Arquivos Diários: 9 setembro, 2009

O MERCADO EDITORIAL BRASILEIRO APRESENTA O SEU RECENTE “BEST SELLER”

REVISTA "VIP" para "MODELOS".

REVISTA "VIP" para "MODELOS".

o mercado editorial brasileiro produz e distribui, de forma massiva, em livrarias e bancas de jornais, esta formidável revista de entretenimento e cultura para as nossas jovens que sonham em ser modelos de grandes grifes ou “relações públicas” de casas de espetáculo. a manchete da revista mostra como ela tem a intenção e pode “ajudar” as meninas brasileiras a se encaminharem na vida “profissional”. indico tal revista, como uma das representantes do mercado editorial, para receber TODOS os prêmios de literatura nacionais. enquanto isso, o judiciário brasileiro censura a nossa imprensa por publicar crimes de natureza pública.

jb vidal

COMO SE POLUI UM RIO (PARTE I) por gil portugal / rio de janeiro

Em realidade, despoluir ou não poluir um rio é uma tarefa de múltiplas facetas e exige atuações postas tais quais um feixe de retas paralelas em uma mesma direção.

Em primeiro lugar, para coordenar idéias, compete definir aquilo que é, para um rio, o seu elemento ou elementos vitais, a partir de que ele será um rio “com saúde”.

Desculpem-me se, daqui para frente, passarei a escrever sobre o óbvio mas, se o farei, nada mais é que para ordenar a linha de pensamento.

Na massa d’água corrente de um rio existem um sem número de organismos vivos dos reinos vegetal e animal e em todos os graus de entrosamento. É um ecossistema. E a Natureza nos ensina que todo ecossistema tem que viver harmoniosamente.

Vejamos, para começar, o reino animal que está presente no rio. A grande maioria de seus membros, devido ao rio, sobrevive, porque ali se alimenta e respira (oxigênio) ar e por isso, eles são animais aeróbios. Se não existissem no rio alimento ou ar eles morreriam. Com isso, tira-se a primeira conclusão: o ar, isto é, o oxigênio é peça indispensável para a sobrevivência do ecossistema, da mesma forma que o alimento, como para qualquer animal, e que, neste caso é a matéria orgânica. Acontece que a respiração é a função primordial, visto que, à sua falta o animal perece de imediato, donde se conclui que o oxigênio é a matéria prima fundamental para a sobrevivência do ecossistema rio.

Basicamente, o oxigênio estará presente na massa líquida por dois processos: a diluição em contato com o ar atmosférico e a fotossíntese devida aos vegetais. E aí, podemos chegar à primeira grande conclusão: se não houver diluição de contato e fotossíntese somadas em quantidade suficiente, fornecendo oxigênio para atender a fauna, ela perecerá gradativamente, até a posição de equilíbrio com a demanda.

O animal respira oxigênio e expira CO2 (dióxido de carbono), se alimenta de matéria orgânica e a transforma em minerais; a planta absorve o CO2 e através da fotossíntese, regenera o oxigênio.

Essa teoria é límpida e certa e com ela, podemos analisar um a um os fatos que fazem “adoecer” um rio e, com isso, nominar cada reta do nosso feixe de paralelas citado. Vejamos:

Desmatamentos – A retirada de um vegetal do solo ou mesmo sua morte, enfraquecerá a resistência mecânica desse solo graças a fixação que havia pelas raízes. Ao perder essa resistência, as águas de chuva iniciam um processo de erosão que, invariavelmente, mesmo que longe do curso d’água, irá carregar para os leitos desse curso, quantidades anormais de sólidos, levando ao processo de assoreamento.

O assoreamento conduz a dois acontecimentos, um deles de caráter não ambiental propriamente dito, que é a diminuição da seção fluída e com isso, provocará alagamento extra-caixa do rio e o outro ambiental, que se dá pelo soterramento dos vegetais de fundo e inibição da penetração para eles do oxigênio, passando, aí, a ocorrer outro processo de decomposição do material orgânico soterrado – sem a presença de oxigênio – através de organismos ditos anaeróbios (que não necessitam do oxigênio dissolvido para respirarem) mas que, ao invés de darem como produto o dióxido de carbono e minerais (insumos para a fotossíntese), produzirão gases derivados de carbono e do enxofre como o metano, as mercaptanas e os gases sulfurosos, venenos para a fauna aeróbia.

Agrotóxicos – São substâncias utilizadas em plantações com a finalidade de matar organismos nocivos à saúde dessas plantações; evidentemente que, essas substâncias, mais cedo ou mais tarde, pelas chuvas, serão carreadas para um curso d’água, continuando ali seu efeito tóxico sobre outros organismos que não aqueles a que se destinavam eliminar. Tais organismos, principalmente os microorganismos, são exatamente aqueles que se encarregam de fazer a decomposição das substâncias orgânicas no seio da massa líquida e se eles estão mortos ou doentes, funcionarão como mais alimentos a serem consumidos, ao invés de transformadores de alimentos.

