SARAVÁ, WALMOR! por hamilton alves / florianópolis

Conheci Walmor Marcelino há muitos anos, quando ainda a escola, que freqüentávamos, era, como se costuma dizer, risonha e franca. Falo da escola de jornalismo em que iniciamos praticamente juntos, no Diário da Manhã, do Zedar Perfeito da Silva, velho jornalista e escritor.

Ali ensaiamos os primeiros passos dessa atividade para a qual éramos vocacionados e que só largaríamos, como o fez Walmor, no fim da jornada. Carregou bravamente a tocha até o último suspiro.

O jornalismo que fez foi diferente do meu – um jornalismo de linha de frente, de combate pela justiça social, como bem assinala o necrológio feito na edição de ontem deste “blog”.

Marcelino pensava o mundo por um viés humaníssimo. Queria que todos tivessem acesso aos bens da vida e notadamente aos mais preciosos: educação, saúde, habitação, etc. Por isso, sempre combateu ao lado dos fracos e oprimidos com destemor. Pagou alto preço quando imperou neste país o regime militar, sendo preso várias vezes.

Walmor foi sempre fiel aos seus ideais, Não tinha temperamento nem muito menos formação para aderir, por exemplo, à linha burguesa de ação, na qual sabia que militavam os oportunistas, os que querem os cargos não para exercê-los no bem de todos mas no interesse de grupos (tipo Sarney, p. ex.) – só para citar um lídimo representante dessa corrente.

Walmor era um idealista e seu ideal estava colocado acima do cidadão Walmor Marcelino. Colocava-o muito alto, a uma altura quase inalcançável pela maioria de seus concidadãos. Era meio quixotesco na forma como encarava sua brava luta. Sabendo-se quase só ou um dos poucos que ainda alimentavam esse sonho de transformação do mundo pela perseverança ou pela doutrinação desses ideais puros.

Marcelino editou meu primeiro livro – uma pequena novela – a que dei o título de “O velho da aldeia”. Ele o alterou para “O velho e a aldeia”, que lhe dava uma semelhança com a novela de Hemingway “O velho e o mar”. Mas não fez isso deliberadamente; nunca o faria. Deve ter se equivocado. Acompanhei-o até sua casa, em Curitiba, para pegar os trezentos exemplares do livro. Antes havíamos nos encontrado na Ilha e me perguntou: – “Tens alguma coisa para editar?”

Guardava os originais datilografados dessa novela na gaveta fazia um bocado de tempo.

Mostrei-os para o Walmor. Levou-os para editar. Poucos meses depois entrou em contato comigo, informando-me que concluira a edição por sua editora “Hoje”. Fiquei radiante com a beleza, embora artesanal, da edição desse livro.

Há pouco, o Vidal , editor deste “blog”, me convidou para um encontro com ele em Santo Amaro da Imperatriz, onde fora descansar. Mas subitamente       teve que retornar a Curitiba. Perdemos essa chance de voltar a nos ver e relembrar os velhos tempos.

Walmor fez grandes amigos aqui na Ilha e certamente em Curitiba, onde morou longos anos, vindo a falecer há pouco.

Era um dessas raras figuras de combatente,  de uma só têmpera, de uma só linha, de um caráter inquebrantável na defesa destemida de seus sonhos.

Legará seu exemplo de retidão e de espírito de luta.

Saravá, Walmor!

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