Arquivos Diários: 28 setembro, 2009

A CANALHA SE ESPOJA – último texto escrito por WALMOR MARCELLINO enviado, hoje, por sua esposa ELBA

O povo é bom, mas é interesseiro e ingênuo, para não ser visto como burro. Este apotegma, a sua vez, é primarista, apofântico e cruel, mas a ele somos conduzidos pela atitude de classe e sua presunção de verdade. Essa “verdade” é o pensamento politicamente correto e conforma a ideologia civilizatória com que nos afagam.

Sem uma rigorosa análise de classe, de dentro das lutas sociais e com a responsabilidade de discerni-las do ponto de vista do trabalho, de sua dinâmica produtiva e de sua força inovadora, o discurso ideológico passou a ser o poder artificioso com que se explicam e garantem a hegemonia de classes e a justiça de sua imposição a todos.

(Walmor Marcellino, em 07/9/2009)

WALMOR MARCELLINO, jornalista, poeta, escritor, filósofo e dramaturgo.

WALMOR MARCELLINO, jornalista, poeta, escritor, filósofo e dramaturgo.

UM ARTIGO DE WALMOR:

REDOBLES A ERNESTO SERNA

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E a política como atitude e conduta; como ética, vivência e recompensa? Saiu do calendário porque não é mais valor ou nunca o foi na sociedade de classes; um farisaísmo de mercado para obrigar exação de negócios? E então, para ganhar credibilidades e confianças, assumimos compromissos senão incorporamos doutrinas sociais para alcançar vantagens?

A epopéia presente é para cada um apenas a busca de sobrevivência, como aventura existencial já não ante a natureza inóspita, não só ante as faltas pessoais e atrasos comunitários, mas sob a esperança que nos impele adiante e exalça por virtudes, e como cultura da dignidade de que dizem somos portadores: tenhamos mercê ou destino.

Remanesce em nossa cultura política a idéia vã de entrega e martírio, e então acreditamos em caudilhismos nas lutas sociais e martírios de uma causa comum; queremos, precisamos crer; seja porque existem exemplos e eles estão sufragados no imaginário coletivo, seja porque se multiplicam as tentativas de salvaguardar nosso compromisso da mutualidade.

O que tem a ver Gilgamesh com (São) Sebastião Arqueiro, martirizado em Roma no Século III, com Sebastião (Dom), o Desejado, XVI rei de Portugal, desaparecido aos 24 anos na batalha de Alcácer ? Talvez o espírito de Masaccio (Tommaso de Ser Giovanni, 1401) em busca das formas puras, quem sabe o Sebastianismo como um tropo (translação historicista do sentido martiriológio); ou, ainda, como quixotismo reinol em sua nobreza montada, ou poderia ser simples quixotada de estultas grandezas, por teimosias e caturrices, de obscurantismos cruzados em paranóias? Quem souber explique a este pobre Sancho Panza (Vida de Don Quixote y Sancho, ensayos, Don Miguel de Unamuno) que com utopias, grandezas e vilezas nos enredamos:

“Advirtas-te, irmão Sancho, que esta aventura e aquelas a esta semelhantes não são aventuras de ilhas (*fortuna), senão de encruzilhadas, nas que não se ganha outra coisa que decepada a cabeça ou uma orelha a menos.” Esse então seria o bom combate, sob regras de cavalaria, ou gigantismo do ego no atropelo a cada um?

Mas sem a altanaria do “Cavaleiro da Figura Triste” nem o despojado sensualismo de Sancho, o que faremos? Apenas advertir à Unamuno: “creio que se pode tentar a santa cruzada de ir resgatar o sepulcro de Don Quijote do poder dos bacharéis, curas, barbeiros e canônicos (vigários e regras) que o ocuparam”…

Alvitrarão: o que tem a ético-política e o socialismo que ver com os sentimentos, aspirações e utopias? Tudo o que pudermos encontrar na encruzilhada quando nos avulta grandioso Don Quijote de La Mancha a olhar para o horizonte.

MIUDEZAS de josé fernando nandé / curitiba

Juntem esses poucos retalhos,
Juntem esses pequenos ciscos,
Juntem os pensamentos apequenados,
Juntem as migalhas da mesa,
Juntem o que nos sobra direito ou torto,
Juntem essas pequeninas coisas
Porque é de miudezas que se enche o mundo.

Juntem os últimos suspiros dos moribundos
Juntem tudo que vaga entre os vagabundos
Porque é a partir do miúdo que se explica o todo.

Juntem o ar da manhã com o vento noturno
Juntem os signos às luas de Saturno
Juntem o perdão à pena do condenado
Juntem o remédio aos irremediados
Porque é da miudagem que se tem o inteiro.

