Arquivos Diários: 14 setembro, 2009

EDITOR DE ANIVERSÁRIO fecha o site e vai PARA O ABRAÇO! até amanhã!

faço uso da oportunidade para agradecer aos PALAVREIROS DA HORA que acreditaram e foram à luta produzir suas escrituras para que este projeto desse certo, como deu. agradecer também aos inúmeros colaboradores que ao acessarem a página, confiaram no padrão de produção artística e cultural, aqui veiculada, e passaram a enviar seus trabalhos que vieram enriquecer nosso conteúdo. e, finalmente, aos responsáveis por nosso sucesso no mundo virtual, os leitores. desejo, pois, muita saúde e alegrias durante a construção de suas vidas.

BEBE FAZENDO XIXI - DE LECO REISsó para lembrarem: eu já FUI assim! foto de leco reis.

deixo aqui um pequeno conto que faz parte do livro: DO PÃO QUE O DIABO AMASSOU ATÉ DEUS COMEU a ser editado assim que encontrar um editor disponível:

.

A INTELECTUAL PELADA

jb vidal

primavera de 1994

era uma fase em que passava o tempo disponível fechado em meu quarto lendo. lia muito. Altusser, Fernando Pessoa, Lênin, Álvares de Azevedo, Rosa de Luxemburgo, Castro Alves, Hegel, Mário Quintana, Goethe, Pedro Nava, Spinoza, García Lorca, Camus e outros, e outros. filósofos e poetas sempre me perseguiram. como fantasmas. quando entro nas livrarias, eles me chamam, me puxam pelo braço, quando me dou conta já tenho nas mãos um deles. alguns valeram a pena, outros, uma merda. aos treze anos já escrevia algumas poesias de cunho romântico e alguns textos cujo conteúdo tinham as cores da esperança.

para relaxar, ia até a sacada  fumar um fininho refletindo sobre o que havia lido. leituras difíceis para um adolescente de dezesseis anos.  sem ajuda para interpretar. no seco.

“aquela mulher está me olhando” observei durante uma longa tragada.

quem indicava a leitura? explico. eu morava em Porto Alegre, na Av. Borges de Medeiros no. 1042, décimo andar, apartamento 102, Edifício Império. eu e minha mãe, dona Silvia. no mesmo endereço, segundo andar, residia a mãe do Érico Veríssimo. conversamos algumas vezes, quando ele ia visitá-la. ao acaso. presenteou-me com algumas de suas obras.

porque os dados acima? não sei. que fiquem. talvez sirvam para algum biógrafo eh, eh, eh, eh, eh!

pois bem, numa das lojas do térreo,  estava instalada a Livraria Sulina, uma das grandes da época e ponto de venda do Érico. o proprietário, seu Lory, que certa vez encontrou-me,  com o grande escritor, conversando no all do edifício, sugeria, quando lhe perguntava “o que devo ler de bom?” nem tudo que li, é claro; bom? o que é isso? quanta ingenuidade! comprei poucos. não tinha grana. emprestava-me com a recomendação de não marcá-los. nunca devolvia. continuava “emprestando”. aquela conversa flagrada, com o Érico, era o meu aval sem que eu soubesse.

anos depois, reli alguns. o entendimento foi outro. fruto da observação. da vivência. então, de que valeu a leitura? para compreender o pensamento do autor tive que viver! que se foda então. o autor é claro.

numa dessas idas à sacada para umas “baforadas”, notei uma mulher na janela de um apartamento no edifício em frente, o Yucatan, olhando-me. contei os andares. oitavo.

eu a olhava. ela à mim.  sorriu. sorri.

no dia seguinte, a mesma cena. só que, enquanto eu enrolava um baseado, encostado na porta que se abria para a sacada, ela recuou para o centro da sala e começou a despir-se até ficar completamente nua. uma nuvem cúmplice deixou de encobrir o sol.

olha para mim, sorri e dá umas voltas em torno de si mesma, como bailarina de caixa de música. na pele, extremamente branca, o morro de vênus sobressaía.

