MENINA E PAI por jorge lescano / são paulo

In memoriam Luanda Lescano

A menina estica o braço, abre a mão, os delicados dedos improvisam uma coreografia. A mão do pai rasga o pão. A crosta dourada crepita em surdina, libera o morno aroma do miolo tenro. O homem deposita o pedaço de pão na mão da filha. A menina recebe a dádiva com gesto natural. Seus dentes repetem o som ao entrar em atrito com a casca, ela sorri, os olhos fixos no rosto do homem. Ele a observa. Seus olhos parecem procurar algo muito distante no espaço, ou talvez alguma imagem antiga. Sem o saber, ambos vivem um ritual.

Os gestos de dar e receber o pão são dos mais antigos da vida familiar, pois o pão é o primeiro alimento fabricado pelo homem. Até aquele momento fundador, a espécie se alimentava com o que conseguisse colher da natureza. A cozinha limitava-se a cozer verduras, raízes, assar a carne da caça e da pesca.

Houve um momento em que a mulher plantou a semente e a família deu início à cerimônia da espera da maturação. A família colheu a espiga, moeu o grão. A mãe fez massa da farinha e a levou ao forno de onde saiu transformada em pão. Não é improvável que naquele dia este fosse o único alimento consumido, para melhor apreciá-lo. É possível que aquele dia prefigurasse muitos outros em que o pão, tornado símbolo, se multiplicasse nas mãos do pai, do chefe da tribo, do messias. Desde então sua presença, ou ausência, revela a condição dos que se reúnem em torno da mesa.

Talvez o homem pense nisto, sequer de modo obscuro, ao entregar o pão e ver a filha apanhá-lo com seu sorriso de criança e sem hesitar levá-lo à boca. Talvez o pai tente imaginar se aquele instante virá a fazer parte das lembranças da menina quando ele não mais estiver no mundo. Talvez ela guarde para sempre o olhar do pai no momento da oferta. O silêncio e a lentidão com que se deu o ato permitem estas especulações.

3 Respostas

  1. Olá poeta, custei a vir até aqui ler-te, mas é com imensa alegria que encontro mais um de seus belos textos. Tão forte, tão direto que nos leva sempre a uma reflexão.
    Obrigada por mais esta oportunidade.
    Saudades, SanMara.

  2. Caro Lescano, tenho lido muitos belos textos neste site, mas este teu post é especial. Especial pelo que ele sugere à reflexão. Especial pelo que disse e, sobretudo, pelo que deixou de dizer, pela porta íntima que abre em cada um de nós para avaliarmos a carga superlativa que a palavra PÃO carrega. Quer gráfica, quer foneticamente, este singelo vocábulo transporta um dos mais belos padrões vibratórios na simbologia emocional do homem. É uma imagem poderosa de fraternidade, uma insubstituível metáfora poética, um arquétipo que abrange todo o significado da vida quando rogamos em prece pelo pão nosso de cada dia. Pela sua transcendência espiritual quando Jesus de Nazaré nos revela: “eu sou o pão da vida e quem vem a mim nunca mais tem fome”. E por outros significados consagrados pela fé nos pães multiplicados do cristianismo e no pão ázino do judaísmo comemorando o alimento preparado sem fermento na fuga do Egito.Num mundo marcado por chocantes contrastes, onde tantos recolhem as migalhas que caem das mesas fartas. Num mundo onde a miséria mostra o trágico retrato da indignidade humana, quiséramos que pelo menos o PÃO SENTIMENTO nunca faltasse como gesto de solidariedade entre os homens e o PÃO ALIMENTO, partilhado pelo amor, “crepitasse morno” nas mãos de quem tem fome.

    1. Caro Manoel, agradeço suas palavras, elas sugerem que me aproximei do objetivo. Para você, o pão e o sal da amizade.

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