JORNAL “A TARDE” (BA) entrevista o poeta MANOEL DE ANDRADE / cássia candra

Autor de uma obra engajada nos ideais revolucionários que incendiaram a América Latina a partir da Revolução Cubana, Manoel de Andrade se tornou alvo do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) e teve de deixar o Brasil em 1969. Seu acervo poético dos anos que se seguiram, ainda inédito no País, vem a público 40 anos depois com a publicação de Poemas para a liberdade (Escrituras).

A poesia política, carregada de emoção, remete a uma saga literária original, que cruzou as fronteiras latino-americanas com jovens mochileiros. Editado em espanhol, Poemas para la libertad chegou à Bolívia, levado por contrabandistas equatorianos, ao Peru, Colômbia, e em 1971, na Califórnia, EUA. Seus poemas são algumas das pérolas da literatura brasileira condenadas ao ostracismo pelo AI-5.

Para o poeta, “Não houve na história um ano com tantas barricadas como em 1968”.


A Tarde – O senhor viveu os anos dourados de sua trajetória revolucionária fora do Brasil. É lamentável que tenha sido assim?
Manoel de Andrade | Pelo saldo sangrento que a Ditadura deixou na nossa história, minha saída foi o passaporte para a minha sobrevivência. Caso contrário, quem sabe não estivesse a responder esta entrevista, já que quando deixei o Brasil estava sendo procurado pelos agentes do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social). Por outro lado, o importante era estar engajado na luta revolucionária, não importa em que país sua trincheira fosse aberta. O que tenho a lamentar foi o vazio em que caiu minha poesia naquela longa ausência e, posteriormente, pelo meu  próprio manecodesinteresse  ante as dificuldades de expressão ideológica nos anos que antecederam a abertura democrática.  Em 1968 meus versos começavam a ter notoriedade nacional, sobretudo pela sua publicação pela Revista Civilização Brasileira e o amplo destaque que vinha tendo na imprensa do Paraná. A partir da minha saída, em março de 1969,  meus versos vieram à luz em outros berços fraternos, contudo não tiveram a insubstituível carícia da pátria, nem o leite materno da língua portuguesa.

AT – Esta experiência foi capaz de gerar, consciente e gradativamente, um cidadão latino- americano?
MA | Sempre me senti um cidadão do mundo. Sentir-se latino-americano é uma postura  natural quer pelas nossas origens latinas e ibéricas, quer pelo respeito à herança cultural pré-colombiana e a própria da história libertária do Continente. Esta consciência nos coloca, antes de tudo, diante de uma memória colonial de crimes e injustiças inomináveis. Diante de sua memória o ofício do escritor é sempre um compromisso de resgate, de testemunho, de acusação e de esperança e neste sentido minha experiência de caminhante  ampliou minha consciência e, consequentemente, as dimensões dessa cidadania.

AT – No prefácio de seu livro Poemas para a liberdade o senhor diz que em 2008 sua geração “foi colocada no divã da história para fazer a psicanálise de suas ações e omissões”. Como o senhor se sente neste processo?
MA | Sinto-me muito solitário, a exemplo de outros tantos que ousaram preservar seus sonhos. A recente história política do país é um farto repositório de omissões e concessões. Mas depois de tantos escândalos é irrelevante explicitar exemplos. Os encantos do poder reuniram na pátria romanos e cartagineses e,  diante das tantas benesses,  as grandes bandeiras foram arriadas e os ideais emudeceram de vergonha. Foram tantas as sementes lançadas pelos nossos sonhos ao longo do país e do Continente. Muitas delas foram sacrificadas. Outras morreram quando mataram nossa utopia. Algumas, contudo, se preservaram no meio de tanto desencanto, resistiram às ilusões do poder e  sobreviveram com suas cicatrizes, incorruptíveis na dor e ao silêncio. Algumas dessas sementes são hoje flores solitárias num mundo político com cartas marcadas. Sobrevivem porque ainda sonham. Sabem que no mundo não há mais lugar para heróis e muito menos para o homem novo. Estamos mesmificados pela globalização e, nesta ribalta, somente os mitos são iluminados. Penso que todos aqueles que empunharam suas bandeiras naquela década de lutas deveriam honrar ainda essa memória. Nunca tivemos na história do mundo um ano com tantas barricadas como o ano de 1968. Nesse contexto, meus poemas foram apenas uma solitária expressão daquela luta, porque, nos anais dessa memória, todos  sabem que  os verdadeiros poemas da bravura não foram escritos em versos. Contudo esse foi o principal motivo porque resolvi, quarenta anos depois, publicar no Brasil os meus Poemas para a liberdade.