não sabia o que pensar diante do inusitado. mas gostei. sentia  algo mexendo-se em mim.

repetiu. nesse dia e nos seguintes.

lia menos e fumava mais. mais sacada. perdi a conta das punhetas.

também não sei se contava.

não entendia o meu interesse por uma velha que deveria ter uns setenta anos, murcha, decrépita e tudo mais que cabe a um velho, imaginava. não entendia, mas havia. provavelmente a expectativa de uma trepada, o que naqueles tempos era coisa rara fora dos prostíbulos.

certo dia, enchi-me de coragem e, mímicamente, fiz um sinal de que iria até o seu apartamento. aquiesceu de pronto. enquanto aguardava o elevador, no seu prédio, tive uma ereção espontânea.

recebeu-me de quimono verde com grandes flores bordadas, muito coloridas.

o perfume que exalava de seu corpo e o cheiro de café recém passado tomavam conta da sala que segurava nas paredes algumas telas, me inquietaram. algo se movia dentro de mim, indelével, de maneira suave  absorvia o impacto do ambiente, confortavelmente, na minha ignorância.

sorriso simpático. olhos azuis. à mim, pareceu, que ali eram as nascentes dos oceanos. guardava traços bonitos no rosto, apesar das gelhas profundas. o coração acelerado. o pau, duro. como uma rocha; disfarçava, segurando-o com a mão esquerda pelo bolso da calça. senti alguma umidade.

“sente-se” disse oferecendo o sofá “você é prisioneiro naquele quarto?” perguntou sorrindo “não” respondi como se estivesse com a boca cheia de areia.

o planeta sumiu e eu não sabia onde estava!

com voz serena, indagando à meu respeito e abordando temas que pudessem me interessar, ela conduziu com traquilidade aquele instante. serviu  café.  sabia que estava tenso.

alisou-me o rosto. esse gesto foi uma merda. deixou-me menor do que estava me sentindo.  não era sua intenção, hoje  eu sei. mas fiquei puto!

em meia hora dávamos gargalhadas. tirei a mão do bolso. já não era necessário ele amolecera. “que mulher maravilhosa” repetia  meu pensamento. este encontro durou  entorno de duas horas.

levou-me até a porta segurando minha mão e depositou, suavemente, um beijo em meu rosto ( descrição de mau gosto, segundo um critico de merda), mas esse beijo foi o pingo de prata, em meus olhos de recém nascido!

nunca mais se despiu no centro da sala.

novos encontros. muitos. ela alfabetizava minha alma.

entre tantos autores, que havia lido, entusiasmava-se com Sartre e Simone. alcançamos muitas madrugadas discutindo sobre suas obras, as quais passei a ler por sua influência.

eu crescia. quer dizer, dava os primeiros passos em direção à compreensão da miséria humana. não é isso? pense melhor.

deixava ler suas poesias; ria muito quando dizia “não entendi”.

nunca explicava.

algumas vezes, passeávamos por horas no Parque da Redenção, conversando sobre os mais variados assuntos. filosofia e arte eram seus preferidos. eu não era, nem de longe, o interlocutor ideal. ela sabia disso. investia. minhas primeiras babas críticas, sobre a humanidade, começaram a escorrer.

nessas ocasiões, vez por outra, tinha que colocar a  mão no bolso esquerdo.

assim foi, por quase dois anos. sexo? de nenhum tipo. jamais, sequer, insinuou que desejava foder comigo. também  não perguntei porque havia dançado nua para mim.

aquele momento, tornara-se parte da apresentação.

foi num verão, em certa manhã, as janelas do seu apartamento permaneceram fechadas. por muitos anos mais, morei naquele endereço e fumei alguns  baseados com o  olhar fixo na janela da sala…  permaneceram fechadas.

nunca mais a vi.

confesso, que algumas vezes chorei quando olhava o oitavo andar do Yucatan.

saudades Helga.

.

JB VIDAL - EM CASA NO FOGÃO A LENHA 018o autor.