “mercado” e naufragam ao peso da incompatibilidade de custos: terminais malconservados ou inadequados, companhias aéreas falidas.

Voar, a partir de qualquer aeroporto rotulado como busy ou “muito ocupado” transformou-se num pequeno calvário. Se o aeroporto se hospeda nos Estados Unidos, onde voaram os “pilotos” de Bin Laden, então, a experiência é ainda mais desagradável. E acaba revogando todos os direitos individuais já conquistados pelos homens nos dois séculos e meio que se seguiram à Constituição de Filadélfia. Até ministro brasileiro já ficou descalço para as autoridades da alfândega, em Nova York…

Voar perdeu o glamour, depois da grande tragédia das torres gêmeas, na mesma Manhattan antes festiva, durante aqueles anos dourados de muito jazz, paz, fleuma e vida mansa.

Os aeroportos estão travestidos num grande formigueiro de moscas assustadas – os passageiros – submetidas aos “zangões” da imigração ou da segurança. Só no segundo trimestre de 2009, cerca de 900 brasileiros tiveram seu acesso negado pelas autoridades do Aeroporto Internacional Roissy-Charles de Gaulle, em Paris.

Foi de brasileiros a nacionalidade mais barrada na França, depois dos chineses – e isto, em pleno Ano da França no Brasil! Por conta desse minueto cultural, as autoridades francesas concordaram em refrear o seu controle draconiano. Mas os aeroportos estão transbordando de mau humor e de intolerância.

As estatísticas comprovam que ainda é muito seguro voar. Mas nunca tantos estiveram tão à mercê de acidentes fatais, como os passageiros da geração “digitalizada”, seus destinos cruzados com os dados de um supercomputador que voa a 10 mil metros de altitude. Quando um desastre aéreo acontece, a tragédia desaba sobre homens e mulheres emboscados no meio da noite – o breu gélido e assustador invadindo os charutos metálicos e os desintegrando ares abaixo, rumo ao cume das montanhas ou ao inóspito assoalho dos oceanos.

Nem por isso o verbo “viajar” deixará de ser conjugado pela humanidade – pois, a despeito dos terroristas ou do mau funcionamento de algum computador, o homem só foge do tédio se o passar dos dias lhe trouxer novos horizontes.

Pena que o preço seja cada vez mais alto. Se não em dinheiro, em dignidade e cidadania. Glamour, nos aeroportos de hoje, só se o passageiro brincar de ser um astro hollywoodiano e desempenhar o papel do “hóspede forçado”, como o Tom Hanks de O Terminal.