Arquivos Diários: 29 setembro, 2009

DE LANTERNA NA MÃO por sergio da costa ramos / florianópolis

Acendo uma lanterna, e como um Diógenes no meio de uma floresta de letras, procuro uma boa notícia nos jornais. É como procurar um varão de Plutarco no Senado.

Aliás, a primeira má notícia é exatamente a da próxima votação, já marcada no Senado: a PEC dos Vereadores, pelaSERGIO DA COSTA RAMOSqual será alterada a relação de “edis per capita”.

As manchetes dos jornais refletem a realidade escabrosa:

– Casal Kirchner persegue Clarín com fiscalização!

– Sarney esquece malfeitorias e quer liberdade na internet!

– Piquet confessa que bateu de propósito!

O foco da lanterna de Diógenes vai derramando seu círculo de luz sobre uma coleção de más notícias:

– PMs são presos por tráfico no Rio.

– Gangue mata desafetos e depois bebe o sangue.

– PCC e Comando Vermelho querem fundar “fraternidade”.

– Argentina vai importar trigo e pãozinho de 50 gramas já custa R$ 0,30.

– Brasil não está imune a terremotos.

Meu Deus, até essa. Atravessei a infância e a adolescência com os mais velhos enaltecendo essa “qualidade” brasileira. “Trata-se de um país abençoado por Deus. É o único lugar do mundo que está livre de terremotos”, repetia o velho realejo patrioteiro, no mais puro estilo do conde Afonso Celso.

Pois agora vem o geofísico Lucas Vieira, da Universidade de Brasília, e garante que não é bem assim:

– Foram descobertas 48 falhas na placa tectônica brasileira, locais que podem ser vítimas de terremotos a qualquer momento.

O mito da intangibilidade era “falta de informação e de conhecimento técnico”.

Depois dessa, qualquer má notícia não chega a ser surpreendente. E elas se sucedem, distribuídas entre monstrinhos que espancam velhinhas, esfolam bebês, assassinam pais e mães. A mãe que jogou a própria filha num rio, netinhos drogados que esfaqueiam avós, famílias inteiras que traficam drogas até na porta de um jardim de infância.

Parece que o vaso da sensatez quebrou-se em mil pedaços na consciência do Brasil.

Agora, de manhãzinha, chega mais esta:

– Santa Catarina terá mais 287 vereadores!

Está na hora de alguma providência.

Por exemplo: procurar um “telefone vermelho”, daqueles que interligava as grandes potências na época da Guerra Fria, e ligar diretamente para Ele, o Todo-Poderoso, buscando uma fórmula caridosa de desarmar tragédias.

E perguntar, sem papas na língua:

– Acaso esquecestes que és brasileiro?

MINISTRA DILMA ROUSSEFF livre da doença afirma: “Pronta para o que der e vier”

A ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) anunciou ontem que finalizou o tratamento contra o câncer linfático que descobriu há cinco meses e que está pronta “para o que der e vier”, em referência à campanha presidencial de 2010.

Em nota, os médicos do hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, que cuidam da ministra, afirmaram que, “após exaustivos testes, foi constatado que o tratamento atingiu o resultado esperado e que Dilma Rousseff encontra-se livre de qualquer evidência de linfoma, com estado geral de saúde excelente, podendo retornar à sua rotina normal”.

– Me sinto muito feliz porque a sensação que tenho, depois de acabar o tratamento e de ele ter sido feito com grande

DILMA ROUSSEFF em Caruaru. foto livre.

DILMA ROUSSEFF em Caruaru. foto livre.

sucesso, é de muita energia. O que eu fiquei muito feliz é que eles (médicos) disseram para mim: “Você tem condições totais de agora em diante, sem nenhum cuidado diferente do que qualquer pessoa tem que ter consigo mesmo ao exercer qualquer atividade” – afirmou a Dilma.

Questionada se está pronta para a campanha, pela primeira vez a ministra não desconversou:

– Estou pronta para o que der e vier. O que aparecer na minha vida eu acho que vou encarar.

Dilma afirmou que o momento mais difícil que enfrentou foi quando recebeu a notícia de que tinha câncer.

– Cada um de nós lá no fundo acha que nunca vai ter nada. Então, quando você recebe a notícia, ainda está muito despreparado para ela – disse.

A ministra disse que está conversando com o Ministério da Saúde para saber como é feito o tratamento do câncer no Sistema Único de Saúde (SUS) e que quer entender por que o medicamento Mabthera, que utilizou no tratamento, não é distribuído no país inteiro gratuitamente.

BRASÍLIA.

