DOMINGO É UM NOME E UM DIA PODE SER DOMINGO por joão henrique / teresina


Assustado levantou-se pensando ser manhã quando já passara à tarde. Onde ela estará?, pensou em ligar, mas havia perdido o aparelho celular com todos os números. Passou os dedos pelo novo aparelho com a impotente certeza de não haver ali os números que lhe importam.
– porra, merda, telefone idiota.


Seu cinismo não impede uma ida aos caminhos virtuais. Não há encontro, ela não se encontra. É como se uma mulher gorda, dessas balofas mal vestidas, de bobes na cabeça, óculos de lentes grossas, e cara feia, dissesse a um pobre garotinho de treze anos, que lhe bate à porta a procura da garotinha neta dessa velha, que diz, a quase meio riso, “ela não está”. Não tem nada disso, nem mulher gorda ou netinha. Que viagem, pensa. Mas ela não está, deveras aqui ela não se encontra.
não lhe resta mais nada.
toca Chico aos fones de ouvido. Lá fora o sol das quatro horas começa a emprestar um brilho cansando que ensolara os domingos. Os carros passam indo ou vindo de algum programa dominical. Ele com esse semblante de ontem.
– cara de sábado em domingo, e esse dia que não começa, merda!


Almoça. Fuma o cigarro pós-almoço. Mais um pedaço da tarde, já às cinco horas, esse laranja, essas pessoas, esse riso de ida à sorveteria.
– eu deveria ir à sorveteria lembrar dela comendo um sorvete. Que idiota, lugar de lembranças é mesa de bar e não sorveteria. Eu poderia pegar um ônibus e dá umas voltas pela cidade, eu poderia fazer tanta coisa e não faço nada, diz-se a si.
Ouve Chico e anda pela casa. A mãe lhe pergunta o que tem. A avó lhe oferece algo pra comer,
– não, obrigado, responde.
– também, não para de beber, de fumar… perdeu até a fome, lhe diz a mãe.
– obrigado. Apenas responde como se ainda fosse parte da primeira resposta.


A tarde de domingo se vai.
olha os vizinhos às portas.
– quem será a manchete da vez, fala baixinho a si mesmo.
Fuma outro cigarro. Ao fundo ainda se pode ouvir, mesmo baixinho, vindo do quarto, os versos de Chico, “a dor da gente não sai no jornal”.
– porra, o Chico é foda.
Entrou a casa. Banhou-se. Vestiu-se, tendo o cuidado de pôr uma roupa que lhe desse sorte.
– vai com essa camisa branca, fica tão bonito, diz-lhe a mãe.
– essa não me dá sorte.
A mãe compreende porque sofre da mesma sandice.
– não dá sorte como?
– não é que não dê sorte, é que não acontece do jeito que era pra acontecer, mas isso com assuntos sérios, mas pra fuá dá certo. Não sei como é, mas não dá certo o que eu iria fazer, porém acontecem outras coisas boas. Dá errado, mas dá certo.
– tem coisa que é assim, dá certo, mas dá errado também.
– e isso é foda, né mamãe?
– é… é foda, responde a mãe.
Veste a camisa branca, se olha no espelho, “certo, mas errado”, pensa.
Frente ao espelho, assanha o cabelo do modo que lhe apraz. Sorrir Abre a boca. Manda um beijo a si mesmo. Sorri um riso mais evidente. Olha os dentes e as rugas. Entra no quarto e despede-se.
– não beba muito, hoje é domingo, lembra-lhe a mãe.
– pode deixar, eu sei que hoje é domingo. E quem não poderia saber que hoje é domingo minha mãe.
– vai sair com essa camisa mesmo?
Olha pra si, como se já houvesse esquecido com que roupa estava.
– é, vai que não dá certo de eu chegar na hora marcada, mas que eu chegue na hora certa.
– hora de quê?
– nada mamãe, até mais tarde
– não beba, não fume, não…

Dobra a esquina. Pára e olha.
Hoje é domingo. Eu não sei onde ela está. Não tenho pra onde ir, a não ser para minha noite de ontem, mas hoje é domingo, pensa. Logo surge uma caravana balançando bandeiras e apitando. Mais um candidato passa e fica a rua suja como prova do apreço que tem com a cidade que ele promete melhorar.

A rua. A réstia de sol.
Ela, certo e errado. Blusa branca, corpo sem rumo.


– bonita camisa, Pedro, diz uma velha vizinha de sua infância.
– obrigado

A rua não leva ninguém que não ande. Pedro fica a contemplar os últimos raios de luz do domingo.
Fuma outro cigarro. Volta pra casa.
– já chegou meu filho. Deu certo o que você ia fazer?
– deu. Quer dizer, ainda não. Deu certo porque deu errado
– como assim?
– deu certo porque deu errado. Deu errado porque eu não fui.
– e que deu certo?
– deu certo em dá errado, eu não sei, mas agora eu vou a outro lugar. Vou tomar uma cerveja como meu amigo Charles. Sabe mãe, deu certo porque eu não tinha pra onde ir. E ela não está nesses lugares que eu alcanço.
– quem é ela, eu conheço?
– não. Ainda não
– mas todo mês tu te apaixona…
– mãe, isso é bom ou ruim?
– não sei
– mas agora é serio, mãe
– mas toda vez é … acho que isso é como a camisa branca
– como assim?
– certo e errado, é bom e é ruim
– é… mas até eu gastar isso, é muito bom
– sabe Pedro…

A mãe ainda falava, mas Pedro já trocava de roupa. Assanhava os cabelos. Despedia-se da mãe e dá avó
– já vai sair de novo
– até mais tarde mamãe, vou ali que hoje ainda é domingo
– não demore
– tá.
Respondeu e saiu pra curar-se do domingo. Já estava na correria de segunda-feira ao fim daquele domingo.
Atravessou a rua em direção ao bar de sempre. Sentou-se. Pediu uma cerveja e cumprimentou o dono do bar.
– amanhã é segunda
– o quê?, perguntou o dono do bar, pensando ter ouvido o cliente falar-lhe algo.
– Amanhã é segunda-feira, Vicente. Segunda é um dia mais fácil de encontrar quem queremos.
Vicente se afastou. Entrou ao bar e pôs Chico pra tocar. Pedro recostou-se na cadeira. Acendeu outro cigarro. Deitou a saudade num verso de Chico.

Ao passar dos goles, Ela foi chegando às lembranças até a madrugada de segunda-feira, ainda na mesma noite de domingo.

Já à madruga de segunda-feira Pedro atravessa a praça rumo a sua casa, vestindo uma camisa típica de domingo.

Uma resposta

  1. olá meu caro amigo JB Vidal.
    agradeço a postagem. gosto muito do seu espaço. e fique a vontade em passear por meu blog, e gostando republique o que lhe agradar.
    grande abraço,
    joao henrique vieira

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