Arquivos Diários: 16 setembro, 2009

Eu já… – de manoel antonio bonfim / natal.rn


Já enxuguei as lágrimas…

… que dos meus olhos ainda não escorreram…

Já me refiz do medo….

… que ainda não tive…

Já rasguei as páginas do diário…

… que ainda não escrevi…

Já protestei a gritos…

… contra aqueles que se calaram…

Já cuspi nas palavras céticas…

… que ainda não pronunciei…

Já fiz o balanço de um Brasil…

… que ainda não vivi…

Já li as manchetes….

… que ainda não publicaram…

Já escutei as músicas…

… que escritas, ainda não foram…

Já chorei as mágoas…

… que ainda não senti…

Já solucei o pranto….

… antes mesmo de chorar…

Já vivi num futuro…

… que ainda não vêio…

Vou chegar num mundo….

… Que nunca existirá…

Pois, eu sou alguém…

… Que ninguém nunca vai conhecer…

Chuva com Velhos na Cabeça! – por tonicato miranda / curitiiba


Por aqui chove um oceano.

Da rua vem o barulho dos pneus chiando no asfalto com tanta água.

Vozes soltas aqui e por lá, além das pombas voando meio perdidas junto à janela do Escritório das Penas Eternas. Todos estão meio desorientados em meio a este momento diluviano. Interessante dizer que estou há pouco mais de 24 horas para retornar para Curitiba. Chega. Já estou cansado de estar ausente de casa. Por mais que existam parentes por aqui, lar é sempre o lar.

É certo que tenho mais amigos aqui do que por aí. Daqueles amigos que se pode falar mal da companheira, dos filhos e até mesmo falar mal de nós mesmos. O ouvido é surdo e escuta tudo calado. Pressente que o momento é de desabafo e se presta à condição de fossa. Claro que não abusamos da amizade nestes momentos, é só um vomitozinho pequeno. Logo nos recompomos e seguimos viagem junto à amizade tão querida. Está claro que têm pessoas que exageram e fazem do ouvido alheio uma Fossa de Java. Destila o fel e a amargura interminável. Acabam por se tornar chaaatos!. Os velhos são dados a esses papéis. Deus e o Diabo livrem-me deste vício. Chamo os dois porque desta pecha não quero ser lembrado. Uma vez que os dois, segundo a mitologia da igreja católica, andaram juntos no começo de tudo, invocando-os em dupla não estou nem pecando, nem sendo ingrato.

Mas falava dos velhos.

Puxa, que chuva incrível!

Sigamos nesta crônica oceânica.

Interessante as queixas do meu pai sobre minha mãe, hoje pela manhã.

Disse-me ele:

__ Sua mãe não me dá descanso. Imagine que se abro a janela um pouco mais ela reclama. Ela quer que a janela fique aberta dois palmos, nem mais nem menos. E a toalha? Se penduro no varal da esquerda, ela reclama porque isto tampa a claridade que entra na cozinha. Pior ainda quando vou comprar verduras e legumes. As batatas têm que ser quase do mesmo tamanho. Caso traga para casa uma grande em meio a um monte mais ou menos do mesmo tamanho, lá vem o esbregue. É difícil, meu filho.

Posso dizer que tenho sido vítima também do humor e das manias da minha mãe.

Do alto dos seus 82 anos, ela tem lá as suas razões, mas tem exagerado um pouquinho. Ontem, antes de dormir lembrou do meu Tio Geninho, espécie de patriarca da Família Mattos. Ele morreu aos 95 anos e 3 meses. Mesmo assim ainda deu algumas ordens a todos aos 95 anos e 1 mês. Minha mãe, citando-o, disse que toda a casa deve dormir arrumada, pois se houver a necessidade da visita de um médico durante a noite ou na madrugada, o que iria pensar o médico sobre uma família desorganizada que dorme sem arrumação?

Dá para imaginar uma colocação dessas? Isto ocorreu a propósito das minhas sandálias que estavam sob uma mesinha de centro quando a minha mãe entrou no quarto da TV para arrumá-las antes de eu dormir. Como estou passando um período aqui em Brasília, na condição de hóspede, engoli em seco. Carona e hóspede prolongado não dão pitaque. Têm de ficar calados.

Ainda bem que passo o dia inteiro longe da casa dos meus pais, somente chegando mais de 21h, todos os dias.