Adubos – São substâncias colocadas em plantações com a finalidade de abastecê-las de seus elementos vitais como o nitrogênio, o potássio e o fósforo, são as “vitaminas” da flora e estimulam seu crescimento. De uma forma ou de outra, parte desses adubos serão carregados para os rios e ali incentivarão o crescimento dos vegetais aquáticos, principalmente os minúsculos como as algas e esse crescimento exagerado fará acontecer o fenômeno de eutrofização (proliferação exagerada de vegetais) que turvará de verde as águas, dificultando a penetração de luz solar, imprescindível à fotossíntese (que é geradora de oxigênio).

Barragens – O turbilhonamento das águas é fator que facilita a dissolução de oxigênio do ar na água. Se as águas ficam tranqüilas, caso das águas barradas, a tendência à oxigenação diminui à montante (antes) da barragem e também, fica facilitada a deposição de poluentes pesados que comprometem o ecossistema; de positivo, nesse caso, há um favorecimento na depuração das águas à jusante (depois).(continua…)

angela – de jorge barbosa filho / curitiba

angela

essa moça

quando canta blues

lembra a leveza

de um zagueiro

do Bangu.

e quando canta

leva a certeza

de um drible de língua

e um beijo

por de baixo das pernas.

essa moça canta

uma partida

de um amor perdido

mas no último minuto

ganha-o no grito.

horas ácidas – de charles silva / florianópolis

seis horas
ela já vem vaidosa
de corpete liga e lingerie
a noite é uma fêmea impecável
sombra e rímel realçam a malícia
as unhas compridas aguardam o descuido das presas
são fantasmas que como eu percorrem os becos em busca de gozo fácil

sete e meia
o amendoim salgado alegra o gosto adocicado da cerveja
mulheres passam tingindo pêlos passos pensamentos
o que há em mim de fantasma não se apressa
o blefe da noite é comprido
os jogos noturnos implicam baralhos sutis
são lances de olhares coringas febris e damas que trocam seus pares

oito e quarenta e sete
um fantasma perambula pelas ruas da cidade
o mistério dessas margens é fazer dos habitantes uma ilha
por não saber nadar fico preso seco e viro pó

dez gramas e meio
agora o copo é de uísque
novos fantasmas sorriem pra mim
desenvolvo argumentos fantásticos que nunca usei
pensá-los assim tão vivos alegres arregalados assusta
da janela uma mulher astuta me deseja
ou deseja apenas o que a língua acusa

um ácido e meio
a ilha inteira flutua
surfistas abotoam o vestido das ondas
por que meus pais não me contaram essa história?
bungee jumpo-me do mundo!

duas torradas com pasta de cogumelo
as cadeiras jantam os garçons
corro e caio e exponho os ossos
ergo-me lobato cobra norato aladim
os ladrões de ali babá já somam dezesseis bentos
alice mata um coelho
bovary papa um convento

cinco ecstasys e meio da madrugada
pouca ilha… muita água
a língua trava

INTI PEREDO – 40 ANOS DA MORTE DE UM BRAVO – por manoel de andrade / curitiba

Após quatro meses no Chile, cheguei em La Paz em 02 de setembro de 1969. Trazia uma referência de Santiago para contato com um membro de Exército de Liberação Nacional da Bolívia (ELNB), onde pretendia ingressar.

Ambientava-me ainda na cidade, quando ao fim daquela primeira semana o país foi sacudido por uma trágica notícia: o guerrilheiro Inti Peredo, comandante do ELNB fora morto por forças combinadas da Polícia e do Exército num bairro central  de La Paz.

Lugar-tenente de Che Guevara na guerrilha boliviana, sobrevivente do trágico combate na Quebrada do Yuro em outubro de 1967, estrategista da audaciosa retirada pela fronteira com o Chile, onde o esperava o senador Salvador Allende e reorganizador da luta armada na Bolívia depois da morte do Che, o guerrilheiro Inti Peredo, morreu assassinado aos 32 anos, no dia 09 de setembro de 1969.

Nascido em 30 de abril de 1937, em Cochabamba, Alvaro Inti Peredo Leigue era  filho do escritor boliviano Rômulo Peredo. Aos 13 anos já militava no Partido Comunista Boliviano, seguindo muito jovem para estudar na escola do Partido no Chile e dali para Moscou em 1962 para um curso político. No ano seguinte, já de volta, desloca-se para o norte da Argentina, dando apoio ao Exército Guerrilheiro do Povo, dirigido pelo jornalista Jorge Ricardo Masetti, na região de Salta. Posteriormente colabora com a guerrilha peruana e em 1966 faz treinamento militar em Cuba. Volta a Bolívia em 1967, rompe com Mario Monje, secretário geral do Partido Comunista Boliviano e adere à guerrilha comandada por Che Guevara.