Juntem tudo que não presta
Juntem tudo que tem serventia
Juntem tudo e bem juntado
Porque é da miuçalha que o Universo se veste.

TRILHAS E CAVALGADAS de marilda confortin / curitiba

Hora dessas, solto o freio

e laço este tordilho

sento no teu arreio

e te boto nos trilhos.

Nem que eu leve um tombo
e rasgue as a meias finas,

eu galopo no teu lombo
agarrada nas tuas crinas


Um dia ainda amanheço
“decorando tua geografia”

viro este guapo do avesso

ou não me chamo Maria

Pra te deixar feliz da vida,

uma noite, ainda eu laço

aquela lua exibida

e boto ela em teus braços.

Mas depois, juro que faço

um picadinho daquela china

porque, eu mando aqui em baixo

ela que fique lá em cima.

Uma hora dessas, qualquer

quando me bater a fome

vou querer ser tua mulher

e tu vais ser o meu homem

Depois?  Ah, depois tu voltas pra ela
e tudo fica em seu lugar
afinal, porque fizeram janelas

senão pra gente pular?

NAURO MACHADO e sua poesia / são luis.ma

Como te massacraram, ó cidade minha!
Antes, mil vezes antes fosses arrasada
por legiões de abutres do infinito vindos
sobre coisas preditas ao fim do infortúnio
(ânsias, labéus, lábios, mortalhas, augúrios),
a seres, ó cidade minha, pária da alma,
esse corredor de ecos de buzinas pútridas,
esse vai-e-vem de carros sem orfeus por dentro,
que sem destino certo, exceto o do destino
cumprido por estômagos de usuras cheios,
por bailarinos bascos sem balé nenhum,
por procissões sem deuses de alfarrábios velhos,
por úteros no prego dos cachos sem flores,
por proxenetas próstatas de outras vizinhas,
ou por desesperanças dos desenganados,
conduzem promissórias, anticonceptivos,
calvos livros de cheques e de agiotagem,
esses lunfas políticos que em manhãs — outras
que aquelas já havidas, as manhãs do Sol —
saem, quais ratazanas pelo ouro nutridas,
apodrecendo o podre, nutrindo o cadáver.
Se Caim matou Abel e em renovado crime
Abel espera o dia de novamente ser
assassinado em cunha de rota bandeira,
que inveja paira em Tróia ou em outro nome qualquer
da terra podre e azul de água e cotonifícios?
Mutiladas manhãs expõem-se nas vitrinas
de sapatos humanos mendigando pés,
de vestidos humanos mendigando peitos,
de saias humanas mendigando sexos.
Esta é Tróia!, o vigésimo século em Tróia,
blasfemam as fanfarras de súbito mudas
nos ouvidos mareando a pancada da Terra.

DOMINGO É UM NOME E UM DIA PODE SER DOMINGO por joão henrique / teresina


Assustado levantou-se pensando ser manhã quando já passara à tarde. Onde ela estará?, pensou em ligar, mas havia perdido o aparelho celular com todos os números. Passou os dedos pelo novo aparelho com a impotente certeza de não haver ali os números que lhe importam.
– porra, merda, telefone idiota.


Seu cinismo não impede uma ida aos caminhos virtuais. Não há encontro, ela não se encontra. É como se uma mulher gorda, dessas balofas mal vestidas, de bobes na cabeça, óculos de lentes grossas, e cara feia, dissesse a um pobre garotinho de treze anos, que lhe bate à porta a procura da garotinha neta dessa velha, que diz, a quase meio riso, “ela não está”. Não tem nada disso, nem mulher gorda ou netinha. Que viagem, pensa. Mas ela não está, deveras aqui ela não se encontra.
não lhe resta mais nada.
toca Chico aos fones de ouvido. Lá fora o sol das quatro horas começa a emprestar um brilho cansando que ensolara os domingos. Os carros passam indo ou vindo de algum programa dominical. Ele com esse semblante de ontem.
– cara de sábado em domingo, e esse dia que não começa, merda!


Almoça. Fuma o cigarro pós-almoço. Mais um pedaço da tarde, já às cinco horas, esse laranja, essas pessoas, esse riso de ida à sorveteria.
– eu deveria ir à sorveteria lembrar dela comendo um sorvete. Que idiota, lugar de lembranças é mesa de bar e não sorveteria. Eu poderia pegar um ônibus e dá umas voltas pela cidade, eu poderia fazer tanta coisa e não faço nada, diz-se a si.
Ouve Chico e anda pela casa. A mãe lhe pergunta o que tem. A avó lhe oferece algo pra comer,
– não, obrigado, responde.
– também, não para de beber, de fumar… perdeu até a fome, lhe diz a mãe.
– obrigado. Apenas responde como se ainda fosse parte da primeira resposta.