Mas tenho uma pena danada do meu pai!

Coitado do velho, vítima de uma pobre e adorável velhinha.

Caso fechasse o olho e pensasse um pouquinho, acho que não casaria com ela não.

Isto hoje, um momento em que já a conheço há muito tempo.

Mas teve época que a aceitava de forma integral.

Agora, pensaria duas vezes.

Putcha lá vida! Como dizem os curitibocas do interior do município, que chuva lazarenta! Travou a pesquisa de campo no seu último dia, adiando o fecho do trabalho e o reboliço dos estagiários aqui no Escritório das Penas Eternas. Quem sabe amanhã chova menos?

Eu preciso voar em asas de aço, no rumo de Curitiba.

Vou sentir saudades da mãe arrumadinha.

E conto uma última.

Diz meu pai que quando a diarista está limpando a casa ela sai andando atrás da coitada e vai passando a mão sobre os móveis para ver se não sobrou um resquício de poeira.

Ah minha pobre mãe!

Ah mais ainda, meu pobre pai!

O MUNDO É UMA FESTA…fotopoema de rudi bodanese / florianópolis

RUDI

TONINHO VAZ e a MÚSICA de VILLA-LOBOS / rio de janeiro

TONINHO VAZ - BRAVO

O escritor TONINHO VAZ  (biógrafo de PAULO LEMINSKI) recebe em Santa Teresa, Rio, a repórter PAULA NADAL, da revista Bravo. O assunto entre eles era o maestro VILLA-LOBOS, que vai ganhar edição especial em outubro. TONINHO, como já foi noticiado aqui, está escrevendo uma nova biografia do autor de Trenzinho Caipira. O concertista MÁRIO DA SILVA interprete do genial maestro, apresentou algumas peças para violão. Foto de Rocio Infante.

Hermeto Pascoal quer sua obra difundida e libera todas as suas 614 canções / curitiba

Com um bilhete escrito de próprio punho, ilustrado pelo desenho de um sorriso, o músico Hermeto Pascoal deu o seu recado: liberou, para gravações em CD, todas as suas músicas já gravadas. São 614 composições. “Aproveitem bastante”, arremata ele, tornando-se protagonista de mais um capítulo da história dos direitos autorais, que toma novos rumos depois da internet.

O gesto de Hermeto firma o seu passo no território do que hoje se chama de cultura livre: aquela que defende que todo bem cultural, científico e tecnológico produzido pertence à sociedade – e não exclusivamente ao seu criador. “Já terminou o tempo em que as gravadoras tinham o direito de comercializar as minhas músicas, pois eu mesmo quis cancelar os contratos que tinha com elas”, diz Hermeto. Além disso, ele explica que a sua intenção é a de facilitar para que seus “amigos de som, os músicos” possam gravar cada vez mais a sua obra, “sem burocracias e sem custos”. O mesmo artista que, em 1973, gravou um disco com o nome de A Música Livre de Hermeto Pascoal, agora devolve ao mundo o que diz ter aprendido com ele: música.


Menino Criativo

Hermeto Pascoal quer sua obra difundida e libera todas as suas 614 canções


licenciamento_declaracao hermeto



Papai Noel gaúcho com sotaque alagoano!


