Arquivos Diários: 21 setembro, 2009

SEM CHANCES e A SORTE DOS MERCADORES por raimundo rolim / morretes.pr

Sem chances

Que inferno que nada, gritava o ateu empírico. Deus? Céu? Nem pensar! Não vou e não quero. Recuso-me terminantemente a ir a qualquer desses lugares pelo simples, tranqüilo e justificado motivo de nunca ter comungado com tais Entidades antes. Não seria agora, depois de fazer a grande travessia da vida que se entregaria, assim sem lutas, nem bandeiras. Fez uma careta danada de feia, torceu os braços numa banana sólida. Fora-lhe o último gesto a carregar túmulo adentro.

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A sorte dos mercadores

E veio a neve e veio o frio e veio a chuva e a tempestade e o maremoto. Depois o furacão impiedoso e o granizo, a peste e a fome. Os vulcões explodiram, liberando um forte cheiro de enxofre e na saraivada de impropérios, o carrasco brandindo a machadinha na mão direita com o decreto real na esquerda, despojava a todos de seus bens. Mulheres e filhos abandonados à própria sorte correram, e os trovões se expuseram assustadores. Raios e mais raios coriscaram os céus e a terra com intensidade jamais imaginadas enquanto os cães ladravam. Um dragão saiu do fundo do mar e a besta do Apocalipse roncou alto. Nos campos, os grãos secaram e um terremoto sacudiu a crosta. As montanhas vieram abaixo e os vales se elevaram enquanto a caravana passava tranqüila.


O HOMEM DO NOSSO TEMPO – por otaciel de oliveira melo / fortaleza

Duas concepções do mundo estão sintetizadas em duas frases aparentemente contraditórias, mas de fato utilizadas como complementares pelo homem. A primeira é atribuída a Assis Chateaubriand, O Rei do Brasil em sua época: “sei que vou morrer amanhã, mas ajo como se não fosse morrer nunca”. A segunda, o contraponto, é uma imposição do tempo vindouro: “você vai morrer amanhã e aja considerando esta certeza”. Mais do que duas frases de efeito, elas revelam concepções e práticas de vida voltadas para objetivos apenas ilusoriamente distintos.

A primeira embala os sonhos do homem pretensamente eterno, do capitalista que até o último suspiro pensa numa jogada mirabolante com o objetivo de acumular e morrer como o homem mais rico do mundo. A ética não é o forte desses que empregam todas as suas energias no sentido de amealhar uma quantidade ilimitada de bens materiais, destruindo tudo e a todos que se oponham a essa “lógica” avassaladora e insana. Esse tipo de homem nunca se pergunta sobre o necessário para que sua presença no planeta Terra promova o mínimo de impacto na vida dos outros seres vivos. Sua cobiça aumenta com o crescimento de sua conta bancária. Geralmente eles morrem milionários porque não tiveram tempo de gastar nem mesmo um milésimo de toda fortuna acumulada. E a briga entre os herdeiros freqüentemente começa na sala do velório.

Portanto, esse homem é o construtor e desagregador de impérios familiares, desses que empregam dezenas de advogados para defender seus membros de deslizes junto ao fisco, de mortes provocadas por pegas de automóveis, do consumo de drogas pesadas, de um eventual assassinato de uma “modelo” e de outras loucuras que a sociedade do espetáculo classifica de “excentricidades”. É a estupidez elevada à categoria de genialidade. Eles se acham e agem acima da lei e da ordem e também das regras do mercado. São os vitoriosos a serem imitados. Na Itália essas famílias são chamadas de mafiosas, no Brasil, de abastadas ou tradicionais. Aqui, lá e alhures, todos abusam do poder propiciado pelo dinheiro. Aqui, como em todo lugar do mundo, tudo lhes é perdoado.

A segunda frase, de autoria do tempo vindouro, consegue sensibilizar alguns homens, mas só depois dos 60 anos de idade. Isto porque aos 20 todos os homens se julgam imortais. E nesse intervalo eles se comportam de maneira semelhante aos discípulos de Chateaubriand, sempre perseguindo uma quantidade ilimitada de bens materiais. Geralmente são pessoas remediadas ou pobres que sonham com a riqueza das grandes fortunas, mas apostando em obtê-la da forma mais repentina e fácil possível. São sonhadores que arriscam pequenas quantias em jogos de azar, e os mais endinheirados costumam aplicar parte de seus ganhos nas bolsas de valores de um mundo desequilibrado. Geralmente esses homens têm uma admiração quase bovina por aqueles que são os verdadeiramente donos do mundo. Mas depois dos sessenta anos, muitos começam a pensar numa existência finita.< /p>

Na última quadra da vida, as mudanças hormonais, as doenças hereditárias e adquiridas passam a perturbá-lo. Os vícios da juventude e da maturidade começam a cobrar honorários e os fármacos são incorporados a sua existência até o dia do suspiro final. Alguns desses fármacos servem para estender o prazer sexual por alguns anos, e os antidepressivos para manter um prazer artificial pela vida; alguns permitem que o homem continue respirando, enquanto outros propiciam momentos de lucidez. Mas quando a doença degenera em câncer, o confronto com a morte em muito se antecipa.

E nesta ultima quadra da vida, a do purgatório aqui na Terra, alguns homens procuram se aproximar de Deus: algo indescritível no qual eles nunca acreditaram, mas sempre ouviram falar. Alguns chegam até a pensar no próximo, e que a salvação da alma depende de pequenos gestos de desprendimento e solidariedade. Tornam-se mais mansos, o que para muitos dos que os rodeiam é sinal de sabedoria.

Na realidade, o animal homem nesta fase da vida está com medo do amanhã. De um amanhã com data marcada, finalmente ele percebe. Ele não aprendeu nem desfrutou absolutamente nada da vida porque não teve tempo para desfrutá-la, ele estava sempre ocupado. Mas agora o tempo urge, a percepção lhe foge, a memória lhe falha, os sentimentos se confundem e ele se sente só e com um percepção de inutilidade projetada no espaço vazio das concepções religiosas no qual permanecerá até à última e eterna noite de sono.

NAVEGANTE EM MARES REVOLTOS de laércio zaramela / são paulo


Conheço um poeta taciturno,
que vem banhado à ouro
trazendo em sua bagagem
poemas de grandes amores.

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De vez em quando aparece
sorrateiro e silencioso.
Observo o poeta misterioso,
mas conheço os seus anseios.

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A vida para o poeta
é um laço que enforca
e entrelaça os seus sonhos…
desvendá-los é mistério…

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Mas eu conheço um poeta
escondido entre as rimas.
Constrói momentos como a vida
isolada dentro da própria vida.

THE PRESENT de joanna andrade / miami.usa

I do not know who I am or what I can become

No more

Arrested thoughts by the anguished pain

I render my life to my own dreams of freedom

No more prisoners

No more past

The present loneliness