A tarde de domingo se vai.
olha os vizinhos às portas.
– quem será a manchete da vez, fala baixinho a si mesmo.
Fuma outro cigarro. Ao fundo ainda se pode ouvir, mesmo baixinho, vindo do quarto, os versos de Chico, “a dor da gente não sai no jornal”.
– porra, o Chico é foda.
Entrou a casa. Banhou-se. Vestiu-se, tendo o cuidado de pôr uma roupa que lhe desse sorte.
– vai com essa camisa branca, fica tão bonito, diz-lhe a mãe.
– essa não me dá sorte.
A mãe compreende porque sofre da mesma sandice.
– não dá sorte como?
– não é que não dê sorte, é que não acontece do jeito que era pra acontecer, mas isso com assuntos sérios, mas pra fuá dá certo. Não sei como é, mas não dá certo o que eu iria fazer, porém acontecem outras coisas boas. Dá errado, mas dá certo.
– tem coisa que é assim, dá certo, mas dá errado também.
– e isso é foda, né mamãe?
– é… é foda, responde a mãe.
Veste a camisa branca, se olha no espelho, “certo, mas errado”, pensa.
Frente ao espelho, assanha o cabelo do modo que lhe apraz. Sorrir Abre a boca. Manda um beijo a si mesmo. Sorri um riso mais evidente. Olha os dentes e as rugas. Entra no quarto e despede-se.
– não beba muito, hoje é domingo, lembra-lhe a mãe.
– pode deixar, eu sei que hoje é domingo. E quem não poderia saber que hoje é domingo minha mãe.
– vai sair com essa camisa mesmo?
Olha pra si, como se já houvesse esquecido com que roupa estava.
– é, vai que não dá certo de eu chegar na hora marcada, mas que eu chegue na hora certa.
– hora de quê?
– nada mamãe, até mais tarde
– não beba, não fume, não…

Dobra a esquina. Pára e olha.
Hoje é domingo. Eu não sei onde ela está. Não tenho pra onde ir, a não ser para minha noite de ontem, mas hoje é domingo, pensa. Logo surge uma caravana balançando bandeiras e apitando. Mais um candidato passa e fica a rua suja como prova do apreço que tem com a cidade que ele promete melhorar.

A rua. A réstia de sol.
Ela, certo e errado. Blusa branca, corpo sem rumo.


– bonita camisa, Pedro, diz uma velha vizinha de sua infância.
– obrigado

A rua não leva ninguém que não ande. Pedro fica a contemplar os últimos raios de luz do domingo.
Fuma outro cigarro. Volta pra casa.
– já chegou meu filho. Deu certo o que você ia fazer?
– deu. Quer dizer, ainda não. Deu certo porque deu errado
– como assim?
– deu certo porque deu errado. Deu errado porque eu não fui.
– e que deu certo?
– deu certo em dá errado, eu não sei, mas agora eu vou a outro lugar. Vou tomar uma cerveja como meu amigo Charles. Sabe mãe, deu certo porque eu não tinha pra onde ir. E ela não está nesses lugares que eu alcanço.
– quem é ela, eu conheço?
– não. Ainda não
– mas todo mês tu te apaixona…
– mãe, isso é bom ou ruim?
– não sei
– mas agora é serio, mãe
– mas toda vez é … acho que isso é como a camisa branca
– como assim?
– certo e errado, é bom e é ruim
– é… mas até eu gastar isso, é muito bom
– sabe Pedro…

A mãe ainda falava, mas Pedro já trocava de roupa. Assanhava os cabelos. Despedia-se da mãe e dá avó
– já vai sair de novo
– até mais tarde mamãe, vou ali que hoje ainda é domingo
– não demore
– tá.
Respondeu e saiu pra curar-se do domingo. Já estava na correria de segunda-feira ao fim daquele domingo.
Atravessou a rua em direção ao bar de sempre. Sentou-se. Pediu uma cerveja e cumprimentou o dono do bar.
– amanhã é segunda
– o quê?, perguntou o dono do bar, pensando ter ouvido o cliente falar-lhe algo.
– Amanhã é segunda-feira, Vicente. Segunda é um dia mais fácil de encontrar quem queremos.
Vicente se afastou. Entrou ao bar e pôs Chico pra tocar. Pedro recostou-se na cadeira. Acendeu outro cigarro. Deitou a saudade num verso de Chico.

Ao passar dos goles, Ela foi chegando às lembranças até a madrugada de segunda-feira, ainda na mesma noite de domingo.

Já à madruga de segunda-feira Pedro atravessa a praça rumo a sua casa, vestindo uma camisa típica de domingo.

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