“Meu nome é Hermeto Pascoal. Nasci em 22 de junho de 1936, no Olho d’Água da Canoa, estado de Alagoas. Sou filho de Pascoal José da Costa e Vergelina Eulália de Oliveira”, escreveu Hermeto, no prefácio de seu livro Calendário do Som (editora Senac e Instituto Itaú Cultural, São Paulo, 2004).
Seria improvável imaginar que, no interior nordestino, um filho de agricultores, albino e de olhos frágeis, pudesse se tornar um gênio da música, com discos gravados no Brasil e no exterior, reconhecimento mundial e agenda de shows, no auge dos seus 72 anos, mais do que concorrida. No entanto, foi ali, naquele canto de mundo, na época sem luz, água encanada nem nada, que o pequeno Hermeto encontrou aqueles que costumam ser os seus maiores parceiros musicais: pássaros, bois, porcos, cavalos, formigas, o barulho do vento, do mato, da chuva. Em uma de suas muitas histórias com animais, conta da vez que assustou vizinhos porque estava de ouvido no chão tentando escutar o ciscar de patas das formigas. Ainda menino, usou de um talo de um pé de jerimum (como é chamada a abóbora, em sua terra) para improvisar um pífano e tocá-lo para os passarinhos. Quando ia se banhar na lagoa, também se demorava tocando na água. As sobras do material do seu avô ferreiro iam parar num varal que, tilintando, gerava sons. Assim passou sua infância, recheada de histórias pitorescas.
O primeiro instrumento que Hermeto aprendeu a tocar foi uma sanfona, de oito baixos, de seu pai. Tinha entre sete e oito anos de idade. Com seu irmão mais velho, José Neto, passou a tocar em festas de casamento, forrós em pé de estrada. Revesava com o irmão a sanfona e o pandeiro. Em 1950, com 14 anos, foi para o Recife com a família e ganhou trabalho se apresentando em programas de rádio. Depois, com o irmão e o sanfoneiro Sivuca, ambos albinos, formou o trio O Mundo Pegando Fogo. Em 1958, Hermeto morava no Rio de Janeiro, tocando no trio Pernambuco do Pandeiro. Três anos depois, foi para São Paulo. Nessa época, trabalhando na noite, já sabia tocar piano e flauta com muita maestria.
No Quarteto Novo, fazendo parceria com Airto Moreira, Hermeto ajudou a música Ponteio, de Edu Lobo, a ganhar o primeiro lugar no 3º Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, em 1967. A convite de Moreira e de Flora Purim, viajou para o Estados Unidos e gravou por lá dois discos, em que atuou como compositor, arranjador e instrumentista. Tornou-se amigo de grandes jazzistas, entre eles nada menos que Miles Davis, com quem gravou duas músicas: Nem um Talvez e Igrejinha, ambas no álbum Live Evil (1970), de Davis.
De lá até hoje, o tempo parece ter passado rápido para Hermeto, músico que chega a compor uma música por dia. Foram inúmeros shows pelo Brasil e pelo mundo, parcerias e histórias das mais diversas. Uma delas aconteceu em março de 1995, quando apresentou uma sinfonia no parque do Sesc Itaquera, na cidade de São Paulo. Para esse espetáculo, Hermeto inventou instrumentos gigantes, que foram distribuídos pelo parque. No mesmo ano, um convite da Unicef o levou à cidade de Rosário, na Argentina, onde se apresentou para duas mil crianças. Detalhe do concerto: os músicos tocaram dentro de uma piscina que, invenção de Hermeto, foi montada no palco.

hermeto foto mulhero músico HERMETO PASCOAL e sua companheira ALINE MORENA.

Livre, na Internet

Não faz muito tempo que computador e internet eram assuntos pouco conhecido de Hermeto. Ao lado de Aline Moreira, sua parceira musical e de vida, ingressou no mundo digital. Aline organizou quatro sites com informações sobre as formações musicais do artista: Hermeto Pascoal e Grupo, Hermeto Pascoal Solo, Hermeto Pascoal e Big Band, Hermeto Pascoal e Orquestra Sinfônica, além, claro, do duo com ela, que se chama Chimarrão com Rapadura. Foi Aline, ainda, a responsável por apresentar ao artista a ideia de cultura livre – algo que, embora desconhecido, já soava tão familiar a Hermeto, que costuma dizer que suas músicas, quando prontas, são jogadas ao vento.
Aline responde aos e-mails endereçados a Hermeto Pascoal, como foi o caso desta reportagem à revista ARede. Ela agradece aos jornalistas por divulgar essa “tão generosa atitude de Hermeto”, se referindo ao seguinte recado deixado no site do artista: “O músico que desejar gravar um CD com algumas ou várias composições de Hermeto Pascoal já lançadas basta imprimir sua autorização, acessando a página “licenciamento” deste site!”. A página “licenciamento” nada mais é do que o bilhete escrito de próprio punho, liberando suas músicas para gravações totais ou parciais. O gesto remete, de alguma forma, a um pensamento que Hermeto expressou, em 1996, em outro recado, dessa vez rabiscado no rodapé de uma partitura (publicada no livro Calendário do Som): “A vida é linda porque estamos sempre juntos. Tudo de bom, sempre”.
Fonte:
http://produtorindependente.blogspot.com/2009/09/hermeto-pascoal-libera-para-gravacao.html