CABEÇA – de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

Saia apenas para fazer compras

pela rua pavimentada

com ovos de avestruz.

Sempre vestido com roupas fúnebres.

Acima do paletó não tinha face

só a palavra cabeça.

Uma maça mordida nasceu no antebraço.

Em sua casa

há um altar com severos

livros de contabilidade vermelhos.

Nas tardes lembrava da pedra

que foi sua ama-de-leite.

Quando sua cadeira quebrou uma perna

fez de uma pomba velha o calço.

Araras saem

do congelador de sua geladeira.

Sempre calado,

boca empoeirada

e língua mumificada.

Sua mão de abutre com tendinite

bicam o controle apodrecido da tv.

Tentou escrever poemas

mas as folhas ficavam velhas e amareladas

quebradiças como os manuscritos do mar morto.

Da janela olha as ruínas de Olímpia

que parece-lhe um cemitério de elefantes.

Todo o dia

espera pela volta da morte reclamando da demora,

resmungando sempre:

Morremos duas vezes

antes de nascer e depois de viver.

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