AT – Que Manoel de Andrade nasceu daquele processo revolucionário?
MA | Nasceu um cidadão comprometido com todos os homens.  Que já não acredita na violência revolucionária para mudar o mundo e que para isso todos devem dar as mãos para empunhar as  bandeiras da educação e da paz. Que ainda acredita no sonho de um mundo socialista.
Um homem iluminado pelo sol da liberdade e  cujo coração é uma aldeia da solidariedade. Um homem despojado de interesses pessoais.  Preocupado com a justiça, com o amor ao semelhante e a caridade para os excluídos. Um homem escravo da sua consciência e que busca nunca fazer a ninguém o que não gostaria para si mesmo. Que aprendeu a combater o bom combate, disposto a dar a outra face e perdoar as ofensas. Um homem que respeita o Criador e todas as criaturas, que vê o mundo como poeta e que acredita que a poesia e a música são as mais belas expressões da alma humana.  Um homem preocupado com sua  transformação moral e que luta para transformar seu egoísmo em amor e seu orgulho em humildade.

AT – O senhor transformou política em poesia. Que consciência tinha, naquela época, do poder dos seus versos?
MA | Meus poemas políticos  nasceram pela consciência histórica que tive do meu tempo. Em 1965, um ano depois de golpe militar, participei da Noite da Poesia Paranaense, no Teatro Guaira e ali, entre os quatorze poetas convidados, fui o único a encarar a ditadura  com o poema “A Náusea” que consta deste livro. A partir de então  minha poesia foi se engajando nos ideais revolucionários da época. A revolução Cubana era o nosso farol aceso no Caribe e ao longo da América Latina os movimentos de liberação nacional abriam suas trincheiras. Eu era estudante de Direito e depois de História e declamava meus poemas entre os estudantes e em  passeatas de protesto, panfletava suas cópias mimeografadas nos ambientes da Universidade e os publicava nos boletins acadêmicos. Não sei se naquela época eu tinha consciência do poder dos meus versos, mas embora soubesse que com a poesia não se podia mudar o mundo eu acreditava que no contexto político em que vivíamos no Brasil, o papel do intelectual, e sobretudo do poeta, era comprometer-se politicamente com a época em que vivia, como fizera Castro Alves ante da escravidão,  Maiakovski na Revolução Russa e tantos outros como Byron, Garcia Lorca, Marti, Vallejo, Miguel Hernandez, Nazim Hikmet, Guillén, Neruda, Evtuchenko e depois aqui mesmo no Brasil com Thiago de Mello, Moacyr Felix, Ferreira Gullar, etc. Se meus versos tinham ou não poder que o digam os arquivos da ditadura no Paraná  onde constam cópias mimeografadas de meu poema “Saudação a Che Guevara” — panfletado nos meios estudantis e sindicais de Curitiba em novembro de 1968 –, bem como o registro de minhas atividades e das quatro edições dos meus “Poemas para La Libertad”, na América Latina. Que o digam também os registros da ABIN, em Brasília, relatando minhas atividades como intelectual, e “difamando o nome do Brasil no exterior”. Por certo o poder da minha poesia estava em seus versos libertários, seu poder de denúncia, em sua ânsia de convocação para um sonho que contagiava um continente inteiro e por eram também um lírico manifesto de esperança em um mundo novo.

AT – Como avalia o movimento que vivenciou? Que cidadãos e que sociedade foram gerados naquele processo revolucionário?
MA | Foram muitas sementes lançadas pelas vanguardas revolucionárias em todo o mundo, mas, à semelhança da “Parábola do Semeador”, a maioria delas se perdeu pelos caminhos, ou caiu entre as pedras e no meio dos espinhos. A exemplo da simbologia cristã, muitas daquelas sementes não brotaram porque caíram no terreno árido dos longos anos de ditaduras que reprimiram várias gerações  latino-americanas, deixando a juventude órfão de valores políticos e culturais. Outras brotaram, mas suas raízes não mais encontraram, no tempo, o terreno histórico para fecundar suas flores e seus frutos e outras ainda foram sufocadas pelos espinhos do capitalismo perverso e suas ilusões consumistas. As poucas sementes que caíram na boa terra brotaram e se preservaram imaculadas na seiva do ideal. Contudo os tempos já eram outros, marcados pelos cacos das grandes ideologias e seus sonhos foram marginalizadas pelo oportunismo dos seus próprios pares e pelos interesses e equívocos de uma sociedade dominada pela esperteza, pela corrupção e pelo hedonismo. Escrevi, no ano passado, pela memória dos quarenta anos de 1968, quatro artigos enfocando o problema estudantil no Brasil e no Mundo e sua opção pela luta armada na América Latina. Toda a essência desta pergunta e sua resposta estão avaliadas nas considerações finais do 4º artigo: As barricadas que abalaram o mundo”, à disposição na Internet.

AT – Qual o seu olhar sobre a América Latina hoje?
MA | É historicamente gratificante ver a América Latina representada politicamente por uma grande mobilidade social.  Na Venezuela, na Bolívia e no Equador o apoio popular tem permitido avanços mais profundos nas estruturas sociais, visando abolir seculares desigualdades de classes. É um período de transição, em que os governos mais corajosos começam a desterrar as teses  neoliberais que dominaram a política do Continente no século passado. Creio que finalmente a América Latina começa a despertar para o mundo, política e economicamente. É desejável que a integração do Brasil com a América Latina se torne ainda muito mais fraterna.

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