OUTRO OLHAR: LULA PALOMANES, a arte sem limite de transgressão – II – por bruno liberati / rio de janeiro

Uma mirada de viés que entorta a realidade. Um trabalho cerebral, com muito de experimentação e suor nesta procura.

Lula, esta é sua assinatura. Por trás dela está a pessoa física de Luiz Fernando Palomanes Martinho, que nasceu em 1963, na cidade do Rio de Janeiro. Mistura de espanhol com português, é bom que se saiba que não é cartunista, nem chargista.  Apesar de seu humor ferino, ele pode ser classificado como artista gráfico. Suas caricaturas são desconcertantes e soberbas. É quase impossível adjetivá-las. O espanto que suas artes provocam ultrapassam todas as categorias conhecidas. Admirador de Rembrandt , Velázquez, Francis Bacon, Picasso e Egon Schiele – Lula já passou Lula_Palomanesmuitas noites observando de perto e de longe as reproduções das obras desses mestres da pintura. (Não contem para ninguém, mas me informaram que ele não dorme à noite. Passa esse tempo lendo, desenhando e estudando as obras de seus artistas prediletos – só vai descansar quando o sol anuncia a manhã que chega, isto depois de comprar o pão na padaria da esquina).

Lula é um magnífico ilustrador e dono de uma personalidade forte. Imprime aos seus trabalhos um signo único, uma forma própria de elaborar a exageração, uma mirada de viés que entorta a realidade e a busca de uma nova forma a cada obra. Seu trabalho é cerebral, mas tem muito de experimentação e suor nesta procura. Além da influência dos grandes das artes plásticas, compõe seu aprendizado a observação de mestres do “campo gráfico”, como Luis Trimano, Cássio Loredano, Rubem Grilo, Ralph Steadman e Gerald Scarfe.  Mas não se pode dizer que botou tudo isso no seu liquidificador pessoal e saiu por aí desenhando. Sua expressão é algo que ultrapassa esse caldo cultural e se projeta como algo “inaudito”, talvez o único adjetivo que se aproxima da sua singularidade.

Começou a mostrar sua arte nas páginas de O Pasquim e depois migrou para a chamada “grande imprensa” do Rio de Janeiro – trabalhou em O Globo e no Jornal do Brasil. O nosso herói gráfico publicou seus trabalhos também nas revistas ImãNebelfpalter eGráfica. Fez capas para as editoras Zahar, Record e Rocco, ilustrou  as revistas SeleçõesPlayboy Ciência Hoje. Tem uma medalha de prata pendurada em sua prancheta, conferida pela Society for News Design por uma caricatura de Gore Vidal, que publicou em O Globo. Mas não pensem que Lula contemplou com sua arte apenas o mundo dos adultos , ele com grande sensibilidade e versatilidade também ilustrou vários livros infantis.

CARTOLA _outro_olhar_01CARTOLA

CHICO ANISIO_outro_olhar_02CHICO ANÍSIO

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CLAMOR de joão batista do lago / são luis.ma

( Dedicado ao poeta russo  Maiakóvski)

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Estranhamente acordo pensando Maiakóvsky!

Coisa estranha!

Ou talvez nem tão estranha assim!

Sinto-o dentro da minha carne

Como alma prenhe de versos inacabados…

Por onde andas, ó grande irmão?

Por que te fostes me deixando tão só?

Sinto tua presença nos meus versos

Eles são tão angustiados quanto os teus:

“Levantei-me como um atleta,
levei-o como um acrobata,
como se levam os candidatos ao comício,
como nas aldeias se toca a rebate
nos dias de incêndio.
Clamava:
“Aqui está, aqui! Tomai-o!”
Quando este corpanzil se punha a uivar,
as donas
disparando
pelo pó, pelo barro ou pela neve,
como um foguete fugiam de mim.
– “Para nós, algo um tanto menor,
algo assim como um tango…”
Não posso levá-lo
e carrego meu fardo.
Quero arremessá-lo fora
e sei, não o farei.
Os arcos de minhas costelas não resistem.
Sob a pressão
range a caixa torácica.”

Eis-me, aqui, personagem da tua poética

Carregando o meu velho fardo:

Agonia que não me transcende

Que não me permite arremessá-lo

Para além da minha caixa torácica

A pressão de me viver é tanta e quanta

Tanto e quanto é o desejo de me arremessar

No vazio da eternidade profana

Onde poderíamos fazer um poema universal

Próprio do mundo imaterial, mas sem os valores espirituais das seitas

Garbo, assim, ó grande irmão

Nas fileiras de homens sem hoste. Sem coração.

De homens condenados a inanição

De gentes que rangem entre costelas

A falta do emprego que lhe garanta o pão

(- “Para nós, algo um tanto menor,
algo assim como um tango…”)