NOSSA VINGANÇA por alceu sperança / cascavel.pr

Quando perdemos amigos involuntariamente, por motivos externos, parece que um mecanismo igualmente involuntário é acionado. Pensamos que se estivéssemos mais presentes, solidários ou parceiros poderíamos ter evitado essa perda. E vem aquela ideia, que por vezes acode apenas por alguns poucos e fugazes momentos, de que pelo menos agora deveríamos ser mais presentes, solidários e parceiros dos amigos que ficam.

Agora mesmo sentimos a perda do artista plástico Wanderley Damasceno, como sentimos antes as perdas do Andrezinho Costi e do advogado Aírton Reis, sobre os quais a colega Lara Sfair e o eterno camarada Mário de OliveiraAlceu sperança  - AJC (1) já teceram memoráveis referências.

Sobre o André, tenho a declarar que um dia chegamos a tramar o esboço de um festival de música, um Woodstock cascavelense, a partir de uma idéia fixa do companheiro Chicão Lustosa.

Sobre o dr. Aírton, vale a recordação agradecida de Mário Ferreira de Oliveira. Quando Mário foi preso, na ditadura, acusado de montar um arsenal de armas para uma inexistente “subversão comunista” do PCB, o dr. Aírton Reis foi defendê-lo.

Reis não só foi impedido de verificar as dramáticas condições carcerárias em que Mário estava, sofrendo ofensas e torturas, como também ele próprio foi maltratado. São episódios que não podem ficar esquecidos nem ocultos.

Curiosamente, nosso Wanderley Damasceno, o último a pular daqui pra lá, ao ser recrutado pelo PCB tomou a iniciativa de reunir armas para uma tomada de assalto ao prédio da Prefeitura de Cascavel. Fui o encarregado de dizer a ele que a ação era descabida: a revolução percorre os caminhos da consciência política, não os da aventura irresponsável.

Coisa difícil de dizer a um entusiasmado camarada, pois eu próprio achei a coisa de um romantismo fenomenal e até senti vontade de participar!

Se não pudemos ser mais solidários, presentes ou parceiros de Damasceno, Andrezinho, Aírton, da menininha Emanuele, assassinada no acampamento de sem-terras, da garota executada no Bobódromo, dos idosos e das crianças que sucumbem à violência do trânsito, dos que sofrem as epidemias de gripe suína, dengue e hepatite resultantes da falsa “prioridade” à saúde, dos jovens trucidados na periferia, temos ao menos que estar e ser presentes, solidários e parceiros dos familiares e amigos que sobrevivem e procuram, com amor e emoção, transformar este chamado “vale de lágrimas” num planalto de humanidade, carinho e construção.

Sem deixar de derramar as lágrimas cabíveis, pois continuam chorando em nossa Pátria mãe gentil as Marias e Clarices, devemos ter claro que nenhuma homenagem seria mais necessária, suficiente e eficaz aos nossos mortos que zelar fraternalmente pelos que ficam.

Para que não se desesperem, para que se reanimem, para que reforcem o ímpeto progressista de sua missão nesta vida e neste solo. Para que combatam a chaga triste da exploração do trabalho humano, do enriquecimento com o sofrimento dos homens, do neoliberalismo e seu aquecimento global, do espírito belicoso e ofensivo da indústria de armas, da sanha homicida dos senhores da droga e das finanças, do culto à filosofia hobbesiana de que “o homem é o lobo do homem”.

Que uma dor assim pungente não seja inutilmente a derrota, o entregar dos pontos, a desistência de tornar este mundo melhor para os familiares dos nossos mortos, para seus amigos que ficam e querem extrair dessas dores e lágrimas todas a melhor vingança possível.

E qual seria ela? A transformação do Brasil num país melhor, mesmo sendo hoje oprimido pela conversa mole de Lula e seus parceiros, liquidando direitos, trapaceando com a poupança dos pobres e o dinheiro dos trabalhadores, em seu papel odioso de agentes internos, a quinta-coluna do neoliberalismo.

E a vingança maior de transformar este mundo num lugar melhor para viver, pois isso, apesar das dores pungentes, das lágrimas e das armas quentes, é não só possível como absoluta e inevitavelmente necessário/obrigatório se não queremos abdicar de nossa humanidade e de manter a vida soberana sobre este planeta.

Haverá luz e alegria no fim do túnel. Mas ainda temos que cavá-lo.

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