Sobrevivente de Ñacahuazu, escapa pela fronteira do Chile, volta a Cuba e em maio de 1969 retorna clandestinamente à Bolívia para reorganizar a guerrilha. Dois meses depois, lança sua mensagem “Voltaremos às Montanhas”, que comoveu o opinião pública do país e deu início a sua brutal perseguição por parte do governo. Delatado seu esconderijo em La Paz, a casa  foi cercada  e sozinho resistiu por uma hora ao ataque de 150 policiais e militares, até que uma granada lançada por uma janela o feriu gravemente.  Arrombada a porta, finalmente foi preso, sem jamais ter se rendido.

Inti Peredo foi selvagemente torturado pelo seu heroico silêncio e barbaramente assassinado a cuteladas de fuzil pelo sanguinário coronel Roberto Toto Quintanilla, o mesmo que mandou cortar as mãos do cadáver do Che, em La Higuera.

Diante de sua morte, meus planos foram totalmente frustrados. Convidado, naqueles dias para participar do Segundo Congresso Nacional de Poetas,  a realizar-se em Cochabamba,  entre 22 e 27 de setembro, transformei minha frustração e minha revolta em versos escrevendo  um poema em homenagem a Inti Peredo,  para dizê-lo, correndo todos os riscos, em pleno Congresso.  Foi meu primeiro poema escrito em espanhol e no dia 25, ao encerrar minha apresentação ante o grande auditório do Palácio da Cultura, declamei o poema: “El guerrilleiro”, explicitando meu tributo poético ao grande combatente assassinado há duas semanas em La Paz.

A Bolívia, naqueles dias, respirava uma pesada atmosfera de golpe e em 26 de setembro cai o presidente democrata Luis Adolfo Siles Salinas e toma o poder e general Alfredo Ovando Candia, responsável pelo grande massacre de mineiros, em junho de 1967, conhecido como “La noche de San Juan”. No dia seguinte fui detido, interrogado e posteriormente liberado por intervenção dos organizadores do Congresso, com a condição que deixasse o país em 48 horas.

Neste 09 de setembro de 2009, solidário com a memória das lutas da América Latina e comemorando o aniversário de morte de Inti Peredo, publico aqui  o poema “ O guerrilheiro”,  em espanhol, escrito exatamente há quarenta anos, em Cochabamba, como meu lírico tributo a um dos maiores revolucionários do Continente.

coco_peredo_nato_loyola_guzman_Inti_402x256na foto: coco peredo, nato, loyola guzmán e inti peredo na selva boliviana.

El guerrillero

En memoria de Inti Peredo

El guerrillero, señores

es un sueño armado que marcha

en el suelo injusto de la patria.

Sabe que quien tiene la tierra

no la reparte sin guerra…

y en ese áspero camino

es um pájaro sin nido

migrando para el porvenir.

.

el guerrillero, señores

es una flor clandestina

que se abre en la mata inmensa

cuando los ecos de la montaña

rompen el silencio del tiempo

y revelan el puño escondido

en las manos agrarias de un pueblo.

.

Su cuerpo… es su trinchera,

su vida por una bandera…

por su honor, por su fe

y su destino trazado.

Si cae… sigue erguido en la verdad

cuando la voz de la libertad

sorviendo la taza de hiel

es un grito asesinado.

.

Ay qué dureza en tus puños

hijo querido del pueblo.

Con qué ternura forjaste

tu corazón de granada

Pues abatieron este hombre

es la esperanza sangrada

y vivo está con su fuego

renaciendo en cada niño

ay, niño sin hogar, sin pan

tu heroico padre de estaño

fue minero masacrado

en una noche de San Juan

.

En la memoria del pueblo

en la sangre continental

fue tu estatua de espanto

que yo esculpí con mi canto

con mi dolor de extranjero

ay, hermano boliviano

ay, un sol asesinado

en tu cuerpo de sendero.

.

pero el alba rompe el día

en la patria y en el corazón

y vivo estás compañero

en el rastro azul de tus pasos.

Ay qué destino tan lindo

América como bandera…

Señores, no tengo patria

soy latino y americano

y e1 guerrillero más bravo

no conoció las fronteras.

.

Compañeros, camaradas

ya es la hora de partir…

Camilo Torres, Guevara

Inti Peredo y Sandino

enseñaron que el sueño

es la palanca del destino.

Pues canten siempre en mi canto

los mártires de la libertad

pocos pueden presentir

que detrás del velo del tiempo

los coágulos de su sangre

son el pan del porvenir.

.

Cochabamba, septiembre de 1969

Este poema, en versión bilingüe, consta del libro

POEMAS  PARA A LIBERDADE, editado por Escrituras